Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

Destaque Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

 

 

Diáspora

Katia Cardoso
Publicado em 2019-04-01

O termo “diáspora” refere-se à palavra grega que os judeus da Alexandria usaram no ano 250 a.C. para denominar a sua expulsão e exílio coletivo (galut). A par do caso judeu, o arménio e o grego são considerados os três exemplos paradigmáticos da concepção inicial/“original” de diáspora. Nesta perspetiva, Khachig Tölölyan (2007: 648), fundador e editor da revista Diaspora (uma referência na reflexão académica sobre o conceito), define diáspora como:

 

“(…) uma formação social gerada por uma violência catastrófica ou, pelo menos, por uma expulsão coerciva da terra-mãe, seguida de fixação noutros países e no seio de sociedades de acolhimento estrangeiras, e profundamente marcada por gerações de sobrevivência enquanto uma comunidade distinta que se esforça por manter a sua identidade ancestral e por criar novas identidades que sustentam a sua diferença na sociedade de acolhimento. Finalmente, diáspora identifica-se pelos seus esforços em manter o contacto com as comunidades da terra-mãe e noutros pontos.”

 

Portanto, de acordo com a concepção “original”, baseada no ideal-tipo judeu, uma diáspora caracteriza-se pela presença dos seguintes elementos: “dispersão de um grupo de um centro original para duas ou mais periferias; preservação de uma memória coletiva do local de origem; sentimento parcial ou total de alheamento em relação à sociedade local em decorrência de um sentimento de não-aceitação por parte desta; consideração da terra-natal como o verdadeiro home e ao qual se deverá um dia retornar; crença num compromisso de restaurar ou apoiar coletivamente a terra-natal e manutenção de algum tipo de vínculo com as origens” (Safran apud Clifford 1997: 247).

 

Ao longo dos tempos, o conceito “diáspora” foi-se distanciando do seu sentido inicial passando a significar experiências sociais várias que, inclusive, não têm necessariamente a ver com mobilidade humana. Importa, por isso, sublinhar que apesar de ser frequentemente utilizado como tal, a diáspora não é uma consequência natural da migração, nem sinónimo de “comunidade emigrada”, já que, como pontua Steven Vertovec (apud Sökefeld, 2006: 266), “as diásporas surgem a partir de certas formas de migração mas nem todos os movimentos migratórios envolvem uma consciência diaspórica”.

 

A busca de uma definição exata para conceitos como “diáspora” tem-se revelado um exercício estéril, tanto que muitos autores defendem que se deve atentar sobretudo nos contextos em que o conceito é utilizado, ou seja, nas práticas, nas linguagens ou nas atitudes diaspóricas. Não se tratando de um conceito analítico inócuo, nem de uma “entidade etnogeográfica e etnocultural homogénea”, importa, por conseguinte, analisar as distintas realidades empíricas e ter presente a sua mobilização e instrumentalização das mais diversas formas (apoios a projetos políticos e identitários; conflitos armados; investimentos económicos e financeiros, etc.) (Brubaker, 2005: 13).

 

O uso do termo generalizou-se no âmbito da comunidade académica, dos meios de comunicação social e das próprias comunidades migrantes que, em muitos casos, passaram a autorrepresentar-se como tal. Esta “dispersão semântica, conceptual e disciplinar” – caracterizada por Rogers Brubaker (2005) como “diasporização da diáspora” –, acolhida e aplaudida pelos mais heterodoxos, é, portanto, criticada pelos mais puristas que defendem não haver diáspora sem a existência dos critérios acima referidos.

 

Autores como James Clifford (1997: 248-249; 253) reforçam a ideia de que a experiência judaica, a despeito da sua relevância histórica, não deve ser tomada como modelo definitivo, uma vez que exclui diversas outras histórias de deslocamento. Nesse sentido, propõe o alargamento dos limites tradicionais do conceito ao defender que, por exemplo, tribos dispersas podem reclamar “identidades diaspóricas”. Endossando uma perspetiva não essencialista, James Clifford destaca ainda o elemento relacional, bem como as tensões que atravessam as atuais diásporas – tradicional e moderno; local e global; nacional e transnacional; territorial e desterritorial; pertença e não pertença; integração e exclusão; residência e cidadania; exílio e retorno; pureza e hibridez; rigidez e flexibilidade; etnicização e assimilação; paroquialismo e cosmopolitismo –, as quais definem a “condição diásporica” e obrigam à sua constante reinvenção e reformulação, assim como das relações estabelecidas com as sociedades de origem e de acolhimento, questionando as assunções rígidas e essencialistas quer de identidade quer de território.


Às epistemologias do Sul cabe uma perspetiva sobre as diásporas “contemporâneas”, a qual tem sido realçada nas abordagens críticas, nomeadamente a abordagem pós-colonial, que enfatiza não só o sentido de pertença a uma homeland ou a constante criação de comunidades simbolicamente ligadas a uma origem ancestral, mas sobretudo a experiência de desenraizamento, de “exílio”, de permanente “trânsito” e de “fluidez” entre uma sociedade de acolhimento, frequentemente excludente, e uma sociedade de origem comummente idealizada.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Brubaker, Rogers (2005), “The ‘diaspora’ diaspora.” Ethnic and Racial Studies, Vol. 28(1): 1-19.

Clifford, James (1997), Routes: Travel and translation in the late twentieth century. Cambridge: Harvard University Press.

Sökefeld, Martin (2006), “Mobilizing in transnational space: a social movement approach to the formation of diaspora”, Global Networks, Vol. 6(3): 265–284.

Tölölyan, Khachig (2007), “The contemporary discourse of Diaspora Studies”, Comparative Studies of South Asia, Africa and the Middle East, Vol. 27(3): 641–655.

 


Katia Cardoso é licenciada em Relações Internacionais, mestre em Estudos Africanos e doutoranda em Pós-colonialismos e Cidadania Global e investigadora do Centro de Estudos Sociais

 

 

Como citar

Cardoso, Katia (2019), "Diáspora", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24257&id_lingua=1. ISBN: 978-989-8847-08-9