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Vandana Shiva

Luciana Jacob
Publicado em 2020-12-07

ABRAÇAR A VIDA

 

I'm a woman, born the daughter of a feminist and the granddaughter of a feminist grandfather. I don't think I could have avoided working on women's issues. I don't do it as a career or profession; it's my very essence as a human being”. (Entrevista concedida a Scott London em 14/02/2016)

 

Quando Vandana Shiva deixou seu cargo de professora e pesquisadora na Universidade de Ontário, Canadá, para juntar-se ao movimento de mulheres de Chipko, ela compunha uma equipe multidisciplinar de pesquisa em teoria da física quântica. Ali defendeu sua tese de doutorado intitulada “Variáveis ocultas e não localidade na teoria quântica”; sua formação universitária havia sido em Física pela Universidade de Punjab, Índia.


Na década de 70, o movimento Chipko – traduzido como abraço – era composto por um grupo de mulheres de Uttarakhand, na Índia: camponesas que viviam da agricultura e que se levantaram contra o desmatamento comercial promovido por corporações estrangeiras na região ao abraçarem árvores perante a iminência do seu corte. A partir de sua relação com as mulheres Chipko, Vandana Shiva encontrou ressonância e potência de ação para articular suas ideias de maneira prática; ela achava, assim como Gandhi havia dito décadas antes, que a preservação da cultura e da autonomia alimentar locais eram as soluções para erradicar a pobreza maciça na Índia, além de um instrumento de empoderamento das populações rurais e urbanas.


Shiva nasceu em 1952 em Dehradun e é de fato à sua vivência pessoal que atribui grande parte da força da luta que conduz contra as grandes corporações agrícolas que, segundo ela, pilham a natureza, apropriam-se dos saberes dos povos, negam a vida. Vandana Shiva combina aguçada pesquisa intelectual com corajoso ativismo e suas ações abrangem desde incansáveis conferências em universidades de todo o mundo até à interação com camponeses e camponesas na zona rural da Índia. Como intelectual militante, Shiva atua em muitas frentes e seu trabalho tem enorme repercussão tanto no Norte quanto no Sul global. Uma pluralidade de movimentos locais e globais encontram em Vandana Shiva elementos teóricos e impulso inspirador para levarem adiante suas lutas em defesa das sementes crioulas, pela propriedade tradicional do conhecimento, contra o patriarcado e pela soberania alimentar. Sua atuação em pesquisa é totalmente conectada com ações concretas a favor de grupos camponeses historicamente expropriados e expressam-se em um ativismo vigoroso e ácido contra as grandes corporações das áreas de sementes, agrotóxicos e fertilizantes. Shiva tem contribuído de diferentes e fundamentais formas para a mudança de práticas e paradigmas de agricultura e alimentação: escreve livros, concede entrevistas, visita projetos de organizações não governamentais em todo o mundo, participa de congressos, encabeça e apoia campanhas, conduz ações judiciais contra patentes, cria cursos e universidades livres.


A maior parte de seu trabalho constrói-se a partir da realidade da Índia, em uma instituição que fundou em 1982 chamada Research Foundation for Science, Technology and Ecology, dedicada a pesquisas independentes voltadas a questões socioambientais da atualidade, em estreita parceria com comunidades locais e movimentos sociais. Em 1991, Shiva fundou Navdanya, um movimento para proteger a diversidade e integridade de recursos vivos – especialmente sementes nativas – e promover agricultura sustentável e comércio justo.


Segundo informações divulgadas pela Navdanya1, nas últimas duas décadas Vandana Shiva trabalhou com mais de quinhentos mil homens e mulheres agricultoras/es, em comunidades locais e diferentes organizações. Os esforços de Navdanya resultaram na conservação de mais de três mil variedades de arroz de todas as partes da Índia e a organização estabeleceu sessenta bancos de sementes em dezesseis estados do país. A Time Magazine identificou Shiva como uma “heroína” ambiental em 2003 e a Asia Week a nomeou uma das/os cinco comunicadoras/es mais poderosas/os da Ásia. Em novembro de 2010, a Forbes Magazine apontou Shiva como uma das sete mulheres mais ponderosas do globo. Shiva preside a Comissão sobre o Futuro da Comida, sediada na região da Toscana, Itália, é membra do conselho do Fórum Internacional sobre Globalização e membro do Comitê Diretor da Campanha Popular Indiana contra a Organização Mundial do Comércio. Popularmente é conhecida, especialmente na América Latina, como a “inimiga número um da Monsanto e dos transgênicos”.


No seu livro, A violência da revolução verde e Monoculturas da mente apresentam desafios fundamentais para o paradigma insustentável da agricultura capitalista e industrial. Através de seus livros Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento, Safra roubada: o sequestro do suprimento global de alimentos e Guerras por água: privatização, poluição e lucro, e muitos outros, Shiva tornou visíveis os custos social, econômico e ecológico da globalização liderada pelas grandes corporações.


