Mário Vitória (2013) A liberdade comovendo o povo [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

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Las Ilusiones son Efímeras y los Colores Eternos
Ana María Castro Sánchez

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Las Ilusiones son Efímeras y los Colores Eternos
Ana María Castro Sánchez

 

 

Frida Kahlo

Susana de Noronha
Publicado em 2021-04-19

 

De perfil

Ilustração: Noronha, Susana de (2017) Frida Kahlo de perfil [Grafite, carvão e acrílico sobre papel]

 

“Espero alegre la salida - y espero no volver jamás - FRIDA” Escrever sobre a vida e a voz de Frida Kahlo faz-se “Pensando en la Muerte” e na vontade de falar com as mãos. Só nós lhe podemos desenhar o perfil, preto no branco, Frida sabia quem era por dentro, mas nunca se viu de lado, apenas de frente. Todos lhe conhecemos o rosto quieto, a boca calada, sem linha de sorriso, nem tudo sai em palavra, muito é dito na tinta. Pêlo na venta, vestiu calças e casaco de homem, mas foi Tehuana de lábios pintados, trança negra feita bandolete, flores em coroa, saia rodada, cores garridas, anéis grossos, pulseiras apertadas, brincos pesados e colar comprido. Pintora e artista a tempo inteiro, Frida Kahlo já contou a sua estória em tinta e palavra, em diário e carta, com assinatura e dedicatória. Pintou-se de frente, como pose para fotografia, entre espelho, pincel e tela, encheu-se de cor, enfiou-se nos quadros, na tinta espessa, ficou por lá, não voltou. Nasceu em 1907 na cidade com nome de país e na casa com nome de cor, ao sexto dia do sétimo mês. A Cidade do México e “La Casa Azul” foram chão, parede e tecto, terra feita mulher, partes de corpo, pedaços de si. Batizada Frieda, com mais uma letra, dos seus nomes escolheu o terceiro, pôs de lado o primeiro e o segundo, nem Madalena nem Carmen, foi Frida que ficou. Cresceu entre fotografias, feitas pelo pai, focadas em gente do México, parando o tempo, já em papel. Com os “retablos” religiosos, em placa de zinco, aprendeu a pintar os piores momentos da vida e a agradecer o fim de todos os males, a cura e a cicatriz. Viveu com ideias que mexiam o país, entre revolução, socialismo, comunismo, repressão e resistência, levantadas como punhos fechados, em livros, cartazes, marchas e telas de artistas, do linho nos cavaletes aos murais em paredes e tectos. Empurrando para trás o capitalismo e o colonialismo, também se puxava pela herança nacional, tradicional, indígena e mestiza, a história pré-colombiana, la raza, dos lugares às pessoas, os seus saberes, crenças e coisas, as suas vidas. Em cinquenta e cinco autorretratos, entre duzentos desenhos e pinturas, Frida ainda nos olha, ainda nos mostra como se conta uma estória, como se escreve e pinta uma autobiografia cheia de feridas, com ou sem moldura, pendurada no México, dando voltas à Terra. Entre objetos de dor, arte, resistência e completude, Frida Kahlo ensina o Mundo na primeira pessoa. Sozinha e única, é Mestra de muitos, milhares ou milhões.


