Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

Longe de se identificarem com qualquer atributo natural (acaso de nascimento ou incapacidade pessoal), as situações de pobreza são marcadamente um produto social, no sentido em que(...)
Pedro Hespanha

Destaque Semanal

Longe de se identificarem com qualquer atributo natural (acaso de nascimento ou incapacidade pessoal), as situações de pobreza são marcadamente um produto social, no sentido em que(...)
Pedro Hespanha

 

 

Poética

Maisa Antunes
Publicado em 2019-04-01

Pela Poética acessamos o mundo poeticamente, uma experiência de conhecimento em que a imaginação, como forma de recriação da realidade, enche-nos de vontade de adivinhar outros mundos, quiçá mundos ausentes, possíveis, onde aspira-se uma dilatação do presente e contração do futuro, um movimento alcançado pelos criadores literários, pelo pensamento poético. Nas epistemologias do Sul, Santos propõe uma sociologia das ausências para expandir o presente; e para contrair o futuro, uma sociologia das emergências (Santos, 2010: 89). A realidade não se reduz ao que existe (Santos, 2002: 23), portanto, a realidade poética “não é somente a que há e a que é, mas a ainda não havida ou não havida já e a que não é” (Zambrano, 2000: 69).


Recriar a realidade com a imaginação é uma atividade que envolve consciência e lucidez, porque toda criação poética é um olhar crítico à realidade. A imaginação traduz um saber, que “transvê” (Barros, 2010: 350) e “transfaz” (Ibidem: 245) poeticamente a realidade; é uma consciência operada por outra racionalidade. No conjunto conceitual das epistemologias do Sul esta consciência está vinculada à racionalidade estético-expressiva (Santos, 2002: 71-74), que resistiu aos processos de colonização epistémica. Neste domínio articulam-se em atitudes: o prazer, a autoria e a artefactualidade discursiva (Ibidem). É pela condição de inacabamento que nos reconciliamos com nossa criança e com perguntas simples alcançamos uma inocência que alarga possibilidades criativas.


A unidade Poética é incompleta, elástica e ilimitada; seu modo de conhecer não exerce violência sobre as coisas, antes está interessada na multiplicidade. Dessa forma, tem ligação direta com a vida, evitando o conhecer por abstração. Sua verdade não exclui, nem é imperativa (Zambrano, 2000: 70). A Poética se faz na palavra, – tudo é palavra –, reside na criação e expressão pela palavra, que é a «poiesis» (Ibidem: 48). Na Poética, as palavras se ajuntam uma na outra por amor, não por sintaxe (Barros, 2010: 450). As palavras buscam emancipações e ao emanciparem-se deixam “de ser linguagem sagrada para ser poesia, linguagem humana” (Zambrano, 2000: 44); e sendo humana será então uma memória inventada e trará nossas elegias, alegrias, raivas e silêncios. Na Poética, as palavras têm vida, “têm carne aflição pentelhos – e a cor do êxtase.” (Barros, 2010: 249), e por isso abrem fendas na realidade, não regressando ilesas desta. Na Poética, as palavras alcançam o grau de brinquedo, chegando ao estado de “criançamento” (Ibidem: 339), um lugar onde a paisagem de um rio, que faz uma volta atrás da casa, parece-se mais com uma cobra de vidro, não traz qualquer semelhança com uma enseada.


Na Poética, aprender é também desaprender; e conhecer pode ser uma forma de “compreender o mundo sem conceitos” (Barros, 2010: 383). Um conhecer que atinge o reino das imagens, um lugar onde o pensar acontece com o sentir, portanto, um conhecer-sentir, pelo caminho íntimo. Na Poética, o mundo pode ser refeito por imagens, eflúvios e afeto (Ididem). Sendo, o pensamento poético, esse alcance da realidade pela imaginação, o entendimento não é pela explicação, que leva muito tempo; o entendimento poético corta caminho, vai pelo caminho mais íntimo. Nas epistemologias do Sul, Santos diz que a forma de compreender o real pela intimidade conduz-nos ao reencantamento do mundo (Santos, 2002: 108); reflete-nos como num espelho diante de objetos distantes (Ibidem: 85); rompe com as dicotomias e com o tempo linear; substitui a relação “objeto-para-o-sujeito pela reciprocidade entre sujeitos” (Ibidem: 79), havendo assim uma continuação entre esses dois lugares, atingindo reconhecimentos e nos unindo, pessoalmente, ao que estudamos (Ibidem: 80).


Somos percorridos de existências, atravessamos fronteiras do tempo – porque tudo é tempo. Vivemos e contemplamos paisagens feitas por nós, caminhamos pelas linhas tortas dos deuses. As paisagens que criamos vadiam dentro dos nossos olhos, queremos albergar realidades inabarcáveis pela razão científica (Zambrano, 2000: 19). A imaginação é uma maneira de reduzir o isolado que somos; ela alarga os nossos limites (Barros, 2010: 209). Somos aquilo que ajuntamos, e se estamos vezeiros no ato de ajuntar coisas feias, é tempo de ver se nosso relógio está com o tempo enferrujado, e se o tempo enferrujou é tempo de “aumentar o poente com o olho” (ibidem: 322), quem sabe assim encontramos e/ou seremos encontrados por verbos que nos ajudem a comunicar nossos silêncios e incompletudes. A Poética recria as vozes do mundo, vozes que nos reconciliam, porque sendo a Poética épica ou lírica, repetiremos nossas histórias para não esquecermos quem somos e seguraremos no tempo as paisagens que ampliam e fortalecem as nossas lutas.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Barros, Manoel (2010), Poesia Completa. São Paulo: Leya.
Santos, Boaventura de Sousa (2002), A crítica da Razão Indolente – Contra o desperdício da experiência. Porto: Editora Afrontamento.
Santos, Boaventura de Sousa (2010), A Gramática do tempo: para uma nova cultura política. Porto: Editora Afrontamento. [2.ª ed.]
Zambrano, Maria (2000), A metáfora do coração e outros escritos. Lisboa: Assírio & Alvim. Tradução de José Bento.

 

Maisa Antunes é Doutoranda do Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra, Programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global. Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Atuou em projetos artísticos. Participou da elaboração de livros didáticos para crianças do/no semiárido brasileiro. É professora na Universidade do Estado da Bahia.

 

Como citar

Antunes, Maisa (2019), "Poética", Dicionário Alice. Consultado a 17.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24486. ISBN: 978-989-8847-08-9