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The dominant contemporary definition of human rights describes human rights as “rights inherent to all human beings, regardless of race, sex, nationality, ethnicity, language, religion,(...)
Jessica Morris

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Classe

Jonas Van Vossole
Publicado em 2019-04-01

Classe na ciência
O conceito de Classe é habitualmente definido pela sociologia dominante como um conjunto de pessoas que formam uma escala hierárquica socioeconómica da sociedade. A classe serve assim como categoria descritiva de estratificação social. Dentro desta existem basicamente duas abordagens: uma baseada na distribuição de renda e riqueza social que descreve classes sociais em escalas como classe alta, média e baixa; outra baseada na atividade profissional que as descreve em categorias como operário, funcionário, executivo, etc. (Giddens, 1973)


Estas abordagens diferem da utilizada por Karl Marx – que servirá como uma categoria importante para o pensamento sociológico crítico. Na Miséria da filosofia, Marx (1913) descreve a existência de classe a partir de duas aparências ou fases: A classe em si e a classe para si. Classe em si é determinada pelas condições materiais, pelo seu papel na divisão social do trabalho. Esta depende do desenvolvimento histórico dos meios de produção e das normas de propriedade. A classe para si, é a consciência política dessa situação material e, com isso, – para as classes subalternas - a possibilidade para a sua transformação e a emancipação social. A classe para si é um conceito de luta, de articulação e identidade/subjetividade política necessário para acabar com a própria natureza objetiva da classe, ou seja, a exploração estrutural.


O trabalho, como classe, surge como categoria negativa do capitalismo. A sua exploração salarial – a base de existência da classe trabalhadora - é a base material da reprodução do capitalismo. Como ela nasce e se fortalece com o capitalismo. Marx considera a classe trabalhadora como classe universal, porque a sua condição de libertação é “a abolição de todas as classes, do mesmo modo como a condição de libertação do Terceiro-Estado, da ordem burguesa, foi a abolição de todos os estados e de todas as ordens." (Marx, 1913). Assim a classe trabalhadora demonstra a própria historicidade das leis do capitalismo.

 

Classe como ciência
A partir desse universalismo proletário e a sua tarefa histórica revolucionária, é desenvolvida a "perspetiva de classe" como ciência (Lowy, 1978). Sendo a ciência, segundo Marx, sempre uma ciência de classe, a perspetiva de classe tem o papel de uma ciência política e revolucionária. A sua cientificidade e legitimidade deriva da sua própria ambição na luta política: "À medida que a história marcha e que com ela a luta do proletariado se desenha mais nitidamente, eles (os teóricos utópicos) não têm mais necessidade de procurar a ciência no seu espírito, não têm senão de se inteirar daquilo que se passa diante de seus olhos e de se tornar o órgão disso. Enquanto procuram a ciência e apenas fazem sistemas, enquanto estão no começo da luta, não veem na miséria senão a miséria, sem ver nela o lado revolucionário, subversivo, que derrubará a velha sociedade. Desde este momento, a ciência produzida pelo movimento histórico, e nele se associando com pleno conhecimento de causa, cessa de ser doutrinária, e se torna revolucionária." (Marx, 1913). Esta abordagem classista inspirará a posteriori grande parte da teoria crítica, ou seja, "classe" tem um papel histórico fundamental na conceção duma ideia do conhecimento da e para a luta.

                            
O conceito de classe de Marx foi criticado e alterado em várias formas e contextos. No final do século XIX, a primeira grande crítica, foi de Eduard Bernstein (1911): a classe trabalhadora tinha-se incorporado na sociedade capitalista e tinha perdido seu papel revolucionário. Isto implicava que o marxismo perdia o seu papel científico – baseado na universalidade da perspetiva de classe. Sem programa político, o conhecimento de classe seria um entre muitos. No final da guerra fria, esta crítica foi reforçada pela desindustrialização no Norte Global e o consequente enfraquecimento do operariado clássico.


A segunda crítica - dos movimentos feministas e anticoloniais - foi que o conceito da universalidade de classe invisibilizaria várias outras formas endémicas de opressão do sistema capitalista, embora noções de colonialismo e patriarcado apareçam como categorias importantes na análise da reprodução do capitalismo nas obras de Marx e Engels. Com a perda da sua universalidade emancipatória, as lutas “identitárias” ganharam proeminência nos movimentos sociais. Neste contexto surgiu o conceito de interseccionalidade para descrever a correlação entre as várias formas de exploração estrutural.


A profunda crise do Capitalismo de 2008 voltou a trazer para primeiro plano o conceito de classe. Surgiu na ideia dos 99% nos movimentos Occupy Wall-street e nos protestos contra a austeridade Europeia. Também na academia uma reapropriação ressurgiu como elemento essencial para a crítica da reapropriação hegemónica dos conceitos de interseccionalidade e de identidades.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Bernstein, Eduard (1911), Evolutionary Socialism: A Criticism and Affirmation. New York: Huebsch.
Giddens, Anthony (1973), The Class Structure of the Advanced Societies. London: Hutchinson.
Lowy, Michael (1978), “Objetividade e Ponto de Vista de Classe Nas Ciências Sociais”, in Método Dialético e Teoria Política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 9-35.
Marx, Karl; Proudhon, Pierre-Joseph; Engels, Friedrich; Quelch, Harry (1913), The Poverty of Philosophy (a Reply to "La Philosophie de La Misère" of M. Proudhon). Chicago: C.H. Kerr & Company.

 

Jonas Van Vossole é doutorando em Democracia do Século XXI no Centro de Estudos Sociais em Coimbra. É Mestre em Ciência Politica e em Economia pela Universidade de Ghent (Bélgica). É investigador da Associação de Estudos sobre Partidos e Representatividade de Ghent.

 

Como citar

Vossole, Jonas Van (2019), "Classe", Dicionário Alice. Consultado a 11.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24661&id_lingua=2. ISBN: 978-989-8847-08-9