Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

Tão antiga quanto as lutas de poder nas sociedades, a ação direta em prol de transformações sociais e políticas tem vindo a ganhar novos palcos com o advento da sociedade da(...)
Sara Moreira

Destaque Semanal

Tão antiga quanto as lutas de poder nas sociedades, a ação direta em prol de transformações sociais e políticas tem vindo a ganhar novos palcos com o advento da sociedade da(...)
Sara Moreira

 

 

Capoeira

Bruno Amaral Andrade
Publicado em 2019-04-01

A capoeira é uma manifestação cultural que emerge na zona de contato colonial brasileira. Composta por uma diversidade de estilos, em geral a capoeira envolve duas pessoas posicionadas no interior de uma roda delimitada por outros que aguardam o momento de assumirem o lugar no centro do círculo. Compondo a roda se encontram instrumentos musicais, ou a "bateria", como é comumente designada a orquestra percussiva, impulsionando musicalmente o jogo, ou "vadiação", desenvolvido em seu interior. Narrativas musicais entoadas por um “cantador”, e cantadas no refrão pelo coral, atuam em interface com o jogo.

 

Vadiar é o modo como se define o diálogo corporal composto, simplificadamente, de movimentos de ataque e defesa. Trata-se da subversão de um sentido atribuído às práticas que destoavam do eurocentrismo hegemônico. A abissalidade colonial/moderna (Santos, 2009) brasileira impingiu à manifestação uma dura repressão, perpetrada com significativa violência nos primeiros anos da era republicana, seguida de uma apropriação subalterna como produto folclórico marcado pelo signo da mestiçagem. Uma folclorização marcada pela associação à mitificada harmonia racial brasileira. Nesta virada culturalista, a capoeira, assim como ocorreu com o samba, foi visibilizada hegemonicamente como produto identitário representativo da brasilidade no contexto populista e autoritário da era Vargas. Em consonância com tais processos de subalternização adquiriu visibilidade como “autêntico esporte nacional”, o que proporcionou novos lugares sociais tensionados pelas negociações com as estruturas de poder coloniais fundantes da modernidade brasileira.

 

Dinâmicas complexas, envolvendo, dentre elas, a resistência à ingerência de entidades de classe da educação física e uma mudança nas políticas culturais, no sentido da valorização da "cultura popular", levaram ao registro da roda de capoeira e do ofício dos mestres de capoeira como patrimônios culturais imateriais brasileiros, em 2008. Atualmente, coexistem propostas que reivindicam um lugar estabilizado no campo hegemônico dos esportes de competição, com outras que afirmam “(r)existências resistentes” afro-referenciadas. Júlia Benzaquen pensa (r)existências resistentes como alternativa analítica profícua à concepção eurocêntrica de movimentos sociais, por sinalizar a “afirmação da existência, que por si denuncia o que foi construído como inexistente” (2014: 5).  Marcada por um ontologia pautada na “malandragem” e na “mandinga”, dentre outros alicerces epistemológicos, a contra-hegemonia na capoeira impulsiona a constituição de “rebeldes competentes”. Boaventura de Sousa Santos (2012) argumenta em favor do inconformismo com “portas abertas” para alternativas, algo para o qual a rebeldia eurocêntrica não logrou êxito em alcançar.  Nesta análise, a rebeldia competente abre mão de perspectivas totalizantes sem deixar de primar pela autorreflexividade.

 

A contra-hegemonia subsumida à ética da malandragem conforma uma ontologia voltada à intervenção social, algo que alia as dimensões sócio-política e estético-expressiva. Afirma um compromisso comunitário, que pode se expressar com o ensino voluntário da arte a jovens historicamente excluídos do contrato social, indissociado da elegância, ou “galanteria”, inerentes às componentes expressivas. Algo como o “bater sem precisar encostar”, afirmado por mestre João Pequeno de Pastinha em suas lições, uma proposta que confere excelência à brincadeira como recurso pedagógico em constante renovação no jogo de capoeira. Mestre João Pequeno de Pastinha, falecido em 2014, foi um dos maiores expoentes da capoeira angola, um dos estilos de capoeira existentes, o que lhe conferiu o reconhecimento por dois títulos de Doutor Honoris Causa assegurados por duas universidades federais brasileiras, eventos que, no entanto, não lhe garantiram o exercício da docência nas universidades públicas outorgantes.

 

A competência crítica produzida a partir da capoeira se faz em geral associada ao “mandingueiro”, aquele que não desperdiça as experiências. Disse mestre Pastinha, consagrando uma das mais célebres formulações acerca da arte, “a capoeira é mandinga, é manha, é malícia, é tudo que a boca come” Trata-se de um conhecimento sobre existir nos interstícios das estruturas de poder. Segmentos antes escravizados, trocando práticas de conhecimentos diversas na pós-escravidão com continuidades escravistas (Andrade et al., 2015), gestaram um saber complexo atualmente transnacionalizado através de dinâmicas de globalização hegemônicas e contra-hegemônicas.

 

Ao não se permitir capturar plenamente pelos modos de representação dominantes, a capoeira institui uma gramática de resistência em geral pouco explorada no âmbito das epistemologias críticas. Um léxico de propriedades cognitivas que fomenta subjetividades e posicionamentos políticos com o potencial de atuar diretamente em processos de tradução intercultural.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:

Andrade, Bruno Amaral; Diniz, Bruno; De’ Carli, Caetano (2015), “O fim do escravismo e o escravismo sem fim: colonialidade, direito e emancipação social no Brasil”, Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro: UERJ, 551-596.
Benzaquen, Júlia (2014), “Reflexões a respeito da idéia de (r)existências do Sul”, Revista Estudos de Sociologia, 2(20), Recife: UFPE.
Santos, Boaventura de Sousa; Jerónimo, Helena M.; Neves, José (2012), “O intelectual de retaguarda”, Análise Social, 204, 685-711.
Santos, Boaventura de Sousa (2009), “Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia dos saberes”, in Boaventura de Sousa Santos, Maria Paula Meneses (orgs.), Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 23-71.

 

Bruno Amaral Andrade é doutor em Pós-Colonialismos e Cidadania Global e professor adjunto da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), campus dos Malês, em São Francisco do Conde, estado da Bahia, Brasil.

 

Como citar

Andrade, Bruno Amaral (2019), "Capoeira", Dicionário Alice. Consultado a 22.10.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24624. ISBN: 978-989-8847-08-9