Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destacado Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

Destacado Semanal

The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

 

 

Ativismo Digital

Sara Moreira
Publicado em 2019-04-01

Tão antiga quanto as lutas de poder nas sociedades, a ação direta em prol de transformações sociais e políticas tem vindo a ganhar novos palcos com o advento da sociedade da informação e o acesso alargado às tecnologias digitais. As infraestruturas de rede do século XXI funcionam hoje como ferramentas centrais nos processos de mobilização social e disseminação de campanhas em defesa de causas e direitos – ou em oposição às injustiças e poderes instituídos.


Não sendo um fim em si mesmo, o digital é um meio de comunicação eletrónica através do qual é possível organizar, disseminar, exercer e multiplicar campanhas de sensibilização e protesto. Alargando o âmbito do ciberativismo – que acontece exclusivamente através da Internet – o ativismo digital contempla o conjunto de atividades de campanha com recurso a tecnologias digitais, incluindo as redes sociais e “ativismo de hashtag” mas também o uso de telemóveis e outros dispositivos “offline” (Joyce, 2010) – como as mobilizações convocadas através de SMS (por exemplo, a “Revolta do Pão” em Moçambique em 2010), ou a disseminação de conteúdos através de “pen drives” (por exemplo, as campanhas levadas a cabo por ativistas do software livre através da distribuição de sistemas operativos não corporativos).


As raízes históricas do ativismo digital surgiram precisamente a partir do movimento do software livre, na década de 1980, com as suas comunidades virtuais de criação e partilha de conhecimento em torno do desenvolvimento FLOSS (acrónimo de Free/Libre Open Source Software). O movimento pretendia combater a tendência que se iniciava então de privatizar o software – considerando-a um ataque à liberdade de expressão – e inspirava-se na cultura hacker que surgira nos anos 1960 com a experimentação criativa sobre sistemas de software, subvertendo os propósitos originais da tecnologia e atribuindo-lhe novas funções.


Já com a World Wide Web em funcionamento no início dos anos 1990, surgem os primeiros “hacktivistas”: o levantamento Zapatista, no México, usou de forma pioneira a Internet para chamar a atenção para as suas lutas, incluindo ação direta de “inundação” de websites do governo. As táticas Zapatistas terão influenciado um momento paradigmático do ativismo digital que veio a acontecer em 1999, aquando das manifestações contra a Organização Mundial do Comércio em Seattle, nos Estados Unidos da América. Ativistas do movimento pela alterglobalização romperam o cerco mediático imposto pelos meios de comunicação convencionais ao serviço dos interesses corporativos, lançando um portal autónomo de comunicação e coordenação com o objetivo de potenciar uma cobertura jornalística independente dos acontecimentos. Nasce assim a rede Indymedia, que viria a converter-se num ponto de referência para os movimentos sociais e meios de comunicação alternativos na era da Internet, oferecendo a qualquer utilizador a possibilidade de publicação direta de relatos e notícias nas dezenas de “centros de media independente” que foram surgindo à volta do mundo.


Começam então a florescer novos espaços que possibilitam a “auto-comunicação de massas” online (Castells, 2011) através de blogues, salas de chat, fóruns, wikis e outras comunidades virtuais. Mas é por volta de 2006, com a ascensão da Web 2.0 e das redes sociais corporativas, que as multidões passam a estar interconectadas a um nível que favorece o fluxo contínuo de vozes múltiplas e a organização de ações coletivas.


A grande explosão do ativismo digital dá-se no ano em que o número de utilizadores do Facebook em África, na Ásia, na América Latina e no Médio Oriente ultrapassa o número de utilizadores na Europa e na América do Norte: em 2011, primeiro a Primavera Árabe, e depois os Indignados, a Praça Sintagma e o Occupy Wall Street, entre outros, iniciaram uma nova era no ativismo digital com respaldo de massas no mundo físico.


Se por um lado é evidente que as redes sociais podem servir de ferramenta para as pessoas se fazerem ouvidas e defenderem os seus direitos, por outro existem críticas quanto ao real impacto do digital nos processos de transformação política: desde o “ativismo de sofá” (“slacktivism”, cunhado por Evgeny Morozov), aos limites na capacidade de ameaçarem de facto quem está no poder e provocarem transformações efetivas. Para além disso, muito do ativismo digital de hoje toma lugar através de plataformas corporativas que representam elas próprias uma ameaça à privacidade e integridade de quem as utiliza, já que os poderes instituídos também despertaram para o facto de as redes sociais poderem servir os seus próprios interesses, e passaram a usá-las para vigiar e limitar as liberdades dos ativistas e para manipular a opinião pública. Não pode portanto pensar-se no ativismo digital à margem da necessária luta pela soberania tecnológica e da apropriação dos meios de produção e reprodução.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Castells, Manuel (2011), Communication Power. Oxford, UK: Oxford University Press.
Morozov, Evgeny (2011), The Net Delusion: The Dark Side of Internet Freedom. PublicAffairs.
Joyce, Mary (ed.) (2010), Digital Activism Decoded: The New Mechanics of Change. International Debate Education Association.

 

Sara Moreira é doutoranda no programa Sociedade da Informação e do Conhecimento no Instituto Interdisciplinar da Internet da Universidade Aberta da Catalunha (IN3/UOC) onde colabora com o grupo de investigação Dimmons, dedicado aos comuns digitais. O seu projecto de investigação debruça-se sobre a comunicação das "outras economias" e é acolhido pelo Instituto de Sociologia da Universidade do Porto.

 

Como citar

Moreira, Sara (2019), "Ativismo Digital", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24600&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9