“Mi pintura lleva con ella el mensaje del dolor.” Começou a desfazer-se enquanto crescia, a poliomielite apanhou-lhe a perna direita, do osso ao músculo, mais curta e mais fina. De escoliose agarrada às costas, ainda pequena, era mulher de esquerda, da cinta para baixo e do pescoço para cima. As botas feitas de encomenda, tacão direito mais alto, completavam-lhe pé e osso, irmanavam as pernas desniveladas. Os braços e mãos usou-os por inteiro, as duas metades, deu-lhes mais uso quando deixou de poder mexer o resto, quando tudo quebrou. Passageira de autocarro acidentado, aos dezoito anos, quase maior, ainda de pé, Frida partiu-se aos bocados. Coberta de pó dourado, assim conta a estória, pintada por dentro em vermelho hemorragia, fraturou a coluna vertebral, uma clavícula, duas costelas, a pélvis, a perna direita e o pé na ponta, caída no chão, quase morta, deitada no meio da rua, quando tudo mudou (Herrera, 1991). Um varão metálico atravessou-a a meio, furou-lhe a barriga, tirou-lhe a virgindade, dizia Frida, como quem fura ventre e vagina de quem já não é menina, de quem já é mulher. Desde esse dia, 17 de setembro de 1925, até ao fim, à última hora, Frida passou por mais de trinta cirurgias, osteomielite, úlceras, gangrena, amputação dos dedos e da perna do mesmo pé, abortos espontâneos, filhos perdidos antes de tidos, anos acamada, sempre em dor. Misturou-se com Diego Rivera em murais altos e telas pequenas, pintores, camaradas, comunistas e amantes, pouco casados, muito amigos, juntos para sempre, apenas na tinta. Um “sapo” e uma “pomba”, alcunhas partilhadas, pouco combinam, línguas compridas não lambem penas de “corações rotos” ou rompidos. Frida “não precisava de pés, tinha asas para voar”, pintou muitos céus, podia sair para outro lugar. Numa terça feira, ao décimo terceiro dia do sétimo mês, aos quarenta e sete, deixou-se partir, sem algumas partes, feliz por ir. 1954 ficou a meio, metade usado, mas Frida fez tudo. Feita em fogo, já cinza e pó, deixou em casa uma vida inteira, trinta anos de estórias ainda vivas, na arte que fez, nas coisas que deixou.


“Pinto autorretratos porque estoy mucho tiempo sola. Me pinto a mí misma, porque soy a quien mejor conozco”. Pendurados ao lado do cavalete e no tecto da sua cama, os espelhos deram-lhe o motivo mais repetido da sua obra, o seu próprio rosto, o corpo que tinha. Frida contou a estória toda, princípio, meio e fim, com cabeça, tronco e membros. Pintou o momento sa(n)grado do seu nascimento, a primeira forma da sua cabeça, do cabelo ao pescoço, de sobrancelhas unidas, saída da vagina, entre pêlos e pernas. Pintou a sua ama de leite, a boca amamentada, as mamas morenas e o leite branco que caía e lhe tirava a fome, dando-lhe altura. Pintou a árvore de família, os avós, os pais e os laços de sangue agarrados pela pequena Frida, de pés plantados no jardim florido da “Casa Azul”, nua e sozinha. Pintou autorretratos acompanhada por macacos, cães, gatos e papagaios da sua terra, eram parte da casa, animais que tinha por perto, que também amava. Pintou-se entre raízes, troncos, ramos, folhagens e flores do seu México, misturou-se com a terra, saída dela como rebento indígena. Pintou a sua relação com Diego, lado a lado, de mãos dadas, de cabeças unidas e desencontradas, mal encaixadas, como mau pensamento, desenhado na testa em forma de Rivera, empurrando três lágrimas ainda molhadas. Também pintou o sofrimento das separações, o coração sacrificado, feito mancha de sangue, traído e arrancado do peito, atirado fora, deitado ao chão. Pintou-se de noiva Tehuana, já divorciada, de rosto apertado em renda branca, de lágrimas nos olhos e Diego na testa. Pintou-se vestida de homem, fato largo, cabelo curto, sem trança, de tesoura na mão e madeixas no chão, como quem corta centímetros de um tempo que se quer esquecer, só ficou um brinco entre os pedaços de mulher. Pintou-se desdobrada, arranjou mais duas metades, fez “Las Dos Fridas” para ter companhia, aguentar a dor da perda e estancar o sangue do coração rasgado, agarrando Diego, feito retrato, na palma da mão.


