Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destacado Semanal

Como definir bioética? A bioética refere-se a uma abordagem normativa assente em quatro princípios consagrados, desde os anos 60, na Declaração de Helsínquia: respeito pela(...)
Ângela Marques Filipe

Destacado Semanal

Como definir bioética? A bioética refere-se a uma abordagem normativa assente em quatro princípios consagrados, desde os anos 60, na Declaração de Helsínquia: respeito pela(...)
Ângela Marques Filipe

 

 

Ritual

Vania Baldi
Publicado em 2019-04-01

Ao rito atribui-se geralmente um carácter de formalidade, convencionalidade, estereotipia e rigidez, como se fosse algo marginal, insignificante e irrazoável. Na acentuação destas características reside uma ampla e histórica tendência em pensar a ritualidade duma forma preconceituosa. Pode-se afirmar que esta cultura anti-ritualista remonta à modernidade Ocidental: nessa tendência se pressupõe uma hierarquia de valores entre as experiências que remetem à espiritualidade e aquelas que remetem à corporeidade, entre a dimensão interior e subjetiva e aquela exterior e visível, entre a vida e a forma, a intenção e o operar. Tal perspetiva restringe o rito numa dimensão idolátrica, patológica, maníaca, de ausência de profundidade e orientação. “Pensamento mítico”, “pensamento pré-lógico”, “pensamento simbólico… são algumas das expressões que se utilizaram para definir a atividade dos membros das sociedades primárias, em oposição ao pensamento racional, lógico e discursivo das culturas históricas. Estas definições, filhas duma “violência epistémica” de herança colonial, continuam a condicionar a maneira de pensar o ritual.


Porém, a experiência ritual pode ser interpretada como um saber heteromorfo e profundamente incorporado na maneira dos grupos humanos se organizarem, uma raiz antropogenética sempre aberta a novas ressignificações, que ultrapassa a distinção entre tradição e inovação, sociedade primária e sociedade histórica, primitivismo e civilização, representando um paradigma daquela “inesgotável diferença epistemológica do mundo” (Santos e Meneses, 2009). A dimensão ritual é pensável como uma condição subterrânea e permanente das nossas atividades, algo constitutivo das nossas existências aparentemente anti-ritualistas. Os nossos impulsos linguísticos, os nossos jogos e protestos, as performances artísticas precisam duma intermediação ritual que reflita códigos estruturados e confirmados pelas ações de todos os atores participantes, viabilizando um “ethos da reciprocidade”.


Alguns estudos clássicos tentaram encontrar o significado essencial da experiência ritual: esta foi pensada como reactualização dum mito originário (Mircea Eliade), como forma de manter os laços sociais (Emile Durkheime), de exercitar controle político (Alfred RadclifeBrown), de conservar a tradição (Mary Douglas), como tentativa de governar a ansiedade e o medo originários (Bronislaw Malinowski), como prática de legitimação das distinções sociais (Raymond Firth), como maneira de resolver conflitos e tensões intestinas aos grupos de pertença (Max Gluckman, Gregory Bateson), como desafio ao decoro nas interações quotidianas (Erving Goffman) e como momentos intensos de passagens, caraterizados pelo cruzamento entre a dimensão cultural e a física (nascimento, doença, sexualidade, morte), expressos através de práticas presas numa dialética entre modus operandi e opus operatum (Arnold Van Gennep).


No âmbito desses estudos existem maneiras de pensar o ritual como: associado ao mito, vinculado à formação dum agregado social ou à manutenção duma visão do mundo, dirigido à inclusão de elementos novos e imprevistos ou à rejeição de elementos indesejados.


Muitas dessas investigações propendem, todavia, para uma explicação funcional: rito enquanto processo grupal de formação e conservação duma “forma de vida”. Apesar de fundamentadas, tais análises, enfatizando as intenções instrumentais acabam por desvalorizar a filosofia implícita do rito enquanto transmissão opaca e circular dos gestos e dos comportamentos que acontecem e contagiam-se além duma utilidade imediata, prevista e planeada. Ao rito podemos associar o adágio de Espinosa: Omnis detrminatio est negatio. De facto, o rito suspende a lógica e a praxe predominante, permitindo reconstituir ao mesmo tempo os seus eixos fundamenais. De certa forma os ritos são instituições em fase embrionária, mas são instituições que surgem indiretamente, sem projetos específicos, cujos resultados se descobrem no devir das ações repetidas coletivamente, através de práticas que se aperfeiçoam e esclarecem só depois do grupo se ter deparado com as consequências das suas atuações.


O ritual, como ato autotélico, simultaneamente experimental e estilizado, que constrói espaço e produz temporalidade, que recria contexto e configura práticas morfogenéticas dum sentido coletivo, é um recurso socio-antropológico (entendido como to live through) capaz de transformar uma condição “centrífuga” num “lugar-comum”. Ludwig Wittgenstein, no seu Observações sobre o Ramo Dourado de Frazer, definiu o ser humano como “animal cerimonial”, um ser que comparticipa às práticas culturais sem conhecimento específico das funções originárias dessas práticas, enquanto as considera autónomas em relação às crenças, às explicações e aos mitos, contando apenas os atos visíveis e tangíveis relacionados.


Um importante desafio para as ciências humanas e sociais ocidentais é aquele de considerar o rito como um processo de transformação e não como algo fixo, estável e passivo. As praxes rituais precisam ser analisadas por meio de categorias que não desvitalizem estes fenómenos e valorizem o seu carácter heurístico e transformador. Elas representam, juntamente, uma maneira de as culturas poderem projetar a própria adaptação ao mundo como também a modificação, neste mundo, deste mundo (Comaroff, 1993; Turner, 1988).

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Comaroff, Jean; Comaroff, John (1993), Modernity and its Malcontents. Ritual and Power in Postcolonial Africa. The University of Chicago Press.
Santos, Boaventura de Sousa; Meneses, Maria Paula (2009), Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina.
Turner, Victor (1988), The Anthropology of Performance. New York: PAJ Publications.

 

Vania Baldi é doutorado em Ética e Antropologia pela Universidade do Salento (IT) e pós-doutorado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Professor na Universidade de Aveiro, integra o Digital Media and Interaction Centre e coordena a área de investigação em Cibercultura da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação.

 

Como citar

Baldi, Vania (2019), "Ritual", Dicionário Alice. Consultado a 18.11.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=4&entry=24526. ISBN: 978-989-8847-08-9