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Judite Mutote

Isabel Maria Casimiro
Publicado em 2020-06-01

Karingana Wa Karingana, Judite Mutote (1)

 

“Não basta que seja pura e justa a nossa causa
É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós”.
Jorge Rebelo2

 

Era uma vez um coração solidário, corajoso e desafiador, forjado e temperado pela vida pessoal e familiar, fundador da Associação Hixikanwé - Estamos Juntas,3 constituída maioritariamente por mulheres seropositivas. Uma mulher que combina uma ecologia de saberes, diversas formas de conhecimento da matéria, sociedade, vida e espírito, como também muitos e diversos conceitos sobre o que conta como conhecimento e os critérios que podem ser usados para validá-lo4 praticando no quotidiano uma sociologia das emergência5, costurando esperanças e fazendo florir pessoas consideradas ausentes e invisíveis, a quem foi retirado o direito à convivência humana, dignidade e bem-estar.


Meu nome é Judite de Jesus Mutote, sou natural daqui de Maputo, e fundei esta associação porque em 2006 eu perdi minha filha, perdi meu genro, perdi minha neta, perdi a minha irmã, todos no mesmo mês, e outra minha irmã foi violada também e contraiu o vírus. Então esses todos morreram no mesmo mês em Dezembro, até dia 17, 18, até dia 26 estavam a morrer todos, e viviam na África do Sul na mesma casa. Foram-se contraindo, cada vez que vinha um ao funeral do outro, então morreram. Então foi quando decidi. Não foi aquilo de acordar e dizer vou criar uma associação, não, foi devido a esse sofrimento todo. Passei a dedicar-me a ajudar as pessoas. A associação começou em minha casa, onde da minha casa saíram 540 pessoas, que eu depois dei a minha casa para fazerem testes. Porque eu ia ao hospital, levava muito tempo no hospital. Então falei com os Médicos Sem Fronteiras para passarem a vir a minha casa fazer os testes. É dali onde a associação cresceu. E eu nem sabia que havia estatutos. Então uma das pessoas dos Médicos Sem Fronteiras perguntou-me, afinal isto aqui o que é, uma igreja, o que é? Eu disse, não, eu só estou a ajudar as pessoas porque aquilo que eu passei não queria que passasse para as outras pessoas. Então a pessoa me aconselhou: tens de criar estatutos. E eu até perguntei, o que é estatutos? É um documento que te legaliza, tens que ir ao secretário do bairro, tens que ir ao ponto focal. Então comecei a fazer essas coisas, pouco a pouco e eu nem tinha experiência do que é o HIV, fui ganhando a experiência lá, fui ganhando a experiência com as pessoas. E hoje em dia estão aqui milhares e milhares, ganhar auto-estima. E nós temos casamentos colectivos. Agora a 1 de Dezembro vamos mais ou menos oficializar 10 pessoas vivendo com HIV que se conheceram aqui. Porque esta associação, além das pessoas serem membros, tem pessoas que vêm das outras organizações, são pessoas vivendo com HIV que vêm procurar esposas aqui também vivendo com HIV. Então foi assim que eu criei essa associação que hoje é uma associação com milhares e milhares de pessoas. Acima de 1.800, sim, porque o que está a acontecer, diariamente entram outras pessoas. É que as pessoas morrem, ainda ontem perdemos mais duas pessoas. Então há meses em que são 7, 8 pessoas que estão a aparecer … então diariamente entram pessoas que a gente recebe. Mas nem sempre nós temos essas percas. Muitas pessoas aqui ganham auto-estima, às vezes outras pessoas que tomavam Cotrimoxazol, param, vivem positivamente. Mas para poder escrever melhor é arranjar um dia nas terças-feiras às 14 horas6, enquanto estivermos aqui porque a gente não sabe o que nos espera7.


Soube das suas actividades quando, em 2012, preparava uma pesquisa sobre “Acesso aos Serviços de Saúde de Referência para HIV/Aids no Brasil, África do Sul e Moçambique”. Tínhamos como parceira a associação Fórum Mulher, uma rede de várias organizações que lutam pelos direitos humanos das mulheres e, num encontro com Maira Domingos, do Programa de Direitos Sexuais e Reprodutivos e membro da equipa de pesquisa, soube da existência duma associação de mulheres seropositivas, Hixikanwé, e da sua fundadora e líder, Judite de Jesus Mutote.


