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The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

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Museu Social

Karen Worcman, Lucas Ferreira de Lara, Rosali Maria Nunes Henriques
Publicado em 2019-04-01

As primeiras coleções que deram origem aos primeiros museus eram ligadas às Casas Reais e nasceram para valorizar a cultura das elites. Os gabinetes de curiosidades eram, na sua maioria, um conjunto de objetos – oriundos, muitas vezes, das apropriações coloniais - considerados exóticos e de valor artístico pela classe social dominante no período. O primeiro museu público, a Galeria do Louvre, foi inaugurado no período pós-revolucionário, pois as jovens nações se utilizaram dos museus para afirmar sua legitimidade. A valorização dos objetos foi a tônica na criação e na evolução do conceito dos museus e da museologia até o século XX.


Já a partir da metade do século XX, uma série de iniciativas como, por exemplo, o Museu do Inconsciente da psiquiatra Nise da Silveira e o Museu do Indio inspirado pelo trabalho de Darcy Ribeiro no Brasil (Chagas et al., 2018), trouxeram novos questionamentos ao mundo dos museus. Durante um encontro do Conselho Internacional de Museus (ICOM) em Santiago do Chile, em 1972, realizou-se uma mesa redonda cujo foco foi a conscientização do papel social e comunitário dos museus frente às crises sociais, políticas, econômicas e culturais da América Latina (quando quase todo o continente enfrentava regimes autoritários). As considerações relacionavam-se com as novas declarações da UNESCO sobre o que é e o que deve ser considerado patrimônio cultural e ambiental da humanidade.


Em 1984, a partir da Declaração de Quebec, Canadá, iniciou-se o Movimento Internacional para uma Nova Museologia (MINOM), que propunha que os museus deveriam besear-se na memória coletiva e não nos objetos. Mudou-se o conceito de “museu de” para “museu para” ou seja, afirmava-se então a ideia de que os museus tradicionais (e suas tipologias) deveriam refletir sobre sua função social e não apenas contentar-se em levar ao público o conhecimento específico de sua especialidade. Foi a partir dessas discussões que os museus enfrentaram questões importantes como desenvolvimento comunitário, foco de atuação do museu e educação permanente. Este processo de mudança envolveu disputas entre os apoiadores da nova museologia e os defensores de uma museologia tradicional. Os Museus são espaços que traduzem narrativas sociais e, como tal, são territórios de disputa. Quem pode definir o quê deve fazer parte de um Museu? A quem cabe o direito de estabelecer o que deve ser preservado?


A Nova Museologia, trouxe para o contexto museal uma nova dinâmica: o museu enquanto mediador e produtor de novas formas de conhecimento: Ecomuseus, museus comunitários, museus de percurso, museus virtuais são exemplos de museus colaborativos. A partir dos anos 2000, experiências inovadoras como o Museu Sítio da Memória na Argentina (Ex-ESMA localizado onde funcionou um dos centros de tortura da ditadura militar), os museus de favela e o Museu da Pessoa no Brasil evidenciaram, de forma efetiva, os novos temas e abordagens que ampliaram os horizontes de atuação dos museus. Ao possibilitar que qualquer pessoa possa fazer parte do seu acervo, registrando a sua própria história, o Museu da Pessoa, um museu que já nasceu virtual, transforma a relação do público com o seu patrimônio.


Podemos afirmar que as funções dos museus dividem-se em duas grandes linhas: a primeira delas é trabalhar a memória coletiva, através de referências patrimoniais, tornando-se uma instituição ativa socialmente. A outra é mediar o processo museológico, potencializando a relação entre o público e o seu patrimônio.


Orhan Pamuk, escritor turco e ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2006, escreveu em A Inocência dos Objetos (2012) um manifesto do que deveria ser, a seu ver, o norte dos museus no século XXI. Ele pontua que “os museus deveriam tornar-se menores, mais baratos e individuais. Esse é o único caminho para que esses museus possam contar histórias em uma escala mais humana. Grandes museus, com suas grandes entradas, nos fazem esquecer nossa humanidade e nos levam apenas a valorizar o Estado e as massas. Esse é o motivo pelo qual milhões de pessoas fora do mundo ocidental desenvolvido têm medo de ir a museus.”. Pamuk complementa dizendo que “o objetivo dos museus atuais e futuros não deveria ser o de representar estados, mas o de re-criar o mundo de pessoas – os mesmos seres humanos que trabalharam sob opressão durante centenas de anos” (2012: 55-58).
Pamuk resume, neste manifesto, a essência do que de fato caracteriza o Museu Social: não é nem seu objeto, nem tampouco seus processos museológicos, mas sobretudo seus compromissos éticos e políticos em trabalhar para a transformação social.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:

Chagas, Mário; Primo, Judite; Assunção, Paula; Storino, Claudia (2018), “A museologia e a construção de sua dimensão social: olhares e caminhos”, Cadernos de Sociomuseologia, 55(11), 73-102.
Meneses, Ulpiano (1993), “A problemática da identidade cultural nos museus: de objetivo (de ação) a objeto (de conhecimento)”, Anais do Museu Paulista, Nova Série, 1, 207-218.

Mensch, Peter van (1988), “Muséologie et musées”, Nouvelles de L’ICOM, 41(3), 5-10.

Pamuk, Orhan (2012), The Innocence of Objects. New York: Abrams Books.

 

Karen Worcman é fundadora e presidente do Museu da Pessoa. Graduada em História pela Universidade Federal Fluminense, mestre em Linguística pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutoranda no Diversitas – núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos da Universidade de São Paulo. Co-autora do Social Memory Tecnhology: Theory, Practice, Action (Routledge 2016).

 

Lucas Ferreira de Lara é Coordenador de Museologia no Museu da Pessoa. É Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (Brasil) e Gestor Cultural pelo Centro de Pesquisa e Formação do SESC - SP (Brasil).

 

Rosali Maria Nunes Henriques é mestre em Museologia pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, doutorada em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, doutoranda em História pela Universidade Nova de Lisboa e pós-doutoranda pela Universidade de Coimbra.

 

Como citar

Worcman, Karen; Lara, Lucas Ferreira de; Henriques, Rosali Maria Nunes (2019), "Museu Social", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24414&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9