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Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

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Reciprocidade

Tiago Miguel Knob
Publicado em 2019-04-01

A reciprocidade exige o reconhecimento de si, da Outra e do Outro. O conhecimento e o reconhecimento do real, da realidade; das violências e opressões; das injustiças e das potências; das possibilidades; das necessidades; dos quereres e desejos; da construção de justiça material, do respeito e da valoração da identidade cultural e da possibilidade do seu desenvolvimento; do ambientalmente ético, sobrevivência ecológica. Exige dar e receber, com pretensão de justiça, enquanto lutamos pelo que nos é correspondente e até então nos foi negado.


A reciprocidade é um ato de construção de justiça entre as partes e com o mundo. Exige caminhar para a sustentabilidade, para uma sustentabilidade forte e crítica que envolve a busca por fundamentos comuns entre as partes capazes de fortalecer os povos para superar os desafios pelos quais passam e pelos quais passa a humanidade. No Sul do mundo, em seus distintos cantos, exige conscientemente lutar pelo que é nosso e nos foi arrancado, das nossas formas e modos de ser e nos é impedido. Exige construir democracia. Exige criatividade cultural, econômica, política, epistêmica; exige a construção de conhecimentos nascidos do esforço de encontrar formas de possibilidades de vida diante de um real que produz, desenvolve e reproduz injustiças e perversidades. A reciprocidade exige encontrar, no real, aquilo que dá à vida o que cabe eticamente a ela.


Exige o reconhecimento mútuo entre saberes. Exige diálogos horizontais, a tradução entre os saberes para a valorização dessas outras formas de produção de conhecimentos em função do desenvolvimento local, comunitário, humano. Exige o desenvolvimento qualitativo das lutas e resistências sociais. É porque são estes os espaços-tempos plurais que trabalham pela construção de novas realidades em busca de melhorar as condições de vida e que se traduz, nesse processo, na construção de novos marcos epistemológicos capazes de se converter numa crítica profunda à ciência moderna, às instituições, às políticas e ao modelo econômico hegemônicos cujas bases estão ancoradas em categorias monolíticas e em formas autorreferentes de conhecimento e de governação, que tem sido a matriz da geração de invisibilidades e da ausência da expressão da diversidade. É um processo de construção de justiça cognitiva, um fundamento para a construção de justiça social no seio da uma relação histórica de produção de sub-humanidades que é o oposto do que podemos compreender como reciprocidade, e o que exige, portanto, e para tanto, a luta pelo fortalecimento da dignidade humana que é para sustentar o caminhar permanente por construção de justiça. Exige reparação.


Exige o reconhecimento mútuo entre sujeitas e sujeitos; entre povos. O reconhecimento da dignidade própria de cada uma e de cada um e do mundo; da vontade de vida e de viver - fundamento humano -, de querer e de fazer, de poder fazer; do ethos criador e próprio de cada ser humano e vivente, de cada cultura, de cada sujeita ética, de cada sujeito ético, autônoma e autônomo - um ser para si, para as outras e para os outros -, construtora e reconstrutor da própria história e da realidade que a cerca e o cerca. É um dever ser permanente das gentes, o reconhecimento mútuo, outra vez, entre seres humanos para a construção comum, recíproca, de uma vida que faça sentido ser vivida em um mundo que faça sentido estarmos nele.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Meneses, Maria Paula (2014), “Diálogos de saberes, debates de poderes: possibilidades metodológicas para ampliar diálogos no Sul global”, in Reinaldo Matias Fleuri (org.), Em Aberto. Brasília, v. 27, n. 91, jan./jun. 90-110.
Santos, Boaventura de Sousa; Meneses, Maria Paula (orgs.) (2009), Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina.
Knob, Tiago Miguel (2018), A Vida Delas e Deles, a Nossa, na Cidade do Anjo: uma utopia crítica pós-colonial das gentes do cotidiano. Tese de doutoramento desenvolvida no Programa Pós-colonialismos e cidadania global do Centro de Estudos Socias da Universidade de Coimbra, apresentada à Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra.

 

Tiago Miguel Knob é membro do Conselho Executivo do Observatório Popular Cidade do Anjo. É Doutor pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra no Programa Pós-colonialismos e cidadania global e Mestre em Pensamento Latino-americano pena Universidade de São Paulo (USP). Colabora com a Universidade Popular Empenho e Arte (UPEA) e é tutor na Universidade Sul Sul no curso internacional e especialização em Epistemologias do Sul organizados pela CLACSO e pelo CES.

 

Como citar

Knob, Tiago Miguel (2019), "Reciprocidade", Dicionário Alice. Consultado a 13.08.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=2&entry=24512. ISBN: 978-989-8847-08-9