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Cristina del Villar-Toribio

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Índio/Indígena

Lino João de Oliveira Neves
Publicado em 2019-04-01

É sempre conveniente lembrar que o uso dos termos genéricos “índio” e “indígena” para designar os diferentes povos que desde tempos imemoriais imprimem as marcas de suas civilizações a todo o continente latino-americano, atende a função de uniformização sociocultural com que o pensamento moderno busca anular a diferença no cenário político do mundo contemporâneo.

 

Por esta razão, os movimentos indígenas da maioria dos países da América Latina rejeitam as palavras “índio” e “indígena”, intimamente identificadas com o processo colonial a que foram e continuam a ser submetidos, enfatizando termos como: povos indígenas, povos originários, povos nativos ou nações indígenas, mais apropriados à condição de protagonistas e principais interessados nas lutas de reconquistas dos seus direitos historicamente negados, mas dos quais jamais abdicaram.

 

Com as lutas etnopolíticas que a partir dos anos 1970 se estenderam a todo o continente americano, os movimentos indígenas se apropriaram dos termos “índio” e “indígena”, retirando-lhes a conotação preconceituosa e depreciativa com que foram historicamente usados. Utilizados hoje em alguns países em sentido positivo, “índio” e “indígena” correspondem a todo aquele que se autorreconhece como pertencente a um grupo étnico específico e que é reconhecido pelos demais membros desse grupo como integrante da comunidade.

 

Explicitando velhos preconceitos que revigoram a discriminação colonial, o discurso anti-indígena largamente difundido no senso comum, nega aos índios a possibilidade de existirem enquanto povos contemporâneos.

 

“Silvícola” ou “primitivo”, termos ainda hoje utilizados vulgarmente, reforçam um essencialismo arcaico que toma os “índios” como uma extensão da floresta, desqualificando-os enquanto povos e nações, e, por isso mesmo, reduzindo-os à condição de não sujeitos políticos. Ao mesmo tempo em que afirmam a concepção de que as populações indígenas representam um “obstáculo ao desenvolvimento” e que a sua presença em território nacional acarreta uma “ameaça à soberania” e um “risco de internacionalização”, “silvícola” ou “primitivo” acenam para uma pretensa incapacidade cívica e minoridade política dos índios que justificariam a necessidade da intervenção estatal, não apenas no controle e ordenamento imediato de suas expressões culturais, mas também das condições de sua permanência futura como sociedades e povos distintos.

 

A produção da não-existência indígena é operada através da naturalização e colonização do modo de viver dos índios e da colonialidade de poder sobre os sistemas indígenas de produção de conhecimento.

 

Com a naturalização, os índios são tomados como os “naturais da terra”, condição em que são mencionados nos livros didáticos para o ensino do que é comumente chamado de “História do Mundo Moderno”. A colonização do modo de viver dos índios impõe como requisito para ser “civilizado” ascender à condição de integrado à sociedade nacional, o que corresponde a deixar de ser índio, em que “civilizado” passa a ser sinônimo de não índio, de “ex-índio”. Através da colonialidade dos conhecimentos indígenas passamos todos, “brancos” e índios, a acreditar na superioridade exclusiva do conhecimento científico e, por conseguinte, na inferioridade e na não validade dos sistemas indígenas de produção de conhecimento em todas as suas dimensões: tecnológica, social, cultural, política, epistemológica etc.. Naturalização, colonização e colonialidade, estratégias políticas articuladas de imposição hegemônica que fazem dos indígenas sempre e unicamente simultâneos, mas nunca contemporâneos do mundo moderno.

 

Ao se valerem dos sinais diacríticos que permitem a presença indígena na sociedade moderna, os índios tornam possível a emergência do índio contemporâneo no contexto interétnico. É importante observar que, mesmo sendo os índios obrigados a assumir o modelo de comportamento imposto pela sociedade nacional, o que de modo imediato poderia indicar que já não são mais índios, a identidade indígena não se perde, uma vez que a adoção de quaisquer elementos da cultura material ou imaterial do branco não garante aos índios a identidade de cultura dos brancos derivada do modelo cultural dominante.

 

Assim, a adoção de elementos do “mundo do branco” funciona como estratégia para vencer a invisibilidade imposta e marcar uma presença indígena diferenciada, e que, para a afirmação do sujeito político índio, não pode se permitir confundir com o branco.
O “vestir de índio” para afirmar uma imagem de “índio” produzida pelo mundo branco é, nas palavras de Sylvia Caiuby Novaes (1993), uma “simulação” que não deve ser confundida com “fingir”. Longe de significar o abandono de expressões indígenas “originais”, os cocares, colares e pulseiras étnicas e a identidade de índio genérico, elementos que compõem o estereótipo do índio a partir da visão construída pelo mundo branco sobre o que é ser “índio”, fazem parte da estratégia política indígena mais efetiva de assegurar a possibilidade de emergência da presença contemporânea do índio no contexto interétnico.

 

Em todas as partes do continente americano, e em todo o mundo, inúmeras iniciativas indígenas afirmam, perante os Estados nacionais, os índios como atores políticos na discussão de questões que lhes dizem respeito. Afirmam também os povos indígenas como entes sociais cuja presença contemporânea no mundo ocidental moderno acena para a necessária construção de relações não mais fundadas na produção da desigualdade a partir de diferenças étnicas, mas que tomem o diálogo intercultural como princípio de relacionamento e a pluralidade étnica como situação concreta de convivência entre povos e culturas.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Novaes, Sylvia Caiuby (1993), Jogo de Espelhos: Imagens da Representação de si através dos Outros. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Oliveira Neves, Lino João de (2003), “Olhos Mágicos do Sul (do Sul): lutas contra-hegemônicas dos povos indígenas no Brasil”, in Boaventura de Sousa Santos (Org.). Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 111-151.

Santos, Boaventura de Sousa (2008), “A filosofia à venda, a douta ignorância e a aposta de Pascal”, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 80, março, 11-43.

 


Lino João de Oliveira Neves, antropólogo-indigenista, com trabalho direto desde 1979 com os povos indígenas na Amazônia, em particular na Amazônia brasileira. Professor no Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Amazonas, Brasil. Mestrado em Antropologia Social, pela Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil, Doutorado em Sociologia, pela Universidade de Coimbra, Portugal.

 

 

Como citar

Oliveira Neves, Lino João de (2019), "Índio/Indígena", Dicionário Alice. Consultado a 15.11.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24303&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9