Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destaque Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

Destaque Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

 

 

Prazer

Maisa Antunes
Publicado em 2019-04-01

Na análise das esferas da estrutura do pensamento moderno ocidental, o prazer, juntamente com a autoria e a artefactualidade discursiva, compõe um dos domínios da emancipação: a racionalidade estético-expressiva (Santos, 2002: 71-77). Essas dimensões assinalam um caráter de inacabamento e abertura, que, na prática, podem ser tidas como atitudes de libertação. Santos aponta que o prazer foi expulso da ciência, ficando prisioneiro do consumo de massa (Ibidem: 107), e que há, no âmbito das artes, uma espécie de institucionalização dessa dimensão. Tal institucionalização “deu-se através da industrialização do lazer e dos tempos livres, das indústrias culturais e da ideologia e prática do consumismo.” (Ibidem: 72). Mesmo diante desse cenário, encontrando-se semi-enclausurado, o prazer, no âmbito da racionalidade estético-expressiva, pôde ser imaginado utopicamente, mais do que semi-liberto (Ibidem).


O prazer é uma dimensão inerente à condição humana, está fundamentalmente relacionado às emoções e ao brincar. Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller lembram-nos de que a cultura moderna ocidental desdenhou do brincar e desvalorizou as emoções como fundamentos que orientam qualquer ação humana e que por isso tornamo-nos limitados social e biologicamente, já que há um desequilíbrio que privilegia a razão (2004: 221). Tal desequilíbrio fez com que perdêssemos a inocência e deixássemos de brincar. A negação do brincar como aspecto central da vida e como consciência de si e do mundo levou-nos a concentrar nossa atenção no futuro, tirando-nos a capacidade de viver o presente (Ibidem: 230). Com isso, nossas emoções ficaram orientadas à competição e à indiferença.


Maturana e Verden-Zöller dizem que a cultura patriarcal europeia, fora antes matrística: o viver era centrado na estética sensual, no amor, com tempo disponível para contemplar a vida e viver o mundo sem urgência (2004: 40-41); o emocionar da vida adulta assemelhava-se à infância; o sexo e o corpo não eram tidos como fontes de vergonha, obscenidade, ou como fonte de procriação, mas uma vertente de prazer, sensualidade, ternura e estética (2004: 48). Nessa cultura, as relações não se fundamentavam na propriedade, nem no controle. Quando as emoções passam a ser fundamentadas pela apropriação, necessidade de controle e acúmulo, parece acontecer uma espécie de nascedouro do capitalismo, patriarcado e colonialismo; e foi com esse emocionar que ocorreram as colonizações. A sociedade moderna ocidental vive, portanto, essencialmente o emocionar de uma cultura patriarcal, capitalista e colonial, vibrando as emoções com a hierarquia, a apropriação, a dominação, a competição, o que causa relações de opressão, sofrimento, desigualdades e promove uma injustiça cognitiva.


Atualmente, nosso desejo de não sentirmos dor põem-nos a caminho de uma “justiça cognitiva” (Santos, 2010: 146-153) – tanto no campo prático, como no campo teórico –, em busca de procedimentos e experiências que nos reorientem a construir um conhecimento-emancipação-descolonizador, ou seja, um conhecimento-prazer. O livro A gramática do tempo: para uma nova cultura política (Santos, 2010), que nasce de pesquisas em países do Sul global, apresenta-nos os procedimentos meta-sociológicos: sociologia das ausências e sociologia das emergências, atuando esses dois na esfera do tempo, o primeiro na expansão do presente e o segundo na contração do futuro (2010: 89). Esta atitude nos mobiliza a enfrentar a lógica do pensamento moderno ocidental, que está pautado na dicotomia-hierárquica e no tempo linear, e lança-nos o desafio atual: viver o presente. Junto a este, também o desafio de denunciar os modos de produção da não-existência (2010: 95-98) e buscar a visibilidade, através das ecologias (2010: 98-107), das experiências que acontecem na esfera de outras emoções e outras racionalidades, isto é, a busca por um conhecimento-prazer.


O prazer está associado também à sua percepção enquanto linguagem, o que justifica sua presença como uma das dimensões da racionalidade estético-expressiva, na qual se situa a arte. Esta percepção amplia a sua condição de expressão e brincadeira, ou seja, a concentração no presente e a atenção voltada para a própria atividade que se faz, e não para seus resultados (Maturana e Verden-Zöller, 2004: 231). O prazer não é riso, divertimento e comicidade; é uma dimensão inerente ao ser, associando-se ao jogo, já que somos também homo ludens (Huizinga, 2003: 15). O jogo não é preparação para o futuro, nem exercício de autocontrole, nem está comprometido com a dominação e a competição; tem antes um carácter profundamente estético (Ibidem: 18). Estes aspectos relacionados ao prazer permite-nos entender que a busca por ele poderá ser uma busca pela “justiça cognitiva”. Desse modo, os carácteres “estético”, “brincante” e o “da luta” mostram-nos que a seriedade é um componente fundamental do prazer.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Huizinga, Johan (2003), Homo Ludens. Um estudo sobre o elemento lúdico da cultura. Lisboa: Edições 70.
Maturana, Humberto R.; Verden-Zöller, Gerda (2004), Amar e Brincar: fundamentos esquecidos do humano – do patriarcado à democracia. São Paulo: Palas Atenas. Tradução de Humberto Mariotii e Lia Diskin.
Santos, Boaventura de Sousa (2002), A crítica da Razão Indolente – Contra o desperdício da experiência. Porto: Editora Afrontamento.
Santos, Boaventura de Sousa (2010), A Gramática do tempo: para uma nova cultura política. Porto: Editora Afrontamento. [2.ª ed.]

 

Maisa Antunes é Doutoranda do Centro de Estudos Sociais – Universidade de Coimbra, Programa Pós-Colonialismos e Cidadania Global. Mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia. Atuou em projetos artísticos. Participou da elaboração de livros didáticos para crianças do/no semiárido brasileiro. É professora na Universidade do Estado da Bahia.

 

Como citar

Antunes, Maisa (2019), "Prazer", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24494&id_lingua=1. ISBN: 978-989-8847-08-9