“La tristeza se retrata en todita mi pintura, pero así es mi condición, ya no tengo compostura. (...) Lo único de bueno que tengo es que ya voy empezando a acostumbrarme a sufrir…” Frida pintou todas as suas debilidades, fraturas, dores e sangramentos, dando forma e cor àquilo que não se deixa dizer, que não sai em palavra. Pintou o seu pescoço em colar de espinhos, bem enrolado, duas voltas de dor com pendente de colibri morto, sem vida no corpo. Num mês de julho em terra estranha, no “Hospital Henry Ford”, entre indústria e Detroit, pintou o seu aborto espontâneo, o sangue deixado no lençol da cama, os restos de um filho deixado a meio. Pintou as vértebras tortas e partidas, “La Columna Rota” de pedra fraca, incapaz de segurar o resto do corpo, abrindo brechas nas paredes de pele. Nem coletes ortopédicos nem dezenas de pregos poderiam mantê-la levantada, abrindo outras dores, de fivela apertada e de bico espetado, frias e finas. Pintou-se como animal de quatro patas, corpo de veado macho, rosto de Frida, hastes com nove pontas, ferido por nove flechas. Mesmo com duas pernas direitas, dianteiras e traseiras, Frida não terá cura, ainda de pé, já está desfeita antes do fim. Voltou a desdobrar-se para fazer companhia à Frida internada, à hora de visita, sentada na cadeira ao lado da maca, onde o seu outro corpo, cortado a bisturi, dói e sangra, deitado de lado, virada para lá, de costas para nós. Não há “Árbol de la esperanza” na paisagem pintada, só chão de terra seca, rachado de sede, de noite e de dia. Já “Sin Esperanza”, em dieta forçada, receita de médico, pintou o enjoo e o vómito que lhe saltava da boca em forma de jacto de gordura e carne morta, peru, porco, galinha, peixe e chouriça, sem esquecer algum sangue e uma caveira de açúcar. A mistura avermelhada avança para o cavalete, já pendurada, lembrando que Frida transformava tudo em arte pintada, que “Todo puede tener belleza, aún lo más horrible”. Também se pintou em cadeira de rodas, coração na paleta, pincéis molhados em tinta de sangue, dedicando o retrato ao seu cirurgião, desenhado a seu lado, um salvador de fato e gravata, feito tela em cavalete. Pintou-se entre o “capitalismo ianque”, a águia gorda de cartola, olhos azuis e cara de homem, e as mãos gigantes do Marxismo, esperando saúde para todos, largar muletas, despir coletes, um novo mundo, com Karl por perto, a cabeça e o livro. Mas Frida sabia que a morte já estava deitada com ela, no dossel da cama, em sobrecéu, sem sobressalto, trazendo flores e fogo, sem terra nem enterro, só cremação. A colcha amarela, quase dourada, sempre foi mortalha de quem “foi morrendo enquanto vivia”, apanhada por heras e ervas-daninhas, como coisa velha que nunca mexe, anos deitada num sonho mau. Frida também juntou partes da sua estória dentro da banheira, na água remexida, momentos felizes e outros doridos, gente, flores, insectos e pássaros, lugares, barcos e prédios altos, o seu vestido de Tehuana, os pés que tinha, o sangue perdido. Tirada a tampa, tudo há de correr pelo ralo, cano abaixo, para o fundo de tudo, de passagem, como todas as vidas. Em “Coyoacán 1954 México”, sem tempo para vírgulas ou pontuação, a dias do fim, Frida pintou melancias, inteiras e fatiadas, adoçadas pelas palavras “VIVA LA VIDA” em letra maiúscula, como pedaço vermelho que se quer comer de boca cheia, mastigado da casca às sementes, de cara lambuzada e dentes felizes.


