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Sara Moreira

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Ecologia Política

Ailton Krenak, Felipe Milanez
Publicado em 2019-04-01

A palavra ecologia é aplicada a um conjunto que constitui referências sobre um determinado lugar. Ecologia, para quem vive em uma floresta, é a floresta viva, respirando e inspirando; é o complexo que dá suporte à cultura e à vida material. Ecologia pressupõe gente e presença, envolve coletivos, e é política pela resistência à separação que funda o capitalismo/colonialismo, que desmembra o humano da relação com o lugar como suporte da vida, que constrói a individualização e rompe o coletivo.

 

Gente, lugar e jeito de estar compõe um todo. A violência corta esse comum por uma erupção externa sobre os sujeitos coletivos e atinge o lugar. A separação do suporte de vida/lugar atinge pessoas e Natureza: desmembra, desterra. Um rio, uma floresta, uma montanha, uma geleira, separados violentamente do coletivo humano põe fim ao modo de viver. Esse distúrbio cria desequilíbrio e doenças, libera uma condição que Davi Kopenawa, um xamã Yanomami, denomina de xawara. Essa potência/doença está contida em um lugar em equilíbrio, quando liberada, como através da intervenção violenta do capital/colonial, emana estados de doenças que se manifestam no corpo das pessoas como enfermidades.

 

A violência que separa as pessoas da Natureza forja a ideia da Natureza isolada, um desequilíbrio ecológico e um ambiente pela metade. Ecologia é uma ideia que nasce no Norte e é colada como uma carapaça nos povos do Sul. Aprendi com os antepassados que a Terra é como o nosso organismo/corpo: tem órgãos com funções, tem coração, é sensível e precisa descansar. Uma possível correspondência à ideia hegemônica de ecologia pode ser traduzida como o lugar onde a terra descansa.

 

Mas como descreve Frantz Fanon, a violência colonial do capital que separa o sujeito coletivo do seu lugar de existência opera em três dimensões: esvazia de substância o passado, impõe um cotidiano de sofrimento, a xawara descrita pelos Yanomami, e aniquila a perspectiva de futuro. Organiza o mundo em relações assimétricas de poder: despossessa e nos coloca na condição de miseráveis e pobres.

 

Essa separação do sujeito com o lugar/ecossistema para a apropriação da Natureza constrói um lugar do outro e um não-lugar do saque, uma divisão abissal que marca o mundo, como observa Boaventura de Sousa Santos. O lugar de poder tem mobilidade, e ao mesmo tempo em que exaure uma paisagem, produz um outro lugar para si: divórcio da Natureza/existência consiste em não precisar estar em lugar nenhum. O capital apropria uma paisagem e (des)constrói espaços e pessoas descartáveis.

 

Brasil é um nome originado no saque de uma madeira. Minas Gerais vem do saque ao minério, e construiu uma identidade garimpeira. Ser mineiro é uma palavra agressiva aos Krenak e sempre tivemos dificuldades de nos vermos nessa identidade em razão de nosso território estar localizado onde hoje é esse estado brasileiro. Tirar uma montanha do lugar e transforma-la em um farelo e transportar para outro lugar fabrica uma cultura garimpeira que alimenta o espírito hostil à paisagem da existência. Pessoas que vivem a ver o farelo ser despachado para o não-lugar e agentes que saíram desse meio podem ser capazes de justificar a morte de um rio ou o aplainar de montanha como um imperativo do desenvolvimento local. A epistemologia do saque, como uma mentalidade garimpeira, faz com que do meio das comunidades despojadas e expropriadas saiam sujeitos que sejam capazes de reproduzir a violência, e integrem essas práticas como ferramenta do projeto capital/colonial: não só alimentam esse processo, como o justificam e o legitimam em um processo de contra-tradução. Pertencer é uma forma de resistir a esse ciclo oprimido/opressor.

 

Estar vivo é fazer esse movimento de entrar e sair desse grande lugar/organismo que é vivo e descansa. Somos sangue, oxigênio, brisa, potência; em alguns momentos pragas. Vivemos nesse organismo que precisa ter lugares de descanso. Como um do in é uma acupuntura, podemos encontrar certos pontos onde cantamos e dançamos para curar a Terra.

 

A Terra como lugar sagrado/espiritual é concepção comum nas Epistemologias do Sul. Se o lugar é sagrado, é porque a gente evoca uma ideia que transcende a Natureza em sua percepção como recurso e alcança uma dimensão da co-existência. O sujeito coletivo que pertence ao lugar é uma oposição epistêmica ao sentido capitalista/colonialista de que o lugar pertence ao indivíduo. Os Kaiowá Guarani, na força de sua sensação de pertencimento, comem a terra em revolta. Dizem que não saem da terra porque a terra não pertence a eles; mas eles pertencem ao lugar/terra. É diferente de alguém que pode mudar de lugar: para eles não há outro lugar. O indígena que pertence à Terra enfrenta em uma ecologia política a espoliação da sua co-existência com a Natureza.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Kopenawa, Davi e Albert, Bruce. (2015), A Queda do Céu. São Paulo: Cia das Letras

Krenak, Ailton. (2000), O Lugar Onde a Terra Descansa. Rio de Janeiro: EcoRio

 


Ailton Krenak, da etnia Krenak, originários da região do leste de Minas Gerais, bacia do Rio Doce - devastado pela extração mineradora. Escritor e ativista dos direitos dos povos indígenas.

 

Felipe Milanez, Doutor em Democracia no Século XXI pelo Centro de Estudos Sociais e Professor de Humanidades na Universidade Federal da Bahia. Ecologista político, integra o Grupo de Trabalho em Ecologia Política, do Clacso.


 

Como citar

Krenak, Ailton; Milanez, Felipe (2019), "Ecologia Política", Dicionário Alice. Consultado a 21.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24271. ISBN: 978-989-8847-08-9