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Jesús Sanz Abad

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Movimentos Sociais

Ana Raquel Matos
Publicado em 2019-04-01

Várias dinâmicas animam o compasso, mais ou menos cadenciado, que dá vida às sociedades. Os movimentos sociais (MS), expressando uma forma específica de conflito, integram o elenco desses fenómenos. São processos organizados que dinamizam formas de ação coletiva sustentadas no tempo e que impelem à interação com outros atores politicamente relevantes.


Os MS, indissociáveis da sua forma de agir, de estar e de fazer política – política de contestação (McAdam, Tarrow e Tilly, 2001) – constituem-se como atores político-sociais de grande relevância. Organizam-se a partir de um projeto voluntário de ação concertada, que executam fora dos canais institucionalizados. Resultam da congregação de interesses em identidades coletivas que interpelam a ordem social vigente a partir de estratégias de luta e de resistência, visando concretizar reivindicações que emanam das realidades desconfortáveis em que vivem. A ação coletiva que os operacionaliza consubstancia-se em rituais coletivos, como ações de protesto – tantas vezes confundidas com os próprios MS –, que colocam a nu as feridas abertas de uma sociedade.


Os MS produziram uma longa história que narra o seu legítimo direito ao estatuto de substantivo com potencial emancipatório, pelo seu indiscutível papel na definição de bem comum. Uma história de conquistas sob o desígnio de “direitos”: laborais, civis, de sexualidade e género, de cidadania, citando apenas alguns exemplos da paleta de cores dos direitos humanos.


Aos MS reconhece-se a capacidade de ativar a sociedade civil no combate a adversários distintos, com destaque para o poder político, elevando-se a componente singular no âmbito das possibilidades de participação e promoção de cidadania. Feitos de participação e para a participação, os MS ajudaram a resgatar a democracia participativa do registo de utopia e apresentam visões alternativas à democracia liberal que prevalece.


É no enquadramento da sociedade industrial e da modernidade que os MS passam a assumir nitidez, emergindo como dinâmica incomparável, movida a estratégias e emoções resultantes do antagonismo, apostada na socialização de um espetro variado de problemas socais.


Enquanto categoria analítica, o conceito MS, embora enquadrando a tendência de politização de lutas num contínuo temporal, foi sofrendo mutações semânticas. Consolidaram-se nos velhos MS dos finais do século XIX, início do século XX, vinculados à luta por direitos cívicos, políticos e sociais, sobretudo, a partir de conten-ciosos de classe e de trabalho. Nos finais de 1960, porém, abre-se um capítulo novo na sua história. O mundo passava por transformações profundas e, um pouco por toda a parte, recrudesciam novos movimentos e reivindicações: o movimento antiguerra e a luta por direitos civis dos negros nos Estados Unidos da América; o Maio de 1968, em França; os protestos estudantis na Alemanha, Grã-Bretanha e México; as coalizões trabalhadores-estudantes no “Outono Quente”, em Itália; as ondas de mobilização pró-democracia que se generalizavam. Multiplicaram-se lutas, misturam-se rostos e vozes em novas identidades: feministas, ambientalistas, estudantis, antiguerra, entre outras. Estes são agora os novos MS, que não só imprimiram outro ritmo à política da década de 1970, como se legitimaram enquanto atores indispensáveis ao projeto de reflexividade, onde as bases da sociedade se afirmaram como o lugar de enunciação da transformação social e democrática.


Novos quadros sociais e analíticos, incluindo os que remetem para o atual contexto de crise global, sustentam hoje a ideia de que os MS sofreram novas mutações. Desde exemplos como os protestos em Seattle, em 1999, os reiterados Fóruns Sociais Mundiais, desde 2001, e mais recentemente o Movimento Occupy, de 2011, generalizou-se a ideia de que os MS respiram novo folego. Arriscam-se vaticínios sobre a emergência de um MS global, criando-se expectativas sobre uma transformação que apenas é espuma de uma esfera pública transnacional, ou seja, uma realidade distante da possibilidade de um movimento aglutinador de MS heterogéneos aliados contra a globalização neoliberal e seus impactos. Cristaliza-se uma nova concetualização do fenómeno que remete para “novos-novos” ou “novíssimos” MS, todavia, o que de novo aportam são estratégias de mobilização e ação coletiva em resultado do recurso a tecnologias de informação e de comunicação, numa tentativa de apropriação tecnopolítica emancipatória, embora se mantenham audíveis os gritos de agonia de velhos e novos direitos entretanto entregues a processos de erosão.


Os MS sabem-se dependentes de arenas de atuação como os média, que os subjugam ao investimento na espetacularidade, ou na violência, estratégias que lhes garantem o visto para a noticiabilidade. Não deixam, no entanto, de ser o espelho onde se refletem as imperfeições de uma sociedade e o berço de formas de solidariedade coletivas. Os MS marcam uma constante na história da vida em sociedade e afirmam-se como fenómeno em permanente transformação.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Della Porta, Donatella; Diani, Mario (1999), Social Movements: An introduction. Cornwall: Blackwell Publishing.
Goodwin, Jeff; Jasper, James (eds.) (2009), The Social Movements Reader. Cases and Concepts. Oxford: Wiley-Blackwell.
McAdam, Doug; Tarrow, Sidney; Tilly, Charles (2001), Dynamics of Contention. Cambridge: Cambridge University Press.

 

Ana Raquel Matos é doutorada em Sociologia pela Universidade de Coimbra. É investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES), onde se dedica à análise de temas como democracia e participação pública, movimentos sociais e ação coletiva, com destaque para as ações de protesto na área da saúde em Portugal.

 

Como citar

Matos, Ana Raquel (2019), "Movimentos Sociais", Dicionário Alice. Consultado a 28.03.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24655&id_lingua=1. ISBN: 978-989-8847-08-9