Encontrámo-nos mais tarde na primeira Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS), em Moçambique, em Mumemo, província de Maputo, nos dias 25-27 de Julho de 2013, onde se juntaram activistas e lideranças dos movimentos sociais, membros de organizações não-governamentais, bem como académicas/os, intelectuais e artistas solidárias/os com as lutas dos movimentos e organizações empenhados na transformação social emancipatória. Neste espaço de encontro e intercâmbio de saberes e experiências8 falámos das suas vivências como fundadora e líder da associação Hixikanwé, da sua vontade de conhecer o ser humano para que não tenha de passar o que ela passou.


A Associação surgiu em 2006 e a sua oficialização ocorreu em Dezembro de 2008. A designação da associação foi consensual, as suas acções e o bem-querer humano espelham a filosofia Africana uBuntu, que se refere à própria essência do ser humano, a sua generosidade, hospitalidade, compaixão, amizade, atenção, partilha do que se tem, porque a nossa humanidade está presa e emaranhada na humanidade das outras pessoas. De acordo com esta filosofia, “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. A qualidade do uBuntu dá às pessoas a resiliência que lhes permite sobreviver e emergir humanas, apesar de todos os esforços para desumanizá-las9.

 

Com o desenvolvimento das actividades e a aproximação de um número cada vez maior de pacientes que se sentiam aconchegados pela Hixikanwé, a continuidade das suas acções revelou-se problemática, devido ao número de pessoas que participavam nas sessões de terça-feira, conhecida como cerimónia da Panela. Felizmente não foi necessário fechar as portas e a associação conseguiu um outro local para realizar as suas actividades, no bairro de Malhazine.10


Em 2006 pouco se sabia desta doença e das possibilidades e mecanismos de acesso ao tratamento, ainda que o primeiro caso de SIDA tenha sido reportado em 1986. Moçambique foi um dos primeiros países no continente africano a criar, nesse ano, uma entidade responsável pela coordenação da resposta nacional contra a epidemia, a Comissão Nacional do SIDA, no Ministério da Saúde, nos moldes propostos pela Organização Mundial de Saúde. Devido ao estigma e discriminação, escondiam-se as/os pacientes ou as famílias abandonavam-nas/os à sua sorte e generosidade de outras pessoas.


Os cerca de 1800 membros da associação em 2013 eram oriundos de 23 bairros da cidade de Maputo e de alguns distritos da Província de Maputo, Moamba, Matola-Gare, Marracuene e Manhiça, como também vindos da África do Sul, procurando os serviços da Hixikanwé. Reúne maioritariamente mulheres seropositivas, mães solteiras, viúvas, pessoas portadoras de deficiência, crianças órfãs e vulneráveis, idosos e também alguns homens que se aproximaram através das suas esposas. A Hixikanwé trabalha actualmente com activistas das províncias de Gaza e Inhambane.


De entre as suas actividades encontram-se a prevenção positiva, a busca activa, visitas e cuidados domiciliários e apoio nutricional - procuram saber se as pacientes estão a aderir ao tratamento, se estão a tomar os medicamentos adequadamente, controlam as consultas, o CD4 e o peso, e como activistas, vão lá assistir televisão, vão fazer tranças, cozinham juntas, até que a pessoa fique bem, ganhe auto-estima, sai e são essas mesmas pessoas que depois se formam como activistas, ajudam outras pessoas. Aqui para a pessoa entrar na associação o chamamento é ‘uma chama outra’, ‘uma chama a outra.


Através da prevenção positiva constituíram um grupo de 150 homens vivendo com HIV, criaram uma escola na comunidade com 53 crianças de famílias de baixo rendimento e algumas famílias seropositivas e crianças órfãs. A associação trabalha com o hospital de Bagamoyo, o Hospital José Macamo e de Chamanculo, no distrito de Kamubukwane e no de Chamanculo na província de Maputo, mas também com a AMETRAMO11, articulando uma pluralidade de saberes, formas de conhecer e dignificar o ser humano.

 

Nesta prevenção positiva vamos abranger sete mil e duzentas pessoas só vivendo com HIV. Neste momento estamos a trabalhar com 40 facilitadores que nós chamamos de activistas que fazem sessões duas vezes por semana só com as pessoas seropositivas no grupo de 12 pessoas, por mês trabalham com 24 pessoas. Então essas pessoas depois de assistir às nossas sessões, vêm e se enquadram connosco, ficam como beneficiárias.


A D. Judite aprendeu a trabalhar com ervas e a fazer medicamentos, pomadas, chás, tendo recebido o apoio de Irmãs de Chimoio, na província de Manica, que conhecem e manuseiam ervas, para além da sua aprendizagem através da pesquisa na internet.


