Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destacado Semanal

Como definir bioética? A bioética refere-se a uma abordagem normativa assente em quatro princípios consagrados, desde os anos 60, na Declaração de Helsínquia: respeito pela(...)
Ângela Marques Filipe

Destacado Semanal

Como definir bioética? A bioética refere-se a uma abordagem normativa assente em quatro princípios consagrados, desde os anos 60, na Declaração de Helsínquia: respeito pela(...)
Ângela Marques Filipe

 

 

Mestiçagem

Maurício Hashizume
Publicado em 2019-04-01

O grande problema da mestiçagem, em sua tão criticada versão oficial, é que ela traz consigo a meta inconfessa de dizimar a diversidade dos múltiplos modos de vida e de experiências indesejáveis em nome de uma padronização social (Benéfica para todos? Benéfica para quem?) das racionalidades e das subjetividades tais quais elas existem nas realidades cotidianas. Tem, portanto, de acordo com essa vertente, um objetivo genocida e epistemicida. É como uma embalagem reluzente inventada pelos poderosos para camuflar atrocidades, violências e apagamentos que historicamente exterminaram (e, lamentavelmente, seguem exterminando) povos, civilizações e nações outras que não aquelas do autodenominado “centro do mundo”, ou seja, provenientes da Europa ocidental.

 

Sob essa imagem cuidadosamente construída, fomentada e enaltecida da distintiva miscigenação biológica e cultural que ganhou particular projeção após a invasão das Américas, foi posta em marcha uma devastadora missão aculturante, assimilacionalista e de suposta “integração” dos contingentes populacionais que não se encaixavam nos tipos ideais do Norte metafórico. Assim, de mãos dadas com a infeliz e propalada formulação colonial(ista) do “fardo do homem branco”, massacres e despojos de proporções incalculáveis, que ao menos segundo as aparências deveriam ser inaceitáveis, foram convertidos em meros efeitos colaterais do progresso da história-mundo, do Espírito e da racionalidade superiores que se irradiam a partir do epicentro iluminista universal da dita “humanidade”.

 

Ao longo dos últimos séculos, a mestiçagem, nessa versão imposta de cima para baixo, funcionou de forma ativa e estratégica nos imaginários das metrópoles e das colônias como uma ferramenta política de largo e longo alcance em termos da homogeneização espaço-temporal, com seu caráter ideológico-programático benevolente e sua reverberação hegemônica paralisante e apaziguadora.  Em termos práticos, contribuiu para justificar, manter e aprofundar desigualdades abissais, em plena consonância com o modelo dominante de organização social no formato do Estado-nação - caracterizado pela unificação de um determinado território e a aglutinação de um povo específico, e fundamentado na ciência, no direito e nas estruturas político-econômicas de poder modernos.

 

Por meio dessa modalidade de mestiçagem do tipo “branca-mestiça”, deliberadas hierarquias socioculturais e relações de poder foram reafirmadas e institucionalizadas por parte de uma elite intelectual, política e econômica detentora do poder de estabelecer normas jurídicas e definir políticas estatais, bem como de produzir teorias e de nomear as/os outras/os que precisam ser educados, domesticados e subjugados, como se fossem objetos manipuláveis. Não por acaso, a própria palavra em questão (mestiçagem) foi denunciada de modo veemente e acabou se convertendo, entre organizações, grupos e pessoas que se dedicam a desafiar e a romper essa ordem de classificação social colonial (como as articulações indígenas e os coletivos do movimento negro), em uma espécie de “termo maldito”, repelido de imediato no próprio momento em que se materializa, seja em falas, seja na escrita.

 

Em especial no contexto da América Latina (Abya Yala), a mestiçagem foi erigida e disseminada com o seu duplo (e não oposto, como, à primeira vista, aparenta ser): o indigenismo. Ao defender uma espécie de pureza e de superioridade étnico-racial-cultural indígena, este último difundiu, com mais intensidade entre o final do século XIX e nas décadas iniciais do século XX, a idealização de povos originários congelados no passado pré-colombiano, qual seja, não mais existentes. Dessa maneira, corroborou, pelo viés oposto, para a mesma dicotomia esterilizante que situa os europeus e os seus descendentes e seguidores no presente e confinam os povos nativos a um contexto, por mais nobre que tenha sido, superado e irrecuperável da história.

 

Há, contudo, concepções que concorrem com esses conceitos fossilizados e fossilizantes, forjadas de baixo para cima, que também disputam o significado em torno da mestiçagem. Em sua versão crítica pós-colonial ou descolonial, a mestiçagem “negra-mestiça”, por exemplo, pode se dar como reflexo de uma subjetividade barroca e extremista, atuando como elemento de desestabilização de ordens estabelecidas. Nesse sentido, a mestiçagem seria capaz de criar novas constelações de significado, que vão além de seus fragmentos constitutivos, desafiando a lógica que sustenta a mestiçagem colonial e abrindo frestas para emergências imprevistas.

 

Essa perspectiva de “mestiçagem descolonial” dialoga com uma variedade enorme de reflexões que têm sido feitas por um rol amplo de pensadoras e pensadores indígenas e não-indígenas no sentido de libertar a noção de “mestiçagem” dessa carga que lhe foi atribuída pela ordem capital-colonialista-patriarcal, com intervenções múltiplas com vistas a pluralizar, complexificar e até mesmo potencializar o seu próprio significado. Entre tantas, a invocação do simbolismo da palavra ch'ixi (pronuncia-se tchê-hê), em língua aymara, se apresenta como sobressalente. Ch'ixi vem a ter como um de seus significados o de uma identidade manchada e não essencializada, decorrente de mesclas justapostas que se ilustrariam pela combinação de cores contrastantes (branco e preto, vermelho e verde etc.), as quais, ao mesmo tempo em que propiciam a emergência de algo novo e disruptivo, jamais se fundem por completo. Essa concepção aymara - que assim como muitas outras incorpora o inerente conflito (“é e não é”), sem se deixar desintegrar pelo mesmo - reflete o potencial de mestiças e mestiços que conjugam opostos (indígenas e não-indígenas), sem permitir que essa mescla se dê de todo.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Gruzinski, Serge (2002), The Mestizo Mind: The Intellectual Dynamics of Colonization and Globalization. New York: Routledge.

Santos, Boaventura de Sousa (2014), Epistemologies of the South: justice against epistemicide. London: Paradigm Publishers.

Rivera Cusicanqui, Silvia (2010), Ch'ixinakax utxiwa. Una reflexión sobre prácticas y discursos descolonizadores. Buenos Aires: Tinta Limón.

 


Maurício Hashizume, Professor convidado na Universidade Federal do Tocantins (UFT) e investigador júnior no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC), é doutorando em Pós-Colonialismos e Cidadania Global (CES/FEUC), mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e jornalista graduado pela mesma universidade.

 

 

Como citar

Hashizume, Maurício (2019), "Mestiçagem", Dicionário Alice. Consultado a 18.11.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=4&entry=24322. ISBN: 978-989-8847-08-9