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Distopia

António Carvalho
Publicado em 2019-04-01

As distopias clássicas apresentam-se frequentemente como um sistema social em que se maximizam as dimensões nefastas da modernidade, incluindo aspetos burocráticos, tecnológicos, tecnopolíticos e ideológicos. Desde o “1984” e o “Triunfo dos porcos” de George Orwell, passando pelo “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, até ao “Castelo” e “O processo” de Franz Kafka, assistimos a constelações sociais em que há uma hegemonia das matrizes tecnológicas, administrativas e ideológicas que “esmagam” os sujeitos individuais.

 

Somos confrontados com aquilo que Junger designava como formas de mobilização total, associadas ao que Sloterdijk caracterizou como as utopias cinéticas da modernidade; o aparato político-tecnológico assume singularidade e torna-se independente dos seus criadores, reduzindo os humanos a meras peças utilizadas para a perpetuação do sistema.

 

No caso do filme “Matrix” dos irmãos Wachowski, estamos perante uma tecnodistopia em que o mundo real deixa de estar ao alcance da prole. Os seres humanos estão permanentemente ligados a uma realidade virtual que permite o usufruto da vida quotidiana – acesso a alimentos, emprego, habitação, sexo, etc. No entanto, os seus corpos estão armazenados numa dimensão pós-apocalíptica, reduzidos a baterias para perpetuar um sistema controlado por máquinas. A Solid State Intelligence, de que falava John C. Lilly nos seus delírios induzidos por psicadélicos como LSD e Ketamina, reduz as bolsas resistentes de humanos a pequenos oásis ecológicos de suporte de vida. Nos sistemas distópicos, a humanidade não resiste ao peso da modernidade e é liquidada pela marcha da grande aceleração industrial.

 

As distopias, para além de uma categoria de ficção, são a conjugação de forças tecnológicas, sociais e políticas que emergem através da convergência do aparato moderno. A tecnovigilância, a poluição, as alterações climáticas, a propagação de ideologias totalitárias através da máquina mediática e a proliferação de técnicas de controlo psicológico transformaram os localismos globalizados da modernidade num Golem que foge ao controlo do seu criador. Bruno Latour lembrou-nos que ainda não aprendemos a cuidar do monstro da modernidade – como a criação de Frankenstein, este entrou numa espiral homicida. Também nós, modernos, nos espantámos com a potência da húbris entrelaçada com o aparato tecnocientífico que nos constitui. Como afirmou McLuhan, transformámo-nos nos órgãos sexuais da tecnologia, e já não necessitamos de recorrer à ficção para imaginar o fim da agência humana – assistimos diariamente a milhares e milhares de humanos hipnotizados pelos ecrãs dos seus dispositivos tecnológicos, biliões de sinapses sincronizadas com a matriz tecnoafetiva que emerge a cada nanossegundo.

 

As distopias Zombie não são mais um mundo pós-apocalíptico no qual um pequeno grupo de resistentes tenta escapar para um oásis seguro e estável - assumem-se sim como o reconhecimento de que essa utopia paradisíaca e não contagiada não tem mais lugar neste planeta. Se Mordor, no Senhor dos Anéis, é uma distopia extrativista pós-mineração em que à terra foi roubada a sua energia vital, no Antropoceno os humanos consumem os cadáveres e fantasmas dos seus antepassados. Os combustíveis fósseis que alimentam a máquina tecnodistópica e vigilante são uma canibalização da nossa memória histórica, uma expressão do ímpeto consumista que ilustra a indissociabilidade entre degradação ambiental e a queda da humanidade.

 

Séries como Black Mirror, colocam as tecnodistopias na ordem do dia. Na China, o sistema de crédito social materializa a estreita associação entre tecnologias, vigilância e controlo social. A perda de créditos impede a mobilidade, o acesso a bens e serviços e resulta no ostracismo social – para se poder participar na dança distópica da contemporaneidade, é necessário incorporar a sua ontopolítica enquanto vocação individual. As tecnologias do sujeito da contemporaneidade deixam de estar associadas a uma série de exercícios e práticas espirituais – as subjetividades são literalmente produzidas por dispositivos materiais como smartphones, tablets e laptops.

 

Com os avanços da inteligência artificial será possível o desenvolvimento de feedback loops cada vez mais otimizados e com capacidade de preverem e se reajustarem ao comportamento humano. Se, na emancipação e transformação social, há um certo nível de novidade - para que a contestação se possa constituir enquanto evento disruptivo - a emergência das tecnodistopias contemporâneas manifesta-se enquanto forma de domesticação do novo, do imprevisível, do desconhecido. A virtualização do real transformou o mundo num mapa disponível e manipulável a cada instante. Um mundo que nos interpela ao som de uma mensagem ou do toque do telemóvel, um mundo que altera o nosso regime sináptico à velocidade de um like no Facebook.

 

A saída desta distopia apocalíptica implica o desenvolvimento de ecologias de saberes que nos permitam compilar, traduzir e dialogar com diferentes estratégias para reinventar o apocalipse. O mundo já acabou, é agora tempo de o reinventar.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Feenberg, Andrew (1995), Alternative modernity: The technical turn in philosophy and social theory. Oakland: Univ of California Press.

Foucault, Michel (1975), Surveiller et punir. Naissance de la prison. Paris: Gallimard.

 


António Carvalho é Investigador do CES. É doutorado em Sociologia pela Universidade de Exeter. Tem realizado investigação na área dos estudos de ciência e tecnologia. O seu trabalho atual explora as ramificações entre o Antropoceno, tecnologias emergentes, política e afeto.

 

Como citar

Carvalho, António (2019), "Distopia", Dicionário Alice. Consultado a 17.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24265. ISBN: 978-989-8847-08-9