Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Weekly Highlight

Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

Weekly Highlight

Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

 

 

Agrotóxicos

Marcelo Firpo de Souza Porto, Fernando Ferreira Carneiro
Publicado em 2019-04-02

Os agrotóxicos são substâncias químicas utilizadas no controle de pragas (animais e vegetais) e doenças de plantas. São utilizados nas florestas nativas e plantadas, nos ambientes hídricos, urbanos e industriais e, em larga escala, na agricultura e nas pastagens para a pecuária, sendo também empregados nas campanhas sanitárias para o combate a vetores de doenças.


Essa denominação, em vez de pesticidas ou outras, é fruto de uma ampla luta social travada inicialmente no Brasil para a defesa da saúde pública, do meio ambiente e da agricultura familiar. Os agroquímicos (agrotóxicos mais os fertilizantes e adubos inorgânicos) fazem parte do tripé tecnológico da agricultura industrial capitalista (ou agronegócio) desenvolvida no século XX, junto com a mecanização e as sementes transgênicas. A denominação pesticida (pesticide em inglês), mantida pelo forte lobby da indústria química internacional, reforça o caráter positivo do termo (pesticida, produto que mata – somente – as pestes) e cai como uma luva ao ratificar seus interesses através da consolidação de tais produtos como insumos indispensáveis (segundo profissionais ligados a esses setores produtivos) ao processo de produção rural. Na literatura de língua espanhola, tais produtos são tratados por “praguicidas” (plaguicidas), com clara associação à denominação de pesticidas.


Portanto, o próprio nome expressa uma disputa com as abordagens “técnicas” que defendem o agronegócio (Peres et at 2003).  Os saberes e a luta de camponeses, tal como a dos indígenas e quilombolas, é sistematicamente invisibilizada e considerada uma expressão do “atraso” científico e civilizatório pela modernidade eurocêntrica e pelo pensamento abissal. Os agrotóxicos podem ser analisados tanto do ponto de vista da sociologia das ausências, como pelas emergências apresentadas pela construção da agricultura camponesa agroecológica e de novos mercados pautados pela soberania alimentar e a economia solidária.


Os agrotóxicos representam um dos elos com a crise socioecológica mais ampla em sua relação com o modelo de desenvolvimento dos países neoextrativistas do Sul Global exportadores de commodities agrícolas e metálicas. Como explica o brasileiro Guilherme Delgado, o apoio ao agronegócio (e também à mineração e siderurgia) foi fundamental para o saldo positivo da balança comercial desde a virada do século em vários países da América Latina, em boa parte graças ao chamado “efeito China” que sustentou os preços das commodities. Com isso, vários países latino-americanos reduziram suas dívidas externas e os mais progressistas ampliaram políticas sociais redistributivas. Segundo Delgado, embora conjunturalmente compensatória, a especialização primária das exportações é uma perigosa armadilha: não resolve a dependência externa e ainda agrava a situação deficitária de outros setores com potencial para serem mais justos e sustentáveis. No caso do agronegócio, monocultivos de exportação como a soja explicam a dependência química, inevitável em sistemas ecológicos homogêneos que concentram a produção mundial de alimentos a poucas espécies vegetais e animais, com mercados longos que distanciam e alienam os consumidores. A agricultura industrial trava uma guerra contra a natureza, e a biodiversidade vira uma praga a ser destruída. Não é casual que os primeiros agrotóxicos tenham origem na I Guerra Mundial, e posteriormente tais “inovações” transformaram-se num dos pilares da “Revolução Verde” que prometia acabar com a fome no mundo (Porto, 2018).


Os coletivos e movimentos sociais que participam das resistências e alternativas são principalmente os camponeses, agricultores familiares, indígenas, quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais, dentre outros, além do forte destaque do feminismo em sua luta contra o patriarcado. Nas cidades há também movimentos de consumo consciente, alimentação saudável, agricultura urbana e feiras agroecológicas (Porto, 2018). Existem vários movimentos internacionais contra os agrotóxicos, embora nem todos possam ser considerados lutas sociais anti-capitalistas. O Brasil tornou-se em 2008 o maior consumidor mundial de agrotóxicos. Um marco na luta contra o agronegócio e os agrotóxicos, articulado aos movimentos sociais camponeses, foi a criação em 2011 da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida. Dentre seus objetivos destacam-se a visibilização dos efeitos à saúde (doenças e mortes por intoxicações agudas e câncer, dentre outros), o banimento dos agrotóxicos proibidos em outros países e o apoio à agricultura camponesa e agroecológica. As conquistas têm sido limitadas, com inúmeros retrocessos recentes, diante do poderio econômico do agronegócio e da bancada ruralista no Congresso Federal (Carneiro et al 2015).


A dependência química do agronegócio gera um alto custo, não apenas pela compra de agrotóxicos e transgênicos. Afinal, quem paga pelas doenças e mortes da contaminação? Ou pela degradação ambiental e perda da biodiversidade? A triste resposta, expressa na valorizada linguagem dos números, encontra-se no que os economistas chamam de externalidades ambientais negativas, ou seja, os custos pagos pela sociedade como um todo e pelos grupos sociais mais atingidos, e não por aqueles que se beneficiam mais diretamente daquelas transações comerciais (Porto, 2018).

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Carneiro, F.F.; Rigotto R.M.; Augusto L.G.S.; Friedrich, K.; Búrigo, A.C.  (2015), Dossiê ABRASCO: um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, Fundação Oswaldo Cruz/São Paulo: Expressão Popular.

Peres, F.; Moreira, J.C.; Dubois, G.S. (2003), “Agrotóxicos, saúde e ambiente: uma introdução ao tema”. In Peres, F.; Moreira, J.C. (orgs.) É veneno ou é remédio?: agrotóxicos, saúde e ambiente. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, p. 21-41.

Porto, M.F.S. (2018), “O trágico Pacote do Veneno: lições para a sociedade e a Saúde Coletiva”, Cad. Saúde Pública, Vol. 34(7), e00110118. http://dx.doi.org/10.1590/0102-311x00110118.

 


Fernando Ferreira Carneiro é biólogo, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz do Ceará, pós Doutor em Sociologia pelo Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador do Observatório sobre Saúde do Campo, da Floresta e das Águas -Teia de Ecologia de Saberes.



Marcelo Firpo de Souza Porto é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz, Coordenador do Núcleo Ecologias, Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde – NEEPES da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, e investigador associado do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

 

 

Como citar

Porto, Marcelo Firpo de Souza; Carneiro, Fernando Ferreira (2019), "Agrotóxicos", Dicionário Alice. Consultado a 13.08.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=2&entry=24443. ISBN: 978-989-8847-08-9