Peguei numa planta comecei a ferver para dar aos activistas seropositivos, logo comecei a ver que estavam a se dar bem, CD4 delas começou a subir, elas começaram a cortar. Essa erva até hoje tem muito sucesso aqui. Já comecei a fazer pomada. … Bom aprendi muita coisa, e outras plantas eu fui aprendendo … por exemplo eu trato problema dos pés, fazer massagens com ervas. E comecei também a pesquisar na internet (…) e fui descobrindo muitas ervas que ajudavam no alívio de dor. Fui saber tratar mesmo com cajueiro, mafurra, com tudo aquilo comecei a aprender, todas essas plantas que tenho comecei a aprender, a ver na internet e outras vi, por exemplo, como cura aquela diarreia com sangue, mas tudo não agride no tratamento. Sabes que nós somos Africanos, a primeira coisa que a pessoa que apanha HIV tem, aquela de sobe e desce, logo pensa que é feitiço, vai para o curandeiro, se curandeiro diz vai para o hospital ela vai, mas se o curandeiro diz não vai ao hospital ela nunca vai colocar os pés lá, e quando ele diz, isso que você tem não é SIDA. É daí onde comecei a convidar os médicos tradicionais a trabalharem comigo, tornei a eles grandes activistas … Quando falavam da purificação da viúva, eu já fazia há muito tempo, os próprios médicos tradicionais já fazem purificação da viúva com as próprias ervas sem precisar levar a senhora para hospital eles fazem a partir das ervas já eles lá no gabinete já sabem os sinais quando a pessoa tem tuberculose, já sabem quando a pessoa tem HIV, tratam a parte deles para tranquilizar a pessoa, a saber que esses sinais têm a ver os mesmos encaminham para o hospital.


O Fórum Mulher foi a primeira associação que apoiou a Hixikanwe com a Cesta Básica, em 2012, depois de alguma desesperança com promessas que não foram cumpridas.


Essa cesta básica infelizmente veio muito tarde, porque perdemos muitas pessoas. Mas graças a Deus, só o facto da cesta básica ter começado no ano passado, temos a história de uma senhora que chegou aqui com 300 de CD4 e que agora está com 750, só neste prazo de 3 meses. O Fórum mulher foi uma instituição que veio sobretudo quando eu consegui recuperar mais de oitocentas pessoas por causa da cesta básica, sem falar das formações que a Fórum Mulher deu. A cesta básica, acredita que realizei festas de pessoas portadoras de HIV, aquelas comidas que as pessoas recebiam guardavam um quilo, um quilo, chegou a vez de nós realizarmos os casamentos, a mesma comida que dissemos que queríamos oitocentas pessoas, demos duas mil pessoas. Era uma coisa que muitas diziam, hoje vamos levantar comida e iam, as outras ficavam à espera porque sabiam que aqueles vinham dar alguma coisa. Era uma coisa muito bonita, porque elas pessoalmente é que entregavam.


A Cesta Básica, conseguida através do Fórum Mulher com fundos da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), permitiu melhorar bastante as condições de vida dos membros da Hixikanwé. Pela primeira vez, algumas mulheres entraram num supermercado, descalçando-se à entrada, em sinal de respeito. Uma das mulheres beneficiárias, em vez de levar os produtos previstos, procurou bolos com creme, refrescos, maçã e uvas:

 

O dinheiro dela era muito pouco, era mil meticais. Ela disse: primeiro me dê esse privilégio antes de me dar a comida, maçã e uva porque nunca comi isso. Deixei ela levar, mas dia seguinte tinha que vir à associação, foi dali onde tirei uma pequena cesta básica e lhe dei. Ela nem ficou dois meses, morreu.

 

A Hixikanwé representa um horizonte de emancipação, permitindo que os seus membros, através das acções e narrativas do quotidiano, se reconheçam e sejam reconhecidos como parte da humanidade, sobrevivendo e emergindo humanas, num contexto de discriminação e abandono. A Hixikanwé é um lugar de solidariedade e de convívio, de fuga do estigma e do sofrimento, onde convivem e estão juntas e se respeitam, num sentimento de pertença e de alívio dos tormentos, trabalhando para o bem de todas.


