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Sara Moreira

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Rebeldia

Hugo Dias
Publicado em 2019-04-01

Na atualidade não escasseiam as fontes de indignação capazes de alimentar a crítica e uma praxis social que não se resigna a reduzir a realidade ao que existe. De facto, nas últimas duas décadas, assistimos a um crescendo de resistência e de rebeldia que lograram questionar o pensamento único do projeto neoliberal. O sinal de esperança veio do Sul Global - num momento em que no Norte Global o “fim da história” parecia ser uma realidade -, mais concretamente de uma América Latina martirizada pela desigualdade secular. Tornada laboratório das políticas neoliberais durante a década de 1990, foi geradora de experiências de resistência, que procuraram converter o protesto social num projeto político maioritário que ascendeu ao poder em alguns desses países.


Para o primeiro ciclo global de protesto do novo milénio contribuiu tanto a insurreição Zapatista, iniciada a 1 de Janeiro de 1994, como a mobilização contra a Cimeira da Organização Mundial de Comércio em Seattle, a 30 de Novembro de 1999. Posteriormente, o Fórum Social Mundial, cuja primeira edição se realizou em 2001, na cidade brasileira de Porto Alegre, logrou acrescentar ao protesto e à mobilização coletiva a lógica propositiva da Contra-Cimeira.


O eclodir da crise econômica e financeira em 2007/08 contribuiu para intensificar o descontentamento, alimentando um segundo ciclo de protesto global. Embora tenha se verificado um recrudescimento do protesto desde 2006, é no quadriénio 2010-2013 que ele se torna particularmente intenso e espalhado pelos cinco continentes em torno de quatro eixos de reivindicação: justiça económica e anti-austeridade, falhas na representação política e sistemas políticos, justiça global e direitos sociais (Ortiz et al., 2013: 5).


Em dezembro de 2010, o início da Primavera Árabe colocou na agenda a democratização de regimes autoritários. A 12 de março de 2011, a manifestação da “Geração à Rasca” em Portugal exprime de forma incontornável o retorno às questões materialistas e a expressão política do precariado. O 15M, movimento das acampadas e dos indignados, surgido nas praças do Estado Espanhol, produz novas ressignificações. A “geração à rasca” torna-se na “generacion sin futuro” e, em sociedades formalmente democráticas, mas onde o poder político se encontra sequestrado pela ditadura dos mercados financeiros, clama-se por uma “verdadeira democracia já”. “La gente” insurge-se contra a “casta” numa dinâmica replicada por dezenas de cidades europeias. O movimento dos indignados galga o oceano e no dia 17 de setembro de 2011, no Parque Zuccotti, surge o movimento Occupy Wall Street. O discurso contra a “casta” converte-se no “Nós somos os 99%”, que protestam contra as regras da economia que beneficiam apenas o 1% dos mais ricos do mundo.


Estas mobilizações apresentam traços de continuidade mas também de inovação em relação ao período anterior. Verifica-se uma menor coordenação dessas experiências e mais a lógica da ressignificação e do contágio, potenciada pela grande influência da internet e das redes sociais. Ao discurso das desigualdades e direitos sociais acrescenta-se a dimensão do combate às ditaduras políticas tradicionais mas também das ditaduras impessoais dos mercados financeiros. Verifica-se a emergência de novos atores, uma reconfiguração reivindicativa das mobilizações, assim como uma inovação performativa e organizativa. Privilegia a ocupação do espaço público, recorrendo a assembleias e à horizontalidade e com uma metodologia de tomada de decisão assente no consenso não vinculativo. Assume uma dimensão pre-figurativa, ou de “zonas libertadas”, em que se procura experimentar no presente formas alternativas de organização social e de participação democrática. Uma das características fundamentais destes movimentos de rebeldia e de indignação tem sido o predomínio da negatividade sobre a positividade (Santos, 2015). Embora nalguns casos a indignação da maioria social procure se converter numa maioria política transformadora, predomina a capacidade de enunciar o que não se quer, mas uma dificuldade de nomear o projeto alternativo de sociedade ambicionado.


De uma perspetiva das Epistemologias do Sul, “a construção social da rebeldia e, portanto, de subjetividades inconformistas e capazes de indignação é, ela própria, um processo social contextualizado” (Santos, 2000: 33). É a partir da nova experiência social que surgem contributos para a renovação das práticas, da teoria crítica e da reinvenção da emancipação social. Este é um tempo em que, na impossibilidade de uma teoria geral, subsistem no entanto oportunidades para o desenvolvimento de novas perspetivas em que através de um “trabalho de tradução”, seja possível agregar interesses, sujeitos e subjetividades, em dinâmicas de reforço mútuo, sem serem subsumidas a uma lógica primordial e homogeneizadora, num processo sempre inacabado de (re)construção de solidariedades.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Ortiz, Isabel; Burke, Sara; Berrada, Mohamed; Cortés, Hernán (2013), World Protests 2006-2013. Initiative for Policy Dialogue and Friedrich-Ebert-Stiftung New York Working Paper 2013.
Santos, Boaventura de Sousa (2000), A Crítica da Razão Indolente: Contra o Desperdício da Experiência. Porto: Afrontamento.
Santos, Boaventura de Sousa (2015), Revueltas de indignación y otras conversas. La Paz.


Hugo Dias é doutorado em Sociologia pela Universidade de Coimbra e Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Brasil). É investigador do Centro de Estudos Sociais - Núcleo de Estudos sobre Políticas Sociais, Trabalho e Desigualdades - e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas.

 

Como citar

Dias, Hugo (2019), "Rebeldia", Dicionário Alice. Consultado a 24.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24510. ISBN: 978-989-8847-08-9