“No estoy enferma, estoy rota... pero estoy feliz de estar viva mientras pueda pintar.” Como se faz a dor? Dentro do corpo ou fora dele, nas outras coisas? A dor de Frida, misturando poliomielite e acidente, infeção e fratura, também foi feita por bisturis, linhas de sutura, moldes de gesso, coletes ortopédicos e meses de cama, a cada novo realinhamento de coluna e tentativa de tratamento, somando outras feridas e cicatrizes. Frida mostra-nos que há uma terceira metade (Noronha, 2015) entre corpos e coisas, dores e objetos, onde nada é separável, onde tudo se mistura. A dor e a arte, dos objetos às lesões que as fazem, foram partes indivisas do corpo de Frida, da sua experiência de mulher “partida”, mas também da sua força, da vontade que teve para resistir, dos gestos que fez para se remendar, para ser maior. Mesas de cirurgia, macas e camas de hospital, ocupadas por tempo incerto, nunca pertenceram a Frida, mas fizeram parte da sua vida, doente ou desfeita, das dores que teve desde criança. Às muletas e à prótese feita para ocupar o vazio da perna direita, não deu muito uso. Ter pés para andar era mero adorno, um acessório no guarda-roupa, desde que os braços pudessem trabalhar. Os coletes ortopédicos eram seus, moldes de gesso ou espartilhos de cabedal e metal, à medida do corpo, apertados com fivelas, feitos para usar meses a fio. Frida pintou os coletes ortopédicos nos autorretratos em óleo sobre tela e fez pinturas sobre o gesso que lhe apertava o tronco, ligando corpo, dor, molde de tratamento e obra de arte, encastrados uns nos outros, uma soma estranha, quase um “cadavre exquis”. Mas ela própria dizia, “En realidad no sé si mis cuadros son surrealistas o no, pero sí sé que representan la expresión más franca de mi misma. (...) Nunca pinto sueños o pesadillas. Pinto mi propia realidad.” As órteses de tronco e coluna encostavam-se à cama, onde Frida se enfiava semanas, meses e anos, somados os dias, deitada e dorida. Quando se levantava, quando podia, tinha a cadeira de rodas para ir sentada, de costas levantadas e pernas unidas, pouco mexidas. Sentada ou deitada, Frida nunca ficou parada, usou a cadeira de rodas como assento de trabalho e a cama como suporte de cavalete, dando-lhe a força de mais quatro pernas. Ao alcance do braço, na mesa de cabeceira, as tintas e a coleção de pincéis, eram misturados e usados em cima da colcha, entre paleta, tela e papel. Frida estava “partida” e usava uma cadeira de rodas, mas não estava inválida, adaptou o tampo à sua vontade de ganhar a vida, com o peso de ter um sustento. Frida estava “partida” e esteve acamada por muito tempo, mas nunca foi incapacitada, usou o colchão como posto de trabalho, de segunda a domingo. Deitada, mas acordada, pintou gente, bichos e deuses, árvores e máquinas, a terra do México e outros sítios, uma artista estendida em almofada branca e lençol bordado, virada para o Mundo. Também a cama e a cadeira de rodas lhe completaram o corpo de trabalhadora, de mulher artista, juntando-lhes um cavalete, dezenas de pincéis, um ou dois espelhos e a caixa de tintas. Frida não estava doente, usou como material de arte e acessório de pintura tudo aquilo que a poderia parar, dando outro sentido à condição de ferida, acamada e amputada. Frida foi à inauguração da sua primeira exposição individual na Cidade do México, dentro da sua cama, vestida e calçada, mostrando que colcha, colchão e estrado já faziam parte do seu corpo, da sua profissão, da forma como se mexia, de tudo o que fazia. Quem não pode sair da cama, vai em cima dela, mesmo deitada, junta-se à festa!


“¡Quién diría que las manchas viven y ayudan a vivir? Tinta, sangre, olor… ¿Qué haría yo sin lo absurdo y lo fugaz? (...) La pintura completa mi vida.” Frida sabia que pinturas e “palavras fazem coisas”, como cartazes políticos, juntou-as e usou-as para construir sentido, para mobilizar os outros, intervir sobre a dor. As imagens que criou não são representações ou coisas decorativas, são extensões de corpo, da pele ao osso, das sensações, emoções, ideias e gestos de uma mulher. A arte, da tela a óleo à escrita criativa, foi um acrescento de experiência, um pedaço da forma como as suas fraturas, feridas e dores foram sentidas e pensadas (Noronha, 2009). Os mais de duzentos desenhos e pinturas carregavam conhecimento e capacidade de ação, usadas para se manter inteira, para ter mão sobre aquilo que se perde e parte, lembrando o desenho e a frase na página do seu diário pintado - “Yo soy la desintegración”. As suas pinturas são tecido cicatrizado, momentos e objetos que usou para se remendar e refazer, tirando dores e sofrimentos de dentro da pele, estendendo-os em papel, dando-lhes um título, dando-lhes forma e cor, outro tamanho. São também gestos e objetos de partilha, de contacto e conversação, criando réplicas da sua experiência nos corpos dos outros, das mulheres e homens que a encontram ou procuram, de quem a espreita e olha de frente. Frida contou toda a sua estória, mostrando com detalhe a realidade vivida por quem se desfaz antes do tempo, revelando o negativo da vida, sem precisar de fotografias. As assimetrias e deformações, as infeções, fraturas e feridas, o sangue perdido e as transfusões, as muitas cirurgias, o aperto de coletes e camas, os filhos feitos em pedaços, fora do útero desfeito, os dedos em gangrena e as amputações, nada é surreal, apenas a realidade de Frida, repetida e frequente entre a multidão. Mas Kahlo foi diferente, não quis estar ou ser doente, juntou a sua estória aos retratos do povo do México, às mulheres, aos trabalhadores, à luta política de uma Esquerda certa e direita, celebrou a pertença a uma História maior, um passado escrito no rosto, uma América indígena que ainda tem chão, que olha para a frente.


