Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

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The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

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Graffiti

António Olaio
Publicado em 2019-04-01

Registo sobre parede em espaço urbano. Escrita que é desenho e desenho que é escrita. Registo gráfico de expressão individual que frequentemente sublinha uma dimensão coletiva.

 

Sentido coletivo que se pode manifestar de diferentes formas: nas mensagens explícitas ou implícitas, no carácter estereotipado que frequentemente assumem formas de expressão que não conhecem fronteiras, no desejo de pertença que se manifesta num processo de sociabilização que assim cria o seu próprio espaço.

 

O graffiti é contraditório na rebeldia que reclama e na assunção de linguagens que replicam a imagem que o senso comum dele faz. Mas também é esta a própria contradição da cultura Pop na relação entre a possibilidade de massificação das linguagens e o surgimento de formas de expressão inovadoras.

 

No graffiti estas serão certamente excepção, excepções que por vezes são descobertas pelos meios artísticos, como são os casos de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), artista que cedo passou das paredes de Manhattan para a cena artística nova-iorquina, reconhecendo as qualidades pictóricas do seu trabalho e de Keith Haring (1958-1990), cujos elementos gráficos de uma elementaridade extrema lhe permitiam uma enorme versatilidade compositiva e conceptual.

 

Outro exemplo é Banksy, artista que consegue o prodígio de manter o anonimato ao mesmo tempo que as suas obras atingem preços altíssimos, o que se deve certamente a outro prodígio: o de conseguir jogar com a imagem subversiva do graffiti e ao mesmo tempo com as suas possibilidades mediáticas e as suas capacidades de sedução do universo especulativo de um mercado da arte, ávido em absorver a irreverência, aqui servida numa legibilidade bastante acessível.

 

O graffiti não será certamente incólume à bonomia com que frequentemente é encarado, vendo assim diminuídas as suas potencialidades subversivas. No graffiti, como na arte em geral, há sempre quem se contente em replicar linguagens numa diluição da autoria. O que lhe pode conferir a qualidade de ter feito surgir a possibilidade de uma expressão marcadamente coletiva. De uma dimensão coletiva que lhe é interior, mas também de outra que lhe é exterior e que é o olhar que sobre ele se tem.

 

A dimensão ética que se associa ao graffiti como forma de resistência à exclusão social reflecte-se em processos de legitimação que frequentemente são assimilados pelo universo dos graffiti, podendo conferir-lhes uma dimensão meramente ilustrativa que não estaria na sua origem.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Campos, Ricardo (2010), Porque pintamos a cidade? Uma abordagem etnográfica do Graffiti Urbano. Lisboa: Fim do Século Edições.

Buchhart, Dieter et al (2014), Keith Haring: The Political Line. New York: Prestel.

Buchhart, Dieter (2010), Jean-Michel Basquiat. Berlin : Hatje Cantz.

Bansky (2007), Wall and Piece. London: Random House UK.

 


António Olaio, 1963, Lubango, Angola. Artista plástico. Professor no Curso de Arquitetura de Departamento de Arquitetura da FCTUC e Diretor do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, onde (com Pedro Pousada) é coordenador do Doutoramento em Arte Contemporânea. Investigador do Centro de Estudos Sociais.

 

 

Como citar

Olaio, António (2019), "Graffiti", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24295&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9