Alice-ES

O Programa de Investigação Alice – epistemologias do Sul (alice-ES) partiu do trabalho colectivo desenvolvido no âmbito dos projetos Reinvenção da Emancipação Social (1999-2001) e ALICE, Espelhos Estranhos, Lições imprevistas: Definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do Mundo (2011-2016) no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Estes desafiantes projetos criaram condições para riquíssimas trocas entre investigadores/as e ativistas de todas as regiões do mundo, propiciando diálogos que em muito têm contribuído para a construção das epistemologias do Sul. 

As epistemologias do Sul referem-se à produção e validação de conhecimentos ancorados nas experiências de resistência dos grupos sociais que têm sido sistematicamente vítimas da injustiça, opressão e destruição causadas pelo capitalismo, pelo colonialismo e pelo heteropatriarcado. Embora o “Sul” invoque a geografia e a cartografia, no sentido que lhe atribuímos é uma metáfora do sofrimento humano injusto e um espaço plural de criatividade epistemológica intimamente ligada aos conhecimentos forjados nas resistências e nas lutas. Nessa perspetiva, a ideia de aprender com o Sul convoca-nos a reconhecer a inesgotável experiência do mundo como forma de superar a exaustão intelectual e política do Norte global e de superar a colonização da esperança pelo medo.

O preconceito colonial, assente em séculos de genocídio e epistemicídio, constitui a chave para compreendermos a dificuldade que o mundo eurocêntrico tem em aprender com o mundo, isto é, em reconhecer histórias, práticas, saberes e soluções para além da história e das teorias, alegadamente universais, produzidas pelo pensamento que nele é dominante. Importa assim confrontar as “linhas abissais da modernidade” considerando que pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal profundamente marcado pela criação de dois universos distintos: o universo “deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”. De entre os procedimentos das epistemologias do Sul que nos instam a ampliar o presente e a contrair o futuro, definimos como fundamentais para pensamento pós-abissal a “ecologia dos saberes”, a “sociologia das ausências”, a “sociologias das emergências, a “tradução intercultural” e a “artesania das práticas”.

O Programa de Investigação alice-ES reúne o trabalho de investigadores/as e ativistas de diferentes gerações investidos/as em valorizar os conhecimentos nascidos nas lutas sociais. O trabalho desenvolvido é articulado por uma equipa de coordenação e por um amplo número de investigadores/as associados/as investidos na diversificação e desmonumentalização do saber académico e na educação popular transformadora. Num processo que temos designado “contruir as epistemologias do Sul” procuramos coletivamente ampliar um conhecimento-emancipação apostado superar as incomunicabilidades entre a universidade e as lutas sociais, entre o trabalho académico e as artes, contrapondo a vasta experiência do mundo aos modos estreitos de pensar a mundo a partir das “epistemologias do Norte”. Essa aspiração concretiza-se em publicações, opiniões, seminários, plataforma de informação alternativa, oficinas da Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS), escolas de verão e inverno, concertos, filmes, dicionário, mestres/as do mundo, conversas do mundo ou na Universidade Popular Empenho e Arte (UPEA). Através do Programa de Investigação alice-ES, procuramos mobilizar e reunir aqueles e aquelas que, de diferentes formas, não desistem de lutar pela justiça cognitiva global enquanto condição da justiça social global.