Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Weekly Highlight

Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

Weekly Highlight

Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

 

 

Agricultura

José Guilherme Franco Gonzaga, Jonas Neves
Publicado em 2019-04-01

Do ponto de vista etimológico, a palavra agricultura nos remete para a relação entre cultura e natureza, mediada pelo trabalho, pois em sua origem grega, o radical Agri significa terra, e cultura o ato de cultivar, portanto propomos pensar a agricultura em sua perspectiva histórico-sociológica. Nesse sentido, homens e mulheres, por meio das experiências provocadas pelo cuidado com a alimentação, desenvolveram a capacidade, pela observação e pela necessidade, de cultivar a terra. Os restos de alimentos coletados diretamente da natureza foram transformados em sementes e os filhotes de animais caçados começaram a ser domesticados, possibilitando a reprodução intencional. Começava a surgir, assim, uma agricultura de tipo camponesa, na qual a autonomia sobre o cultivo das sementes e sua capacidade produtiva está presente.

 

Neste tempo, natureza e cultura constituíam uma relação simbiótica, aonde a transformação da primeira fazia parte da segunda, em um processo em que o ser humano e suas formas de reprodução material da vida ainda estavam integrados. Diferentes culturas, diferentes tipos de agriculturas. Foi a partir desta interrelação homem/natureza que se tornou viável que alguns agrupamentos humanos pudessem se afixar, ainda que muitas culturas se organizem de maneira nômade.

 

Entretanto, se em seu princípio a função social fundamental da agricultura era a produção de alimentos; com a apropriação de uma parte da natureza, numa perspectiva antropocêntrica, o ser humano aliena-se de uma de suas condições essenciais para a reprodução da vida (terra/solo), dado que deixa de se sentir parte da natureza e a se julgar como seu legítimo direito a apropriação desta, como elemento externo a si. Este processo se manifesta de maneira ampliada no expansionismo europeu e com a colonização, numa perspectiva eurocêntrica, decorrente daquele antropocentrismo, em que também se hierarquiza os seres humanos e as culturas.

 

Esta ruptura entre cultura e natureza se constitui com uma das bases fundamentais para as relações de dominação do homem ocidental cristão em relação à natureza, a outros homens/mulheres e a outros povos. Estabelece-se, assim, uma falha metabólica que, em consonância com um projeto de imposição de uma determinada concepção de mundo, colabora para sua ampliação, seja porque a agricultura se desprende de sua condição inicial de reprodução da vida para se transformar em simples mecanismo de formação de valor e criação de mercadorias, seja porque torna-se hegemônica a ideia de que uma pseudociência é capaz de substituir e suplantar, com fertilizantes e venenos, os recursos naturais em relação a reprodução da vida. Este processo se acentua com a chamada “revolução verde”, que ao mesmo tempo que se coloca no papel de garantir alimentos, produz mercadorias que se inserem em um processo de reprodução de morte da natureza e das relações culturais.

 

Na atual fase do capitalismo, a agricultura está caracterizada pela retirada da autonomia da agricultura camponesa com o controle da indústria, principalmente química, sobre as formas de produção agrícola. A forma epistêmica ou metodológica deste processo é a efetivação da monocultura, provocando, com isso, o epistemicídio da diversidade da vida, tendo como uma das consequências o controle do mercado mundial de alimentos por poucas empresas.

 

Para a superação da crise provocada pela colonialidade e pela modernidade, o que se coloca é a necessidade de uma recomposição da relação cultura e natureza com uma ecologia de saberes que passa também por recuperar formas de garantir a reprodução social da vida. Por isso, entidades como a Via Campesina vêm estimulando movimentos como o da soberania alimentar, que pressupõe o direito de todos os povos de definirem suas políticas e estratégias sustentáveis de produção, distribuição e comercialização, de forma que se garanta o direito à alimentação, com base na pequena e média produção, com respeito a gestão da vida no campo; as suas próprias culturas; a diversidade de geração, de gênero e das culturas camponesas.

 

A forma epistêmica/metodológica que os povos do “sul” estão a praticar na busca da recomposição cultura natureza e para a garantia da soberania alimentar é a agroecologia. Ou seja, um conjunto de princípios e técnicas que buscam integrar as formas de produção, a preservação dos recursos naturais, recuperação e cuidado com as sementes, a vida e o trabalho no campo.

 

Para tanto, há uma preocupação em criar um sistema de produção baseado em relações sociais mais igualitárias, que não hierarquizem atividades produtivas e reprodutivas, estejam conectadas ao meio ambiente, bem como que orientadas à produção de alimentos saudáveis e à proposição de uma outra combinação entre diferentes conhecimentos e de uso do espaço e do tempo. Em todos continentes diferentes formas e saberes de agroecologia são praticadas por povos com vínculo direto com a terra, considerando a diversidade cultural, epistêmica, alimentar, étnica e das formas de produzir.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Mazoyer, Marcel; Roudart, Laurence (1998), História das agriculturas do mundo: do neolítico à crise contemporânea. Lisboa: Instituto Piaget.

Toledo, V.M.; Barrera-Bassols, N. (2015), A memória biocultural: a importância ecológica das sabedorias tradicionais. São Paulo: Expressão Popular.

Sousa, R. da P.; Martins, S.R. (2013), “Construção do conhecimento agroecológico: desafios para a resistência científico-acadêmica no Brasil”, in J.C. Costa Gomes & W.S. de Assis, Agroecologia: princípios e reflexões conceituais. Brasília: EMBRAPA.

 


José Guilherme Franco Gonzaga é Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa, atuando no Curso de Educação do Campo, formado em Pedagogia, Mestrado e Doutorado em Educação pela Universidade Federal Fluminense, com Doutoramento Sanduíche pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

 

Jonas Anderson Simões das Neves é Professor Adjunto da Universidade Federal do Pampa, Coordenador do Curso de Educação do Campo, formado em História pela Universidade Federal do Rio Grande, com mestrado e doutorado em Sociologia e Pós-doutorado em Desenvolvimento Rural pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


 

Como citar

Gonzaga, José Guilherme Franco; Neves, Jonas (2019), "Agricultura", Dicionário Alice. Consultado a 28.03.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24431&id_lingua=2. ISBN: 978-989-8847-08-9