Como se faz uma Frieda, de ferida a Frida? Como se reconstrói uma mulher? Com órteses e próteses ou com uma estória bem contada? Podem os vazios ser preenchidos com peças de roupa e objetos de arte, das flores na trança de cabelo ao linho da tela? Frida sempre precisou de objetos para se completar, aqueles que tinha e usava, comprados, oferecidos, prescritos, feitos para si, e aqueles que criou, que escreveu, desenhou e pintou, feitos por si. Desde criança, dos pequenos sapatos e botas ortopédicas, nivelando os seis anos de altura das suas pernas, às órteses, muletas e prótese usadas depois de adulta, entre os dezoito e os quarenta e sete, Frida sempre teve partes de corpo que podia arrumar fora de si. Mas Frida organizou outro guarda-roupa, mais essencial, fez do traje regional mexicano a sua blusa e saia de todos os dias, fez-se indígena, fez-se Tehuana, encheu-se de cor, juntou-lhe o brilho de joias tradicionais, parte da terra e da gente do México, fez-se maior. A prótese feita para a perna direita, escondida como todos os sapatos por detrás da saia comprida, era um pedaço desta vontade de criar raízes no chão. A bota que a calçava, levantada em vermelho e verde, atacadores enlaçados em trinta e quatro buracos, dezassete de cada lado do cano, mexia-se ao som de dois guizos, sempre em fiesta, vestida para sair. Usar Tehuana, encher “La Casa Azul” de artefactos pré-hispânicos e artesanato religioso e pagão, Judas de papel, diabos e esqueletos, Catrinas e outras calaveras, fazia parte dos seus remendos, de fechar feridas com a terra mexicana, decorar a dor, brincar com a morte, encostá-la à parede, dar-lhe a mão. Hoje, no “Museu Frida Kahlo”, naquela que foi a sua casa, da cama do quarto ao jardim, os seus móveis, roupas, coletes ortopédicos, cadeira de rodas, cavalete, frascos de tinta e muitas pinturas, entre algumas fotografias, ganham outros sentidos e usos, expostos como pedaços do seu corpo, da sua rotina, da dor que tinha, da arte que fez, da estória que contou. Frida ficou encastrada nas suas coisas, deixou a pátina da vida nos objetos que usou, na casa que habitou. Só falta o seu corpo, com ou sem perna direita, as suas mãos em trabalho, dando uso aos frascos de tinta seca que ainda a esperam no estúdio, como bocas fechadas.


