Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

Longe de se identificarem com qualquer atributo natural (acaso de nascimento ou incapacidade pessoal), as situações de pobreza são marcadamente um produto social, no sentido em que(...)
Pedro Hespanha

Destaque Semanal

Longe de se identificarem com qualquer atributo natural (acaso de nascimento ou incapacidade pessoal), as situações de pobreza são marcadamente um produto social, no sentido em que(...)
Pedro Hespanha

 

 

Ecofeminismo

Luísa de Pinho Valle
Publicado em 2019-04-01

O ecofeminismo é um movimento social e acadêmico que procura compreender e realçar as articulações e as simetrias entre a exploração do que se convencionou chamar de natureza e a dominação de seres que se pensam e se representam como mulheres. 
O ecofeminismo não tem uma corrente homogênea de pensamento. O movimento ecofeminista nasceu na década de 70 do século XX, da confluência das lutas ecológicas e feministas dos movimentos políticos antinucleares, antimilitares, contra os resíduos tóxicos, e pela libertação dos corpos das mulheres. Hoje o ecofeminismo é plural, partilha vozes críticas e diversas que proporcionam olhares múltiplos para as realidades do mundo, mas convergem na necessidade de compartilhamento da vida humana e não-humana no planeta (Valle, 2017). Inclui diferentes perspectivas e designações tais como: ‘ecofeminismo clássico’; ‘ecofeminismo espiritualista’; ‘ecofeminismo construtivista’; ecofeminismo pós-colonial’; dentre outras denominações que procedem de distintos contextos vitais e de fontes de inspiração feminista variada (anarquista, radical, socialista, ecologista, decolonial, popular, comunitária). Na sua diversidade interna, porém, os ecofeminismos defendem a indivisibilidade e interdependência da vida em todas as suas manifestações/formas e que a dignidade, a justiça cognitiva e uma ética socioeconômica e política passa pela luta política antipatriarcal.


Os diversos ecofeminismos reconhecem no racionalismo instrumental um caráter androcêntrico e antropocêntrico predominante que procede a uma dupla destituição ontológica: desiguala os seres que se pensam como mulheres dos seres que se pensam como homens; e entre estas e estes e os seres não-humanos. A monocultura mental, imposta pelo sexismo epistêmico, foi estendida à terra reduzindo esta à categoria de natureza, ou seja, alguma coisa exterior e separada do social e das comunidades humanas (Shiva, 2013). Esta desigualdade essencial construída é que tem possibilitado a divisão abissal do mundo (Santos, 2018) entre espaço metropolitano que explora e domina e o meio colonial que é dominado e pode ser despojado e até, destruído. Tal como às mulheres foi atribuído o estatuto de segundo sexo, passivo e à disposição dos homens, pensados como medida de todas as coisas, a ascensão do patriarcado capitalista, que está na base do colonialismo moderno, forjou a racionalidade para a qual também a natureza é um recurso que pode ser explorado para gerar a acumulação de riqueza. Hoje em dia, a experiência do mundo é marcada por ciclos de dominação e exploração extrativista cada vez mais violenta e em larga escala. Esta realidade reforça os abismos criados entre vida e economia, entre o trabalho e os modos de vida e entre as mulheres e os homens. A economia corporativa transnacional, fundada na ideia de crescimento ilimitado e acumulação do capital a qualquer custo, ressignificou a cultura moderna numa economia de guerra permanente contra o planeta e os povos. Vivemos hoje em pleno eco-apartheid, afirma Vandana Shiva (2013).


Todavia, para além do pensamento hegemônico as práticas ecofeministas significam pedagogias que confirmam que as experiências presentes no mundo excedem, em muito, a experiência patriarcal-capitalista-colonial do mundo (Cunha, 2011; Santos, 2018). O nosso mundo é complexo e plural e a interdependência da vida vai muito além das relações sociais, políticas e econômicas formatadas pela racionalidade patriarcal-capitalista-colonial hegemônica atual. O reconhecimento deste pluriverso da vida abre espaço à diversidade de conhecimentos e práticas presentes em muitas experiências que estão operativas no planeta que abraçam racionalidades integradoras da coexistência humana e não-humana. Neste sentido, o ecofeminismo também afirma que a responsabilidade pela vida tem que ser coletivamente compartilhada. Os pensamentos ecofeministas chamam à atenção para a necessidade crucial de articular sempre prática e teoria assim como vida com conhecimento, num mundo que é pluriversal, habitado e suportado por seres diferenciados.


Por isso, pode-se falar de pedagogias ecofeministas, ou seja, uma busca intencionalizada para criar um conjunto de condições e metodologias que permitam a transferabilidade e a aplicabilidade de conhecimentos concretos.  As pedagogias ecofeministas traduzem ações políticas, críticas e reflexivas, que enfrentam as incertezas e os riscos da vida desde uma racionalidade criativa e contextualizada. Isso significa desenvolver relações inconformadas, imaginativas, para as quais a diversidade do mundo e a multiplicidade de conhecimentos disponíveis sejam forças capazes de disseminar outras racionalidades, avessas à instrumentalidade da razão moderna ocidental. Na base do pensamento ecofeminista está, pois, uma racionalidade prático-transformadora. Esta congrega mulheres e homens na árdua tarefa de realizarem nas ações cotidianas um exercício equilibrado de criação, formação e expansão de saberes, constituído em polirracionalidades para as quais o ambiente não é o entorno onde os seres humanos vivem, mas a matriz pluriversal e vital sem a qual a existência humana não seria possível e não teria sentido.


Referências e sugestões adicionais de leitura:
Cunha, Teresa (org.) (2011), Ensaios pela democracia. Justiça, dignidade e bem-viver. Porto: Afrontamento.
Santos, Boaventura de Sousa (2018), The End of the Cognitive Empire. The Coming of Age of Epistemologies of the South. Durham and London: Duke University Press.  
Shiva, Vandana (2013), Making Peace with the Earth. London: Pluto Press.
Valle, Luísa de Pinho (2017), “El ecofeminismo como propulsor de la expansión de la racionalidad ambiental”, Ecología Política, 54, 28-36. Tradução de Claudia Jana Sinibaldi Bento.

 

Luísa de Pinho Valle é doutoranda em Democracia no Século XXI, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É graduada em direito (USU/RJ-Brasil), mestra em direito (UnB-Brasil) e em ciências sociais e jurídicas (UPO-Espanha).

 

Como citar

Valle, Luísa de Pinho (2019), "Ecofeminismo", Dicionário Alice. Consultado a 17.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24270. ISBN: 978-989-8847-08-9