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Cartografia

Gonçalo Canto Moniz
Publicado em 2019-04-01

Cartografar a realidade com mapas torna possível “caminhar com segurança”, como referia Orlando Ribeiro (1987: 39), o geógrafo da identidade regional. De facto, os mapas têm possibilitado conhecer, interpretar e actuar sobre a realidade, como acontece desde a aventura dos descobrimentos para controlar o hemisfério sul que era então desconhecido do norte.


A cartografia moderna, apoiada no conhecimento científico e na ambição militar e política, substituía a cartografia medieval, utilizada como instrumento da construção religiosa do mundo.

O carácter simbólico do mapa medieval dava lugar ao mapa temático e racional, construído segundo critérios técnico-científicos de representação sem, contudo, se perder uma dimensão artística, que esteve sempre presente na formação dos geógrafos e dos engenheiros militares, uma vez que se considerava que a representação era também comunicação.


O conhecimento do mundo físico pelas diversas áreas científicas, sociais e humanas foi utilizando o mapa para cartografar a realidade, que se tornava cada vez mais complexa e interrelacionada. Já não era só o território e os fenómenos físicos que interessava mapear, mas também os seres vivos e os fenómenos sociais, nem sempre quantificáveis nem traduzíveis em dados concretos. Em certo sentido, os mapas sociais recuperaram a tradição do mapa simbólico e religioso, explorando cada vez mais a dimensão artística, como instrumento de representação do abstracto por oposição ao real.


Mais recentemente, com a passagem do mapa em papel para o mapa digital, a cartografia passou a ser dinâmica, por um lado, integrando a transformação dos fenómenos e dos espaços e, por outro lado, associando um conjunto tendencialmente infinito de dados, o que permite representar a complexidade dos fenómenos. Neste sentido, um dos desafios é a cartografia de redes que, através da internet, permite relacionar o mundo digital com o mundo físico, onde os mapas relacionam o conhecimento e a experiência (Abrams e Hall, 2006).
O mapa digital tornou-se assim um instrumento de reflexão e acção sobre o mundo real, com o objectivo de resolver os grandes problemas sociais, mas também políticos, comerciais, administrativos e técnicos. Com o apoio da infografia, reduz-se os problemas e as soluções a esquemas e diagramas simplificadores de uma realidade cada vez mais complexa. A cartografia tornou-se assim um instrumento político, que constrói realidades, ainda que virtuais.


Esta dimensão é explorada por Bruno Latour (1987) a partir do conceito “Science in action”, onde o “mapeamento de controvérsias” pretende ser instrumento para a democratização da sociedade. O mapeamento dinâmico do debate é baseado nos discursos e acções dos diversos actores, com o objectivo de compreender o fenómeno, não só espacialmente, mas também ao longo do tempo.

A cartografia das práticas científicas e sociais, tal como a das práticas culturais, pretende igualmente dar ferramentas às comunidades locais e globais para um maior envolvimento na governação local e regional. O mapeamento cultural tem, portanto, contribuído para que as “comunidades se definam em termos de identidade cultural, vitalidade, sentido de pertença e qualidade de vida” (Duxbury et al., 2015: 2). Assim, podemos retomar o legado de Kevin Lynch e do seu livro “The image of the City”, publicado em 1982, onde sublinhava a importância de compreendermos a percepção que os habitantes têm da sua cidade, através dos seus mapas mentais.


Esta possibilidade abriu-se com a utilização generalizada de smartphones que permitem a todos os cidadãos comunicar, aceder a informação e deslocar-se física e virtualmente a partir dos seus próprios mapas, que (re)constroem quotidianamente. A geolocalização e a internet democratizaram o acesso à cidade, tornando obsoletos os sistemas de controle tradicionais, que agora passaram para as mãos dos indivíduos.

Em certo sentido, este é um dos desafios da cartografia crítica, superar a dimensão espacial e física para mapear a dimensão temporal e discursiva, abrindo a porta à possibilidade de “caminhar com segurança”, como referia Orlando Ribeiro, no mundo físico e no mundo digital, com consciência crítica e autonomia.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Abrams, Janet; Hall, Peter (2006), Else/where: Mapping New Cartographies of Networks and Territories. University of Minnesota Design Institute.
Duxbury, Nancy; Garrett-Petts, W. F.; MacLennan, David (2015), Cultural Mapping as Cultural Inquiry. New York: Routledge, [1.ª ed.].
Latour, Bruno (1987), Science in action: how to follow scientists and engineers through society. Cambridge, Massachussets: Harvard University Press.
Ribeiro, Orlando (1987), Introdução ao estudo da geografia regional. Lisboa: João Sá da Costa, [1.ª ed.].

 

Gonçalo Canto Moniz é investigador do Centro de Estudos Sociais, núcleo Cidades, Culturas e Arquitectura. É arquitecto e professor auxiliar do Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.

 

Como citar

Moniz, Gonçalo Canto (2019), "Cartografia", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24659&id_lingua=1. ISBN: 978-989-8847-08-9