“Ahí les dejo mi retrato, pa’ que me tengan presente, todos los días y las noches, que de ustedes yo me ausente. (...) Pintaré toda mi vida si es necesario... En fin, ahora solo estaré en cuadros.” Frida escreveu - “Pinto flores para que así no mueran”, sabendo que na tela nada morre nem murcha, apenas muda de cor, ganha algum pó. Frida também não morreu, viveu por inteiro, pintada em dezenas de retratos, milhares, se contarmos os que vieram depois, os que não são da sua autoria, mas que também são pedaços seus. Pequena em altura, pernas desniveladas, Frida cresceu e alargou, fez-se México, mulher feita terra, parte de um povo, da sua História e cultura. Hoje, quem se quer vestir da maneira tradicional mexicana, não se veste de Tehuana, veste-se de Frida! Ela não precisa de voltar, porque nunca saiu, ainda está por aqui num outro formato, desdobrando outras metades em todos os países do Mundo. Frida é personagem histórica, entrada de enciclopédia, é exposição em galeria e Casa-Museu. É artigo de revista científica, é arte e design, inspira o trabalho de investigadores e artistas, aquilo que se esculpe, desenha e pinta e a ciência que se faz. Frida é tatuagem na pele e no corpo de outras pessoas, frases que escreveu, autorretratos que fez, fotografias que tirou, entranhados a tinta nos braços, pernas, costas e barrigas de homens e mulheres de todos os feitios. É nota de “quinientos pesos”, livro, catálogo, capa de “Vogue”, escultura hiper-realista. É personagem de longa-metragem e peça de teatro, é banda sonora, canção e selo postal. Frida é muñeca de pano, papel e crochê, é Catrina e calavera, de flores na trança e sobrancelhas unidas. “Frida(mania)” é mais de mil artigos, alguns repetidos, coisa de consumo do capitalismo, até nele entrou. Frida é peça de roupa e calçado, é camisa, t-shirt, avental e vestido, calças e saia, mala, mochila e carteira, meia e sapato. Frida é peça de louça e artigo decorativo, prato, caneca, pires e chávena, calendário, capa de telemóvel, cortina de banho, candeeiro de pé e almofada de sofá. Frida é brinco, anel, relógio e pulseira, colar, medalha, pendente e crachá, enfia-se em nós, ficou por cá. Mas também é “Antiprincesa”, de tiara virada ao contrário, para chicas y chicos, primeiro livro ilustrado de uma coleção para crianças (Fink e Saá, 2017), contando a estória de verdadeiras heroínas, aquelas que nos mostram e ensinam o que é ser Mulher capaz. Frida não está sozinha, a sua estória é coletiva, pertence a todas/os, é narrativa de muitos, milhares ou milhões. Frida não “está apenas nos quadros”, multiplicou-se em ideias e objetos, está por todo o lado, continua a crescer, cada vez maior. “Por eso la muerte es tan magnifica, por que no existe… por que solo muere aquél que no vivió.”


 

Referências

Fink, Nadia; Saá, Pitu (2017) Frida Kahlo (Coleção Antiprincesas). Lisboa: Tinta da China
Herrera, Hayden (1991) Frida Kahlo: The Paintings. New York: Harper Collins Publishers.
Kahlo, Frida (2005) El Diario De Frida Kahlo: Un Íntimo Autorretrato (Introducción de Carlos Fuentes). New York: Abrams Books.
Kettenmann, Andrea (1994) Kahlo. Köln: Taschen.
Noronha, Susana de (2009) A Tinta, a Mariposa e a Metástase: a arte como experiência, conhecimento e acção sobre o cancro de mama. Porto: Afrontamento.
Noronha, Susana de (2015) Objetos Feitos de Cancro: mulheres, cultura material e doença nas estórias da arte. Coimbra: Almedina.
Fink, Nadia; Saá, Pitu (2017) Frida Kahlo (Coleção Antiprincesas). Lisboa: Tinta da China


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Kahlo, Frida (1945) Autorretrato con changuito  [Óleo sobre masonite]
Kahlo, Frida (1945) Sin esperanza [Óleo sobre tela montado sobre masonite]
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Kahlo, Frida (1946) El Venado Herido  [Óleo sobre masonite]
Kahlo, Frida (1948) Autorretrato [Óleo sobre masonite]
Kahlo, Frida (1949) Diego y Yo  [Óleo sobre masonite]
Kahlo, Frida (1951) Autorretrato con el retrato del Dr. Farill [Óleo sobre masonite]
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Kahlo, Frida (1954) Viva la vida, sandias  [Óleo sobre masonite]

 

 

Como citar

Noronha, Susana de (2019), "Frida Kahlo", Mestras e Mestres do Mundo: Coragem e Sabedoria. Consultado a 28.11.21, em https://alice.ces.uc.pt/mestrxs/index.php?id=27696&pag=23918&entry=33858&id_lingua=2. ISBN: 978-989-8847-08-9