Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destacado Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

Destacado Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

 

 

Intercultural

Maria Manuela Guilherme
Publicado em 2019-04-01

O termo Intercultural entrou recentemente no léxico das políticas transnacionais e nacionais, dos estudos académicos e dos media. Começou por estranhar-se, no discurso dominante, em língua inglesa, e acabou por se entranhar. É frequentemente usado em palavras compostas (com sufixos ‘ismo’ ou ‘idade’) ou em expressões compostas, adjetivando inúmeros substantivos. É hoje um adjetivo “fluido”, transversal a línguas e culturas. Boaventura de Sousa Santos (BSS) alerta para este perigo: “… al refugiarse en los adjetivos, la teoría acredita en el uso creativo de la franquicia de substantivos, pero al mismo tiempo acepta limitar sus debates y propuestas a lo que es posible dentro de un horizonte de probabilidades que originariamente no es el suyo” (2010, p. 30).

 

O termo Intercultural tem vindo a substituir Multicultural e ocasionalmente a ser substituído por Transcultural. A palavra Transcultural começa a ser preferida por alguns teóricos que a relacionam com o processo de globalização e hibridismos daí decorrentes. O Multicultural começou por ser teorizado em língua inglesa, enquanto que Intercultural soa mais familiar nas línguas portuguesa e espanhola e radicam em diferentes matrizes coloniais. Se, por um lado, o multiculturalismo tem origem numa matriz colonial mais segregacionista, em língua inglesa. Por outro lado, a interculturalidade emergiu de processos colonizadores, em língua portuguesa e espanhola, mais propensos à miscigenação, embora igualmente violentos. Estas distintas matrizes coloniais, quer nas sociedades colonizadas como colonizadoras, refletem-se no tratamento de populações indígenas, imigrantes ou refugiados.

 

O conceito Intercultural ocupa um espaço semântico abrangente que vai desde a ideia de ‘melting pot’ - meio assimilacionista, meio segregacionista - até a uma discussão crítica do exercício de uma cidadania intercultural emancipatória, a níveis local, nacional e global. Contudo, a natureza do discurso intercultural deve ser essencialmente ideológica, epistemológica e política. No projeto ALICE, o conceito que subjaz ao termo Intercultural é substantivo, remete para uma ontologia e uma epistemologia fundamentadas na teoria da “ecologia de saberes” de BSS e numa consequente justiça cognitiva que suporta a justiça social. Esta visão da interculturalidade desafia-nos para uma “hermenêutica diatópica”, cunhada por Panikkar (Estermann, 2008) e desenvolvida por BSS, que implica uma posição filosófica com apoio, em simultaneidade, em topoi diferentes, neste caso, em cosmovisões culturais distintas. BSS definiu o conceito e descreveu as suas implicações ontológicas e epistemológicas de uma forma visionária, baseando-se na ideia de que os topoi de cada cultura serão sempre tão incompletos como a respectiva cultura.

 

O projeto ALICE aborda ainda o conceito Intercultural, relançando as epistemologias do Sul, descentrando uma visão eurocêntrica do mundo, da vida e do conhecimento, assumindo a implementação de uma “sociologia das ausências” a par de uma “sociologia das emergências” (BSS), isto é, dando voz a visões de mundo outrora silenciadas e menorizadas ao mesmo tempo que, a partir destas, se explora o potencial que podem oferecer para novas formas de vivência social que se colocam a par das dominantes, como o caso da ideia de “buen vivir” nas comunidades tradicionais da América Latina em relação à utopia de “the good society” que inspirou as sociedades do Norte global.

 

O Intercultural pode definir-se muito simplesmente como a capacidade de conviver com o desconhecido. No entanto, reconhecer a diferença de ‘perspectiva’ é algo muito mais complexo do que pode parecer. Segundo Viveiros de Castro, “o etnocentrismo é como o bom senso… a coisa do mundo mais bem compartilhada” (2015, p. 35) e este verifica-se em todas as comunidades étnicas, também as discriminadas, que aliás sobreviveram à discriminação violenta precisamente por este seu fechamento etnocêntrico. Acrescenta o autor, “… ter olhos diferentes não significa ver ‘as mesmas coisas’ de ‘modos’ diferentes; significa que você não sabe o que o outro está vendo quando ele ‘diz’ que está vendo a mesma coisa que você” (Castro, 2011, p. 897). Torna-se contudo fundamental, para os interculturalistas, aceder a um quadro conceptual que nos desafia com um outro entendimento possível do jogo comparativo, analógico e da multiplicidade, já que para o próprio autor é na “relação dita ‘intercultural’ onde os jogos de linguagem divergem maximamente” (p. 92).

 

Deste modo, as diversas interpretações do Intercultural, sendo abstrações, não deixam de ser enraizadas em tradições culturais e em visões ontológicas. Na sua teorização atual, este conceito pode oferecer um espaço e um potencial relevantes para o reconhecimento, em equidade, e o diálogo paritário e recíproco entre culturas e entre línguas e, de uma forma crítica, para a construção de sociedades plurais e radicalmente democráticas.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Castro, E. V. (2015), Metafísicas Canibais. S. Paulo: Cosac Naify.

Estermann, J. (2010), Interculturalidad: Vivir la diversidade. La Paz: ISEAT.

Guilherme, M. & DIETZ, G. (2015), “Difference in Diversity: Multiple perspectives on multi-, inter-, and trans-cultural conceptual complexities”, Journal of Multicultural Discourses, 10(1): 1-21.

Santos, B. S. (2010), Refundación del Estado en América Latina. Perspectivas desde una epistemología del Sur. Lima: Instituto Internacional de Derecho y Sociedad.

 


Manuela Guilherme é investigadora sénior do Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra, desde 2002. Tem um doutoramento em Educação pela Universidade de Durham, UK (2000). Tem coordenado vários projetos internacionais financiados pela Comissão Europeia, que também lhe concedeu uma bolsa Marie Sklodowska-Curie (2014-2017).
 

 

Como citar

Guilherme, Maria Manuela (2019), "Intercultural", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24306&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9