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A racionalidade moderna ocidental foi descrita por Boaventura de Sousa Santos como uma razão indolente que se apresenta, dentre outras formas, como uma razão metonímica (Santos,(...)
Luciana Jacob

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A racionalidade moderna ocidental foi descrita por Boaventura de Sousa Santos como uma razão indolente que se apresenta, dentre outras formas, como uma razão metonímica (Santos,(...)
Luciana Jacob

 

 

Produção

Hugo Dias
Publicado em 2019-04-15

Imbuídos pelo Espírito das Luzes, Jean d´Alembert e Denis Diderot, editaram, entre 1751 e 1772, a Enciclopédia, ou dicionário racional das ciências, artes e profissões. O projeto desta obra era o de difundir o novo conhecimento resultante do nascente compromisso com a capacidade humana de, por via da Razão, e prescindindo de princípios explicativos baseados em dogmas teológicos, poder conhecer o mundo natural mas também o mundo dos homens. A obra organizava o conhecimento humano, seguindo a classificação de Francis Bacon na obra O progresso do conhecimento, datada de 1605, em três ramos principais: História (memória), Filosofia (Razão) e Poesia (Imaginação).


De acordo com a organização das estruturas de conhecimento prevalecente na época, o estudo dos usos da natureza - artes, ofícios e manufacturas – faziam parte do campo da história ou da memória. Por outro lado, é na Filosofia, cada vez mais autonomizada da Teologia, onde se desenvolvem os esforços sistemáticos de produção de conhecimento, divididos entre as ciências naturais e as ciências do homem. Dentro destas últimas, a “Filosofia Moral”, definida enquanto a “ciência do bem e do mal em geral, dos deveres, da virtude, da necessidade de ser virtuoso”, abarca ainda a economia e a política, que se dedicam ao estudo do comércio interno e externo, terrestre e marítimo.


Não será portanto por acaso que, no mesmo ano em que a Enciclopédia começa a ser publicada, Adam Smith tenha assumido, na Universidade de Glasgow, a cátedra de Filosofia Moral. A Economia Política, enquanto área de conhecimento específica, com um objeto de estudo claro e delimitado, só surgirá com a publicação, em 1776, de Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações.


De onde é proveniente a riqueza? Como é produzido o valor? Estes temas tornar-se-ão crescentemente centrais na reflexão de diferentes autores e doutrinas económicas. Enquanto que os Mercantilistas associam a “riqueza nacional” à acumulação de metais preciosos, através da atividade mercantil e da geração de saldos comerciais positivos; para outros, a riqueza necessita de ser fabricada e não resulta de um mero processo de intermediação comercial. William Petty, no seu Tratado Sobre Impostos e Contribuições de 1662, dirá que “(...) o trabalho é pai e princípio ativo da riqueza, da mesma forma que as terras são a sua mãe”. Posteriormente os Fisiocratas, como Quesnay, afirmarão que é a terra a única fonte de riqueza – ou fator de produção – enquanto que a economia clássica – e a crítica de Marx - tornará o trabalho na única fonte de valor ou mais-valia.


A partir deste momento a Escola Clássica da Economia Política colocará a Produção – termo com origem no latim productĭo, que significa “fazer aparecer”, criar, fabricar – no centro da reflexão económica. O Modo de Produção Capitalista estabelecerá um novo conjunto de relações de produção – propriedade privada dos meios de produção e trabalho livre assalariado - e permitirá um salto quantitativo no desenvolvimento das forças produtivas. Na empresa capitalista ocorrerá o processo produtivo, uma combinação de fatores de produção, em particular de trabalho, num processo técnico que permitirá transformar um determinado objeto, num outro objeto, agregando-lhe valor.


O predomínio da racionalidade da modernidade ocidental no campo económico engendrou uma forma específica de monocultura – dos critérios de produtividade capitalista – assente na lógica produtivista. A ciência, enquanto expressão máxima da racionalidade cognitivo-instrumental, converte-se numa força produtiva poderosa vinculada ao mercado e em função da acumulação capitalista (Santos, 1994). A crença nos livres mercados e no crescimento ilimitado da produção tornar-se-á no critério único de medida da riqueza de uma nação e do bem-estar das suas populações. Esta submeteu trabalho e terra – duas das mercadorias fictícias Polanyanas – aos imperativos de acumulação de capital, classificando formas alternativas de produção que privilegiam o valor de uso em relação ao valor de troca enquanto improdutivas.


A monocultura da produtividade capitalista, concentrada mais com a produção do que com a distribuição, produzirá também outros processos de subalternização e de invisibilização. Por um lado, do trabalho reprodutivo, predominantemente exercido por mulheres, ao qual não será atribuído qualquer valor económico. Por outro, à própria natureza finita dos recursos ambientais que coloca entraves à lógica do crescimento ilimitado. O desvelar de algumas destas formas de invisibilização obriga naturalmente a reequacionar as formas hegemónicas como as sociedades contemporâneas têm concebido, mensurado e organizado a produção e a distribuição de riqueza e à procura de novos caminhos para o desenvolvimento económico e social.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Hunt, E. K.; Lautzenheiser, Mark (2013), História do Pensamento Econômico – Uma perspectiva crítica. Rio de Janeiro: Elsevier.
Santos, Boaventura de Sousa (1994), Pela Mão de Alice – O Social e o Político na Pós-modernidade. Porto: Edições Afrontamento.
Santos, Boaventura de Sousa (2002), “Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências”, Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, 237-280.

 

Hugo Dias é doutorado em Sociologia pela Universidade de Coimbra e Professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Brasil). É investigador do Centro de Estudos Sociais - Núcleo de Estudos sobre Políticas Sociais, Trabalho e Desigualdades - e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas.

 

Como citar

Dias, Hugo (2019), "Produção", Dicionário Alice. Consultado a 06.12.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24837&id_lingua=2. ISBN: 978-989-8847-08-9