Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

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The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

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Queer

João Manuel de Oliveira
Publicado em 2019-04-01

Queer, Kuir, Qu*A*Re - Uma história já canónica localiza a emergência do queer no ativismo que se organiza nos Estados Unidos da América em torno da epidemia do HIV/SIDA. Neste contexto, queer traduzia uma ideia para além de uma identidade LGBT, recorrendo a um insulto estigmatizado e sabotando-o via uma identificação. Assim queer implica reapropriar o insulto, como forma de ressignificação. Mas também de desidentificação através de um processo de reapropriar e alterar a codificação heteronormativa que o marca como insulto. Estes processos de apropriação e recodificação implicam performatividades que produzem como efeito a contestação do processo de constituição histórica do sujeito queer descrito como estranho, bizarro, extravagante, fora do padrão da sexualidade. Uma inteligibilidade queer irá tensionar o uso de expressões biomédicas como homossexual e preferir outras: bicha, travesti, viado, sapa, etc. como forma de problematizar esse modo higienizado e homonormativo de produzir um determinado sujeito, aceitável para a heteronormatividade. Em suma, o estranho que não aspira ao centro e que produz incomodo e perturbação, das margens e entre fronteiras.

 

Assumir esse insulto como identificação é um processo de desidentificação da matriz heterossexual das normas de géneros e, por isso, de sabotagem da mesma. Trata-se de trabalhar as falhas da norma, de as usar para determinados efeitos políticos (Butler, 1993), sinalizando também a necropolítica, uma instrumentalização das mortes, de uma grande quantidade de pessoas que o Estado deixa morrer ou permite que morram (de muitas maneiras) como ocorre em determinadas populações trans*, travesti e menos conforme às normas de género que se intersectam com racialização e classe.

 

A ideia de queer é rapidamente globalizada e viaja, produzindo outros efeitos, umas vezes hibridizando-se, outras provocando reações variáveis. Contudo, a genealogia canónica estado-unidense silencia as muitas outras possibilidades de contar outros kuirs. Essa apropriação na América Latina implica inclusivamente chamar-lhe outro nome, cuir ou kuir, para apropriar o termo desarmando-o da sua branquitude anglo colonial. Esse processo de kuirização do queer implica sabotar essa origem e produzir outras genealogias excêntricas – fora do centro, extravagantes e que sejam excêntricas à canonicidade (Oliveira, 2016), tornando-o menos palatável ou menos assimilável às normas de género que também se intersectam com os efeitos da colonialidade, globalização e capitalismo, inseparáveis da produção de saberes. Assim propostas como teoria cu ou teoria transviada vão surgir no Brasil (Pelúcio, 2014), por exemplo, mostrando como determinadas traduções/traições e torções se tornam possíveis quando abandonamos um modo apenas Minnie Mouse, i.e. anglo/eurocêntrico, de pensar o queer e começamos a refigurá-lo de outro jeito noutras localizações.

 

Um espaço entre, que não fica nem na importação e simplesmente tradução do queer nem na traição à lógica antropofágica da cultura brasileira, habitar a fronteira como afirma Mário César Lugarinho (2001). Essa fronteira permanentemente inscrita no corpo e nos saberes kuir, mas também nas práticas artísticas artivistas e outras, tem como implicações um corpo que é geo/politicamente constituído e disso não é inocente. Então, saberes kuir, necessariamente do Sul, são outras topografias dos corpos, outras propostas de incorporação, um corpo que pode ser racializado, colonizado, que pode transportar a favela e a periferia  também.

 

Da mesma forma, a tradução em Portugal que tende a ficar refém das epistemologias do norte global e precisa antes de ir até aos trópicos, fazer-se bispo Sardinha e ser deglutido pelos ameríndios canibais para conseguir pensar o queer de uma outra forma, para pegarmos no Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. A posição semiperiférica portuguesa produz outro espaço entre: entre uma deglutição anglo da teoria Queer (a que jocosamente chamo Minnie Mouse), tratada como referência, e a produção de uma agnotologia (produção sistemática de uma ignorância) sobre o kuir do Sul, sobretudo do Brasil e da América Latina, com poucas incursões na produção africana e olhando ainda timidamente para a vasta produção em espanhol.

 

Parecem ser necessárias outras referências, não só a Minnie Mouse e tentar usar outros kuirs, eventualmente mais ressonantes com saberes des/subjugados, pensados a partir também da colonialidade, geopolítica e pós-colonialidade, gerando com eles epistemologias do sul, outras histórias, um qu*A*re que pega no A de black e coloca no meio do queer. O kuir carrega a marca de colonização e da decolonialidade, simultaneamente, é produzido entre mundos. É assim contradição, enxertia, hibridização num mundo capitalista racializado. Então, constitui-se também como um projeto crítico das narrativas lineares, ruptura com o euro/anglocentrismo, cisão com os tempos, suas crono(hetero)normatividades e modos de contar, um corpo estranho que habita entre fronteiras, mais cabocla e canibal que Minnie Mouse. 

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Butler, Judith (1993), Bodies that Matter. London: Routledge.

Lugarinho, Mário César (2001). “Como traduzir a teoria queer para língua portuguesa”, Gênero, 1(2), p. 33-40.

Oliveira, João M. (2016), "Genealogias excêntricas - os mil nomes do queer", Periodicus, 6, 1-6.

Pelúcio, Larissa (2014), "Traduções e torções ou o que se quer dizer quando dizemos queer no Brasil?", Periodicus, 1, 68-91.

 


João Manuel de Oliveira é professor visitante associado na Universidade Federal de Santa Catarina e investigador integrado no Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa. Trabalha com estudos de género, teoria feminista, teoria queer e estudos críticos da sexualidade. joao.m.oliveira@gmail.com

 

 

Como citar

Oliveira, João Manuel de (2019), "Queer", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24496&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9