Brasil: Quem tem medo da Economia Solidária?

Os movimentos sociais ligados a economia solidária não conseguem mais disfarçar a preocupação com a possibilidade de um esvaziamento da Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes) e o consequente afastamento do cargo de seu titular, o economista e sociólogo Paul Singer.

Marco Zero
Joel dos Santos Guimarães
08 Jul 2015

Considerado o pai da economia solidária brasileira, cujo modelo foi adotado por vários países da América Latina e África, Singer e a Senaes estão na mira do “fogo amigo” de partidos conservadores, que fazem parte da chamada base de apoio da presidente Dilma Roussef no Congresso Nacional. Eles desejam e trabalham para convencer o Planalto colocar a Senaes sob o guarda-chuva do ministério de Guilherme Afif Domingos, a Secretaria da Micro e Pequena Empresa da Presidência da República (SMPE).

Com isso, os partidos conservadores matariam dois coelhos com uma cajadada só. Com a SENAES no ministério comandado por Afif , os movimentos sociais perderiam a influência que tem hoje, já que Singer sempre defendeu a participação desses movimentos na formação das políticas públicas para a economia solidária.

A manobra contaria com o apoio dos grandes bancos, que nunca esconderam sua irritação com os bancos comunitários e as moedas sociais criados pela economia solidária e que formam hoje o sistema financeiro social.

Em recente entrevista ao Solidare, blog de notícias sobre economia solidária e consumo responsável, Paul Singer disse que “este sistema atua onde os bancos tradicionais não entram, pois ignoram os pobres, os desempregados e os trabalhadores de modo geral”

Os 104 bancos comunitários e suas moedas sociais são a principal ferramenta de fomento e financiamento dos 33.518 empreendimentos solidários urbanos e rurais que atuam em vários setores da economia brasileira.

Desmonte e retrocesso
Ainda que timidamente os movimentos sociais começam a reagir a manobra dos setores conservadores. Em seu site, o Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES) divulgou uma carta, datada de 25 de junho último, que enviou ao ministro do Trabalho, Manoel Dias.

O FBES está organizado em todo o país em mais de 160 Fóruns Municipais, Microrregionais e Estaduais, envolvendo diretamente mais de 3.000 empreendimentos de economia solidária, 500 entidades de assessoria, 12 governos estaduais e 200 municípios pela Rede de Gestores em Economia Solidária.

Na carta ao ministro, o FBES alerta que “um desmanche do quadro da Senaes, significaria um desmonte de toda estratégia política que foi construída pelo movimento de economia solidaria brasileiro e que a III Conferência Nacional de Economia Solidária reafirmou.” No documento, a entidade pede ao ministro que se posicione com relação a um possível desmanche da secretaria comandada por Paul Singer.

Também em carta enviada à presidente Dilma e seus ministros o Instituto Kairós, sediado em São Paulo, e integrante do movimento de economia solidária e consumo responsável, pede a manutenção da Senaes, da forma como está estruturada com seus quadros e direção: “A SENAES vem há 12 anos contribuindo com o combate à pobreza do país por meio de uma política pública focada na população de baixa renda de modo a desenvolver seu potencial de geração de renda por meio da organização do trabalho coletivo. Com esta ação também conseguimos criar alternativas às populações mais excluídas, contribuindo tanto com o fim do genocídio da juventude negra e pobre quanto com a emancipação da mulher, possibilitando condições reais de superar a violência de gênero”.

Segundo o Kairós, a economia solidária deve ser entendida como estratégia de enfrentamento da exclusão social e da precarização do trabalho, sustentada em formas coletivas, justas e solidárias de geração de trabalho e renda,”

Diante deste quadro, o Kairós pede a manutenção e a ampliação desta política pública executada pela SENAES, em parceira com o movimento popular de economia solidaria e liderado pelo reconhecido Paul Singer, como direito político e social que nós, cidadãos deste país, temos”!

No exterior
A mudança de rumos e objetivos da SENAES com a transferência para a SMPE tem repercutido negativamente no exterior.

O diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, em carta aberta às autoridades brasileiras afirma que a “a política pública brasileira de economia solidária não é uma mera concessão mas sobretudo uma conquista do movimento”

Considerado uma referência mundial em economia solidária, o intelectual português entende que uma possível saída de Paul Singer e equipe, “comprometeria a estratégia política e relação Estado e sociedade que vem se construindo ao longo das quatro últimas gestões governamentais do Brasil”

Souza Santos lembra que Paul Singer é um político, um intelectual e um militante respeitado tanto no campo político como no campo acadêmico nacional e internacional. “Trata-se de um homem que lutou pelas conquistas democráticas do Brasil e, espero profundamente, que ele possa continuar contribuindo, desde o Estado, para a legitimidade de outras economias possíveis”, disse
Conquistas

Nos últimos anos, no Brasil, a economia solidária vem se firmando como uma inovadora alternativa de geração de trabalho e renda e de inclusão social.

Ela compreende uma diversidade de práticas econômicas e sociais organizadas sob a forma de cooperativas, associações, clubes de troca, empresas de autogestão, redes de cooperação, entre outras, que realizam atividades de produção de bens, prestação de serviços, finanças solidárias, trocas, comércio justo e consumo solidário.

Os bancos comunitários e suas moedas sociais fizeram surgir no País um Sistema Financeiro Social. Este sistema ocupa um espaço normalmente desprezado pelos bancos tradicionais, ou seja, a prestação de serviços para os mais pobres.

Essas práticas se tornaram uma saída para os pequenos empreendimentos coletivos, resultando em geração de renda para 2,3 milhões de pessoas e movimentando anualmente cerca de R$ 12 bilhões.
A economia solidária brasileira é a mais diversificada do mundo, atuando em setores como artesanato, confecções, alimentos, reciclagem e tratamento de resíduos, atividades financeiras, produção florestal, pesca, e, principalmente, agricultura familiar. Seu modelo – que é praticamente a aplicação do cooperativismo – já foi adotado por países da América Latina, Caribe e África.

Related posts:

  1. Carta aberta de Boaventura de Sousa Santos às autoridades brasileiras sobre a manutenção da política pública de economia solidária
  2. 2º Fórum Social de Economia Solidária
  3. Quem são os proprietários do Brasil?
  4. Grécia: Afinal, quem é que votou OXI (NÃO)?
  5. ‘Combinar economía con ecología, cultura con democracia, política con tecnología’
Submit your comment

Please enter your name

Your name is required

Please enter a valid email address

An email address is required

Please enter your message

Designed by WPSHOWER

Powered by WordPress

CES UC CES SFP
Site developed with
Software Open Source

Creative Commons License