“Foi quando eu comecei a ver que essas pessoas precisam de uma oportunidade, nem que seja para um dia para serem felizes, de tudo isso que eu lhe contei comecei a trocar a minha vida (…) eu acredito que a minha relação com Deus é directa, de tanto eu sofrer as pessoas me olham como um espelho, não tenho aquilo de tirar as minhas angústias, as minhas tristezas … Não vou dizer que a minha vida não foi bonita e eu acho que o que estou a passar agora eu precisei de passar isso tudo para eu poder valorizar este ser humano, que hoje é minha missão é minha vida.” (História de Vida de Judite Mutote, 18/01/2017)


Uma das actividades de maior impacto e que congrega grande parte dos membros da associação é a Cerimónia da Panela, realizada à terça-feira a partir das 14 horas e que se pode prolongar pela noite. Esta cerimónia é uma terapia de grupo, um momento de dar-se as mãos, apoiar-se, expressar sentimentos, reconhecer-se na sua humanidade. Activistas seropositivas ou vivendo positivamente cantam e dançam, marcando o ritmo pelo agitar dos frascos dos medicamentos com pedrinhas, assinalando a importância da tomada dos medicamentos. Passam mensagens sobre a doença, a prevenção e o tratamento, partilham uma refeição, distribuem roupas e géneros alimentícios, celebram casamentos dos seus membros. As mulheres de vestido branco, o casal trocando alianças e bebendo à sua saúde na presença de um clérigo. Não falta sequer o livro para registar o casamento. Tudo pensado ao mínimo pormenor, realizando sonhos de gente a quem retiraram o direito à utopia, à existência e ao reconhecimento.


D. Judite percebe a sua passagem nesta vida como uma escola, uma aprendizagem de afectos:


Primeiro precisei de ir a uma escola, fui à escola primária, secundária, entrei para a universidade, agora estou a fazer meu mestrado aqui da vida para eu poder valorizar alguém quando diz que está com fome, não é a pessoa dizer que está com fome porque tem opções para comer alface, peixe grelhado, comer frango, eu já olhei um cão e desejei comer um cão morto por causa de fome.


A nossa mestra reconhece que a sua história de vida e as suas acções conduziram-na a assumir-se como feminista, como lutadora pelos direitos humanos das mulheres, num mundo dominado pela desigualdade, capitalismo e patriarcado. A sua participação em múltiplas actividades organizadas pela MONASO12, RENSIDA13 e pelo Fórum Mulher, fizeram-na entender que há variadas formas de ser e praticar o feminismo, tendo como ponto de partida a liberdade de escolher, de cada uma e de todas, respeitando-se nas diferenças.

 

Quando voltei do Quénia15, voltei feminista, já sabia defender direitos. Eu não sabia que tinha direito à vida, não sabia que tinha direito de dizer não às relações sexuais, não sabia que este meu corpo não pode ser um templo para um homem fazer experiências.


Esta é a nossa Mestra do Mundo que nas periferias da cidade capital de Moçambique, Maputo, vai criando e alimentando muitas vidas e sobretudo muita dignidade e esperança.

 

 

1 Karingana wa Karingana significa ‘Era uma vez’ em Ronga, uma das línguas nacionais falada em Maputo.

2 “No Povo buscamos a força”, Poesia de Combate 2. Maputo, FRELIMO, [1977], p. 92-93

3 Na língua Changana, uma das línguas nacionais de Moçambique falada na região Sul.

4 Santos, Boaventura de Sousa (2007) “Para além do Pensamento Abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes”, in Revista Crítica de Ciências Sociais, 78, Outubro 2007: 3-46, pp. 24.

5 Santos, Boaventura de Sousa (2006), "Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências", in Barreira, César (Ed.), Sociologia e Conhecimento além das Fronteiras. Porto Alegre: Tomo Editorial.

6 Referência à Cerimónia da Panela.

7 Os excertos das falas de Judite Mutote são da entrevista que ela deu ao projecto de pesquisa “Acesso aos Serviços de Saúde de Referência para HIV/Aids no Brasil, África do Sul e Moçambique”, Maputo, 11/02/2013 e 2017.

8 Carta de Princípios da Universidade Popular dos Movimentos Sociais, UPMS. www.universidadepopular.org

9 Desmond Tuto, (2000) No future Without Forgiveness. Arcebispo da Igreja Anglicana da Cidade do Cabo.

10 Bairro da periferia de Maputo.

11 Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique.

12 Rede Moçambicana de Organizações contra a SIDA, criada em 1993. Apoiou a associação em formação

13 Rede Nacional de Organizações de Pessoas Vivendo com HIV/SIDA, fundada em 2002. D. Judite foi Presidente entre 2011 e 2016.

14 Acção da Marcha Mundial das Mulheres realizada em 2016 no Quénia.

 

 

Como citar

Casimiro, Isabel Maria (2019), "Judite Mutote", Mestras e Mestres do Mundo: Coragem e Sabedoria. Consultado a 23.10.21, em https://alice.ces.uc.pt/mestrxs/?id=27696&pag=23918&id_lingua=1&entry=29775. ISBN: 978-989-8847-08-9