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Masculinidades

Tatiana Moura
Publicado em 2019-04-01

O conceito de masculinidade, ou masculinidades, não é um conceito estático, e está em constante evolução, referindo-se às várias formas em que a masculinidade – o ser-se homem -  é socialmente definida através de contextos históricos e culturais, bem como às diferenças de poder existentes entre as diferentes versões de masculinidade (Ricardo e Barker, 2009).

 

No entanto, são as consequências da definição de masculinidade – historicamente rígida e hegemónica – que levaram a que, nos últimos anos, tenham surgido novas abordagens e propostas de re-definição. Ao longo do tempo, as associações e as expectativas dominantes referentes à masculinidade consistiram na força física, potência sexual, agressividade e ausência de demonstração de afetos/emoções. Antigos monoteísmos e filósofos fundamentais, de Aristóteles a Freud, associaram a relação entre masculinidade e racionalidade, justificando assim o poder político e económico dos homens sobrepostos e dependentes da inferioridade e submissão das mulheres (Gardiner, 2005).

 

Somente no início dos anos 80, em resultado das análises e críticas feministas, surgiu a noção de masculinidade hegemónica. Este tipo de masculinidade ditava a norma, impedindo, em grande medida, a existência de alternativas e outras formas de ser, sendo apoiada pelas principais formas de poder social e político. A socióloga R.W. Connell foi uma das primeiras autoras a definir o conceito e tem sido amplamente citada pela sua definição de masculinidades, às quais chama de “padrões de práticas sociais que são associadas à posição dos homens no conjunto das relações de género de qualquer sociedade” (Connell, 1995).

 

As análises iniciais sobre masculinidade tiveram como objecto central a crítica às estruturas rígidas do poder patriarcal, problematizando esta construção social enquanto a fonte da opressão, obstáculo à liberdade de escolha e emancipação das mulheres. No entanto, à medida que o campo de pesquisa se ampliou, as perspectivas também se expandiram: deixaram de se centrar exclusivamente na opressão e violência contra as mulheres para passarem a reconhecer os efeitos negativos que a construção social da masculinidade hegemónica tem também em homens, como a menor esperança média de vida, índices mais elevados de consumo de drogas/álcool e suicídio. Além disso, passaram a incluir um componente interseccional, reconhecendo que existe uma hierarquia profundamente enraizada em termos de privilégio masculino, em termos de raça, classe, nacionalidade, etc.

 

Estas abordagens marcaram um ponto de viragem no movimento de luta pela igualdade de género, deixando de considerar os homens apenas como agressores e/ou estando num campo diametralmente oposto ao das mulheres, para se se passar a considerar os homens enquanto aliados que também são atores vulneráveis e prejudicados pelos papéis de género rígidos e que, portanto, também podem contribuir para a mudança. Tornou-se claro que os homens devem também fazer parte da solução, abrindo espaço a novas análises, representações e considerando masculinidades multifacetadas.

 

É importante considerar como a construção de masculinidade(s) varia através de diferentes culturas e fronteiras geopolíticas, bem como verificar como essas diferenças se reflectem nas pesquisas globais e políticas públicas. Enquanto no Sul, a prevenção de violência de género passou, durante um tempo, pela transformação de atitudes masculinas em relação a saude sexual e reprodutiva, no Norte a prioridade passou pela promoção e alteração de políticas públicas sobre licença de paternidade, promovendo o cuidado e a não violência.

 

Pesquisas mais recentes, levadas a cabo ao longo da última década reafirmam a multiplicidade e maleabilidade das masculinidades tanto no tempo quanto no espaço. Num mundo cada vez mais globalizado, as construções hegemónicas e tradicionais de masculinidade das sociedades têm sido desafiadas. Os esforços para compreender esta construção social, e reconhecer as suas pressões e consequências, que se manifestam tanto na vida de homens quanto de mulheres, são cruciais.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Connell, Raewyn W. (1995), Masculinities. Cambridge, Polity Press; Sydney, Allen & Unwin; Berkeley, University of California Press.

Gardiner, Judith (2005), “Men, masculinities, and feminist theory”, in Michael S. Kimmel, Jeff Hearn & R. W. Connell (ed.), Handbook of studies on men & masculinities. Thousand Oaks: Sage, 35-50.

Greig, Alan; Kimmel, Michael; Lang, James (2000), “Men, Masculinities & Development”, Gender Development Monograph, Series Nª 10.

Ricardo, Christine; Barker, Gary (2009), Men, Masculinities, Sexual Exploitation and Sexual Violence, Instituto Promundo and ICRW.

 


Tatiana Moura, feminista, é Investigadora Permanente do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Núcleo de Humanidades, Migrações e Estudos para a Paz) desde 2004, Coordenadora do Promundo Portugal desde 2014 e Diretora Associada do Instituto Maria e João Aleixo (Maré, Rio de Janeiro, Brasil) desde Março de 2018.

 

 

Como citar

Moura, Tatiana (2019), "Masculinidades", Dicionário Alice. Consultado a 18.11.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=4&entry=24318. ISBN: 978-989-8847-08-9