Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

Longe de se identificarem com qualquer atributo natural (acaso de nascimento ou incapacidade pessoal), as situações de pobreza são marcadamente um produto social, no sentido em que(...)
Pedro Hespanha

Destaque Semanal

Longe de se identificarem com qualquer atributo natural (acaso de nascimento ou incapacidade pessoal), as situações de pobreza são marcadamente um produto social, no sentido em que(...)
Pedro Hespanha

 

 

Agronegócio

José Guilherme Franco Gonzaga, Jonas Neves
Publicado em 2019-04-01

O termo agronegócio tem sua origem na área de Administração e Marketing, tendo sido cunhado pelos professores norte-americanos John Davis e Ray Goldberg para fazer referência as relações que advinham da crescente integração do setor agropecuário com as esferas industrial, comercial e de serviços. A premissa desta categoria estava na compreensão de que as transformações que ocorriam na agricultura davam novas feições a atuação das empresas agropecuárias, que não mais se restringiam a produção agrícola, mas que abarcavam também outras etapas do processo produtivo, como pesquisa, indústria de insumos e equipamentos, transformação e comercialização. Desta forma, se passa a integrar essas diferentes etapas numa única categoria, a qual, por sua vez, exigiria também novas formas de atuação do Estado, especialmente pela formulação de políticas de apoio e fomento a esse setor da economia, então denominado de agronegócio. Desta forma, o conceito repercutiu para além dos espaços acadêmicos, com efeitos também sobre a política econômica de muitos países.

 

No Sul global, a categoria do agronegócio é adotada e ressignificada como roupagem nova para mascarar formas históricas de dominação e exploração da natureza. Nestes termos, o agronegócio pode ser caracterizado como uma categoria ilusória, com forte presença no imaginário social, grande força junto a sociedade, mas sem correlação alguma com a realidade.  Constitui, em verdade, uma área específica da Administração, referente a gestão capitalista de empreendimentos rurais. Na prática, agrega, como unicidade, três segmentos da agricultura bastante diferentes entre si, a saber: um segmento da agricultura patronal, razoavelmente produtivo e que contribui com a geração de riquezas, em boa medida numa equação que utiliza os recursos naturais como poupança para investimentos do estado em políticas sociais, no caso de governos progressistas, ou como mecanismo de remuneração de capital especulativo, no caso de governos neoliberais; um segmento arcaico da produção agrícola, que mantêm suas feições patrimonialistas e formas de produção semelhantes àquelas utilizadas no século XIX, usando a terra como reserva de valor e formas de dominação que se reproduzem com base em práticas espúrias como a grilagem de terras, o trabalho escravo e o perdão de dívidas, entre outras, de forma que constituem um setor parasita do estado que se traveste de agronegócio para aparentar moderno; um setor da agricultura familiar que efetivamente atua como agronegócio, capitalizado e integrado aos mercados internacionais, com produção agrícola intensiva para produção de commodities.


 
Nestes termos, a existência do agronegócio se justifica apenas enquanto categoria ideológica, dado que subsume e justifica formas de dominação e exploração dos homens/mulheres e da natureza num pseudoconceito que se afirma enquanto única forma de produção de alimentos capaz de suprir a demanda da população, mas que, em verdade, vê a produção agrícola apenas enquanto mercadorias potenciais, independente de sua condição de alimentos, de forma que não possui qualquer escrúpulo para contaminá-los. Igualmente, também como forma de mascarar socialmente sua existência, seleciona os setores capitalizados da agricultura familiar como seus integrantes, desprezando qualquer tipo de produção que não esteja voltada para os mercados e a geração de riqueza. Possui apoio institucional do Estado, que pa(i)trocina esse setor para atender ao grande capital, direcionando os recursos que daí advêm para pagamento de juros de uma dívida pública sempre crescente, o que, noutras palavras, se constitui também num mecanismo a partir do qual o Estado transfere recursos dos setores mais pobres da sociedade, que pagam, proporcionalmente, mais impostos, para um setor predominantemente parasitário, o assim chamado agronegócio, a partir do qual a transferência, ao final da equação, chega até o setor financeiro, completamente parasitário.

 

No cenário atual, o agronegócio se constitui enquanto uma categoria hegemônica a serviço do capital que se coloca como um dos principais entraves a constituição da Soberania Alimentar, dado que é a partir dele que a produção agropecuária, especialmente de alimentos, se consolida como setor do capital, sendo seus produtos resumidos a simples commodities. Ademais, enquanto construção ideológica e tendo capturado o Estado e seus recursos para si, o agronegócio se consolida também por sua oposição a outros sistemas produtivos, seja pelo sufocamento econômico de formas alternativas, seja pela desconstrução discursivo-ideológica de projetos antagônicos ao seu, seja pela apropriação e ressignificação da crítica, pela construção de uma utopia as avessas, em que se constrói um discurso pseudocientífico no qual o agronegócio assume para si características positivas de formas alternativas, como a preservação, a sustentabilidade, a justiça social, entre outras. Nestes termos, um primeiro embate para construção de um modelo contra-hegemônico de produção passa pela desconstrução ideológica que respalda o agronegócio junto a sociedade e ao estado, mas também exige que, simultaneamente, se possa mobilizar a ciência e a tecnologia para um tipo de produção agropecuária que reconcilie sociedade e natureza, utilizando-se velhos e novos conhecimentos, não apenas aqueles produzidos entre os muros das universidades e as paredes dos laboratórios, mas principalmente os saberes dos povos originários e comunidades tradicionais. É preciso reconectar estes dois mundos, de forma que possam se fertilizar mutuamente. Nesta reconexão o agro deixa de ser negócio e torna-se apenas cultura, de forma que as diferentes culturas readquiram a autonomia sobre as sementes, a natureza e o trabalho, para um cultivo da terra que permita que (re)construam sua soberania alimentar.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Kay, Cristobal, Vergara-Camus, Leandro. (Comp.), (2018), La cuestión agrária y los gobiernos de izquierda en America Latina: campesinos, agronegocio e neodesarrollismo. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO.

Leite, Sérgio Pereira, Medeiros, Leonilde. (2012), “Agronegócio”, in Roseli Caldart et al (Orgs.). Dicionário da Educação do Campo. Rio de Janeiro, São Paulo: Expressão Popular, pp. 79-85.

Favareto, Arílson. (2017), “Concepções de desenvolvimento e de intervenção pública no Brasil rural sob o governo Temer e além”, Raízes, Vol. 37(2): 7-26.

 

José Guilherme Franco Gonzaga é Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa, atuando no Curso de Educação do Campo, formado em Pedagogia, Mestrado e Doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense, com Doutoramento Sanduíche pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

 

Jonas Anderson Simões das Neves é Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa, Coordenador Curso de Educação do Campo, formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande, com mestrado e doutorado em Sociologia  e Pós-doutorado em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

 

Como citar

Gonzaga, José Guilherme Franco; Neves, Jonas (2019), "Agronegócio", Dicionário Alice. Consultado a 17.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24438. ISBN: 978-989-8847-08-9