Ao denunciar as violências do paradigma hegemônico de agricultura, não o faz sem desenhar uma crítica robusta ao papel da ciência moderna na manutenção de injustiças sociais e no silenciamento e opressão de grupos camponeses, além da usurpação de seus conhecimentos tradicionais e da biodiversidade. É possível encontrar relação íntima com o quadro teórico das epistemologias do Sul de Boaventura de Sousa Santos, principalmente no que respeita ao que ele denominou monocultura do saber e ecologia de saberes (Santos, 2010)2.


Vandana Shiva defende que a partir da produção de conhecimento, e para além dela, estabeleceu-se que a única possibilidade credível de agricultura no Sul global fosse constituída a partir de traços coloniais e imbuída do mito modernizador, que se responsabilizou por sérios e irreversíveis danos ambientais, pelo aumento das diferenças sociais no campo, pela liquidação de saberes e culturas, pela acentuação da fome e pela perda de soberania alimentar dos povos. Por um lado, a ciência moderna em confluência com as grandes corporações da área agrícola estabeleceram como modelos de desenvolvimento o latifúndio, a monocultura, a ênfase na exportação de matéria-prima, a violência contra grupos que lutam pela terra e pelo território, a destruição dos ecossistemas, a aniquilação de saberes tradicionais, o trabalho escravo, a produção extensiva, a simplificação do meio natural: elementos constitutivos do atual modelo produtivo que, apesar de querer fazer-se crer moderno, reproduz o modelo colonial de exploração da terra, da natureza e dos povos. Em contraposição, situa-se a luta de Vandana Shiva e o conhecimento que vem produzindo em parceria com grupos sociais camponeses, através da valorização das práticas de uma agricultura em sintonia com os processos ecológicos e culturais tradicionais que persistiram com o passar do tempo. A democratização do saber é posta por Shiva como um pré-requisito crucial para a liberação humana numa perspectiva pós-colonial.


São muitas as faces conhecidas de Vandana Shiva e uma das quais que é bastante referida é o ativismo antiglobalização e a crítica ao conceito ocidental de desenvolvimento, que encontram na ciência substrato ontológico, epistemológico, político e ético. Nas conferências que profere e, especialmente, em seu livro Abrazar la vida: mujer, ecologia e supervivencia, a pensadora critica severamente o Produto Interno Bruto (PIB) como parâmetro para medição do nível de desenvolvimento de um país. Ela afirma que este é literalmente um conceito bruto para uma economia bruta, capitalista, patriarcal e neocolonial. Em seu discurso é enfática ao chamar a atenção à necessidade de se criar alternativas que levem em conta os limites ecológicos e o trabalho humanizador das mulheres para a construção de novos parâmetros de bem estar e desenvolvimento dos povos e países. Em um estilo direto e assertivo, Vandana Shiva defende que a transição a que se refere diz respeito à passagem da implementação de um número estúpido que está destruindo a vida – o PIB – para a busca criativa de economias vivas, democracias vivas ou o que ela veio a chamar de democracia da terra.


O tema do patenteamento é, sem dúvida, onde Shiva faz contribuições das mais significativas. Nele, a conjunção entre ciência e ativismo emerge com bastante força e se expressa nos campos da biodiversidade e dos direitos de propriedade intelectual. Vandana Shiva faz permanentemente campanha internacional em tópicos relacionados à biotecnologia. Embora seja, sobretudo, na defesa de agricultores a agricultoras da Índia que suas ações tenham sido bem-sucedidas, ela auxiliou movimentos na África, Ásia, América Latina, Irlanda, Suíça e Áustria em campanhas contra a engenharia genética.  Em 2003, quando os Estados Unidos da América iniciaram uma disputa contra a União Europeia para remover as proibições e a moratória de organismos geneticamente modificados (OGM) em plantações e alimentos, Shiva lançou uma campanha popular global contra os OGM na Organização Mundial do Comércio.


Foi graças à mobilização liderada por Vandana Shiva que a patente do Neem, planta nativa da Índia usada milenarmente para o controle de pragas e doenças na agricultura e essencial à vida diária de camponeses e camponesas, foi negada à multinacional estadunidense W. R. Grace. A contenda judicial, iniciada na década de 90, durou onze anos e terminou com a vitória do povo indiano. Outras duas patentes, a do arroz Basmati e do trigo Kanak, requeridas respectivamente pela Rice Tech e Monsanto, também foram negadas após intensa mobilização internacional conduzida por Vandana Shiva e outros parceiros e parceiras. Atualmente, dois campos distintos de disputa estão tomando lugar em seu ativismo: a apropriação indevida de medicamentos indianos e a patente de tecnologias voltadas à mitigação das mudanças climáticas, como o uso de variáveis agrícolas tolerantes ao sal e a cheias.


