Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destacado Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

Destacado Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

 

 

Desmercadorizar

Luciane Lucas dos Santos
Publicado em 2019-04-01

A lógica da mercadoria tem se disseminado por diferentes domínios da vida e se adaptado aos novos interesses do sistema do capital, cujo foco nunca deixou de ser a realização plena de seu processo de acumulação. Neste sentido, temos presenciado não só uma redução propositada do tempo de vida útil dos bens, através da obsolescência programada e da promoção do consumo como palavra de ordem, mas também uma progressiva depreciação do valor de uso das mercadorias para resguardar a valorização do capital através do valor de troca (Mészáros, 2009).

 

No campo do consumo, o fetiche da mercadoria, cujo brilho encobre a exploração do trabalhador, não se constituiu como único modo de produzir e legitimar assimetrias. Entendido como eixo central na construção das identidades e assente na distinção social pela via do gosto (Bourdieu, 1984), o consumo como discurso e prática tem contribuído para a naturalização de hierarquias sociais múltiplas - não só de classe, mas também de género, étnico-raciais e de identidade sexual.

 

O conceito de monocultura da naturalização das diferenças, proposto por Boaventura de Sousa Santos (2006), tem-nos permitido compreender como diferenças sócio-culturais são transformadas em hierarquias, com base numa suposta inferioridade produzida como ‘natural’. Se, entretanto, estas hierarquias são naturalizadas no imaginário social a partir das instituições, o consumo, como locus de afirmação da distinção social, tem se revelado como lugar privilegiado de cristalização destas hierarquias. Isto se dá, por exemplo, na genderização, racialização e heteronormatização dos sentidos sociais que circulam nos bens, e se dá, também, no apagamento das pegadas eurocêntricas subjacentes à estruturação da sensibilidade e do juízo estético em países periféricos. Neste sentido, o modelo global e dominante de circulação de bens não só se estrutura em torno da perpetuação de linhas abissais (Santos, 2007) - com fluxos de matérias-primas e de trabalhadores comunicando assimetrias - como também constitui mecanismos simbólicos e materiais de colonialismo interno (Santos, 2007). Alinhavando tudo isto está uma narrativa supostamente neutra e universal de desenvolvimento que fundamenta critérios de pobreza e riqueza comprometidos com uma permanente atualização das assimetrias sociais.

 

Neste panorama, tudo se torna mercadoria e passa a ser regido segundo sua lógica. Como resultado,  defrontamo-nos com a mercantilização da vida, dos espaços públicos das cidades e da natureza - esta última reduzida à condição de recurso e dilapidada por grandes projetos de mineração, energia e agronegócio no mundo inteiro. Do mesmo modo, no âmbito dos centros urbanos, formas de arquitetura hostil se disseminam, numa proposta explícita de restringir o acesso àqueles que não se encaixam no projeto de cidade-mercado. Como consequência, processos de gentrificação relacionados à transformação da cidade em mercadoria aprofundam aquilo que Santos (2007) denominou de fascismo do apartheid social.

 

Desmercadorizar, neste contexto, implica, antes de mais, modificar processos através dos quais a sociedade de mercado se consolida como tal. Um dos primeiros elos a ser desfeito se refere à lógica perversa de depreciação do valor de uso das mercadorias com vista à valorização do capital - numa clara separação entre sua reprodução e o atendimento às necessidades das pessoas. O segundo diz respeito à urgência de se desatrelar o consumo, como prática identitária, da lógica de distinção social de que se reveste. Desmercadorizar, aqui, significa reconhecer a existência e o valor de outras lógicas de pertença e de identidade - contemporâneas e rivais ao consumo capitalista - que não se constituem como formas de classificação social. Significa, ainda, o reconhecimento de formas não-capitalistas de consumo e de troca económica, em que outros códigos estéticos, semânticas do gosto e modos de construir redes de apoio e sociabilidade sejam factíveis - na contramão da distinção social que hoje caracteriza a circulação de bens e signos.

 

Para desmercadorizar, é preciso também desfazer a ideia da natureza como recurso - o que implica desmontar a armadilha epistemológica da quantificação económica dos ‘serviços ecossistémicos’. Requer ir além, reconhecendo a existência de outras cosmovisões, igualmente legítimas e contemporâneas, em que natureza e cultura não se separam. Por fim, e não menos importante, desmercadorizar significa desmontar a narrativa moderno-ocidental de desenvolvimento como único ponto de partida possível para construir a dignidade humana. Este exercício começa com o reconhecimento das perspectivas (neo)coloniais que cercam a construção dos critérios de pobreza e riqueza e em torno dos quais o mito do desenvolvimento se forjou.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Bourdieu, Pierre (1984), Distiction: a social critique of the judgement of Taste. London: Routledge.

Mészáros, István (2009), A crise estrutural do capital. São Paulo: Boitempo.

Santos, Boaventura de Sousa (2006), A Gramática do Tempo: para uma Nova Cultura Política. Porto: Edições Afrontamento.

Santos, Boaventura de Sousa (2007), “Para além do pensamento abissal”, Revista Crítica de Ciências Sociais, Vol. 78: 3-46.

 


Luciane Lucas dos Santos é investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, co-coordenando o núcleo de investigação em Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe). Entre seus principais temas de investigação estão: Economia Feminista, Estética Feminista e estudos pós-coloniais da Economia.

 

 

Como citar

Lucas dos Santos, Luciane (2019), "Desmercadorizar", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24250&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9