Como ecofeminista ela leva por diante todas essas causas. O feminismo não é, para Vandana Shiva, uma luta desconectada das outras, quiçá de sua história de vida. Sua vida e sua voz estão visceralmente perpassadas pelo reconhecimento de que o mundo do qual fazemos parte é uma terra vivente, uma terra sagrada, que sustenta toda e qualquer forma de vida - incluída a economia dominante que nega a própria terra. E para ela este é o primeiro e fundamental princípio de sua formulação de ecofeminismo. Há para Shiva estreito vínculo entre a dominação da natureza, a subordinação das mulheres e a opressão dos povos não ocidentais. Somente a recuperação do princípio feminino poderia reverter esse quadro de violência e dominação:


A recuperação do princípio feminino se baseia na amplitude. Consiste em recuperar a natureza, a mulher, o homem e as formas criativas de ser e perceber. No que se refere à natureza, supõe vê-la como um organismo vivo. Com relação à mulher, supõe considerá-la produtiva e ativa. E no que diz respeito ao homem, a recuperação do princípio feminino implica situar de novo a ação e a atividade em função de criar sociedades que promovam a vida e não a reduzam ou ameacem” (Shiva, 1991: 77).


Se há elementos que remetem a uma reflexão com base espiritualista na abordagem de Vandana Shiva, há igualmente uma crítica materialista que se apoia na análise sobre o trabalho da mulher na sociedade. Ela relaciona as formas de dominação sobre os povos de países do Sul global - através das quais se orientavam os “programas de desenvolvimento” - com a destruição da natureza, cuja principal consequência foi (e é) a destruição das condições para a própria sobrevivência das mulheres (pela extinção das fontes de alimentação, de água, da biodiversidade etc). Para ela, a origem destes problemas encontra-se no paradigma desenvolvimentista que orienta essas ações e que vê a natureza como um recurso separado e à disposição dos homens, algo “inerte, passivo, uniforme, separável, fragmentado e inferior a ser explorado” (Shiva, 1991: 65). Em sua perspectiva, todo o trabalho criativo, produtivo e reprodutivo das mulheres, sobretudo no contexto indiano, foi invisibilizado e deixou de ser contabilizado. Assim, a reprodução da vida, a manutenção da saúde, a nutrição, o cuidado com a água e com a família desapareceram do ponto de vista do desenvolvimento capitalista.


É desta posição de vulnerabilidade que brota, entretanto, a força das mulheres enquanto condutoras da reconexão com a natureza e com os saberes ancestrais. Do ponto de vista de Vandana Shiva, ao serem deixadas para cuidar do sustento, da vida das crianças e da cozinha, as mulheres, ao contrário dos homens, continuaram a relacionar-se com a vida e fortaleceram-se enquanto protagonistas de economias de cuidado, promovendo culturas centradas na vida. O ecofeminismo em Shiva fala, portanto, da possibilidade de se recolocar a vida no centro da organização social, política e econômica. Esta formulação põe em jogo a possibilidade de reconhecer sentido político nas experiências concretas das mulheres e aponta para propostas potentes de transformação social e ecológica.


Vandana Shiva, desde uma articulação ecofeminista, redefine a própria ideia de humanidade em termos de vulnerabilidade, diversidade e interdependência em torno do trabalho e dos saberes das mulheres, e é justamente essa a essência a partir da qual nasce todo seu pensamento e sua luta, sua vida e sua voz.

 

1   http://www.navdanya.org/home, consultado em 28/02/2016

2 Santos, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2010.

 

Referências


Shiva, Vandana. Abrazar la vida: mujer, ecología e supervivencia. Montevideo: Instituto Tercer Mundo, 1991.
Shiva, Vandana. The violence of the green revolution: third world agriculture, ecology and politics. Malasya: Third World Network, 1993.
Shiva, Vandana. Stolen harvest: the hijacking of the global food supply. Cambridge: South End Press, 2000.
Shiva, Vandana. Biopirataria: a pilhagem da natureza e do conhecimento. Petrópolis: Vozes, 2001.
Shiva, Vandana. Monoculturas da mente: perspectivas da biodiversidade e da biotecnologia. São Paul: Gaia, 2003.
Shiva, Vandana. Guerras por água: privatização, poluição de lucro. São Paulo: Radical Livros, 2006. 

 

 

Como citar

Jacob, Luciana (2019), "Vandana Shiva", Mestras e Mestres do Mundo: Coragem e Sabedoria. Consultado a 10.05.21, em https://alice.ces.uc.pt/mestrxs/?id=27696&pag=23918&id_lingua=1&entry=31904. ISBN: 978-989-8847-08-9