Mário Vitória (2015) Num cruzamento é sempre necessária uma passadeira [tinta da china e acrílico s/papel, 50x65cm]

Destacado Semanal

Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

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Alternativas

Lúcia Fernandes
Publicado em 2019-04-01

Vivemos uma relação de conflito entre liberdades e condicionamentos, que restringe ou inibe a prática libertadora e ação dialógica da vida, gerando opressão e exploração de sujeitos humanos e não humanos, comunidades e ambiente natural. Os seres humanos, individualmente ou em comunidade(s), têm a capacidade de olhar a realidade criticamente e romper com o instituído, o que lhes poderá permitir serem sujeitos livres e decisores do curso das suas vidas, experienciando desta forma a emancipação social e a autonomia. Estes, vivenciam e identificam as ‘situações-limite’ (Freire, 1996), presentes nas relações político sociais e/ou pessoais experienciadas por si e/ou em conjunto com as comunidades em que vivem e/ou trabalham nos diferentes tempos e espaços que partilham. Tais ‘situações-limite’ não satisfazem e/ou são uma ameaça aos seus sonhos, às expectativas a respeito de si próprios, dos saberes e “fazeres” no decorrer das suas vidas, incluindo-se as formas de colaboração que desenvolvem, a sua dignidade e ao amor dedicado a si própria/o e a outra/os seres humanos, não humanos e os seus contextos de vida. Questões “específicas” diferenciadas poderão estar aqui em jogo; desde as suas relações com outros seres vivos, territórios e de classe, a exploração da mulher, o racismo, a estrutura e relação de campo e da cidade, os modos de produção, entre outras.

 

A partir da identificação das ‘situações-limite’ poderão surgir três respostas: 1) a aceitação da realidade, assumindo-a como favorável; 2) o questionamento da realidade, ponderando-se que há caminhos para a mudança, mas concluindo-se que não se avança para tal; 3) o questionamento da realidade, acrescido da conclusão de que vale a pena sonhar, imaginar e/ou construir resposta(s) sistémicas que satisfazem indivíduos e/ou comunidades para o que é vivido e que não satisfaz e/ou ameaça o que é vivido e que se quer preservar. No terceiro cenário, aparecem as alternativas. Poderão surgir em termos de imaginação e projeção de ideias e expectativas, que darão orientações para outras reflexões e/ou atuações, utopia, constituindo-se uma maneira de pensar o impossível expandindo horizontes; e/ou poderão ser pensadas em termos concretos de implementação e colocadas em prática. O processo de construção e fortalecimento da(s) utopia(s) envolve diferentes questões das subjetividades e objetividades. Constitui-se de várias fases de insatisfação, indignação, sentimento de ausência, diagnóstico crítico do passado e/ou presente e/ou uma antecipação de crítica ao futuro, de valorização do ponto de vista dos/as envolvidas/os na concepção dos sonhos num determinado território, imaginando e propondo uma nova relação entre elas, eles e o mundo, como que um reaprender a existir. Estes processos desestabilizam e criam desconfortos diversos, envolvendo os vários universos temporais, territoriais, corporais, emocionais e espirituais. Uma parte relaciona-se a imaginar novas formas de ‘economia comunitária’ (Gibson-Grahan et al., 2013) que se apoia na discussão e definição do que é necessário para viver de forma saudável e harmoniosa em termos materiais e psicológicos. Também perceber as/os outras/os mantendo um estado de bem estar individual e coletivo e ter aberto o debate de como (re)distribuirão os excedentes produzidos, depois de satisfazer as suas necessidades.

 

As diversas formas de resistências e lutas sociais indígenas, afrodescendentes, camponesas, os movimentos urbanos, entre outros, motivadas por sobrevivência, dignidade e autonomia têm lugar em vários contextos, destacando-se o Sul Global, onde uma multiplicidade de mundos humanos e não humanos com diferentes experiências, histórias e linguagens coexistem. O fórum social mundial é, por exemplo, um dos lugares de encontro de várias pessoas e movimentos envolvidos nestas lutas e resistências, propiciando a partilha, construção coletiva e fortalecimento da utopia, pensamento e/ou das práticas de alternativas.

 

A ciência é também uma das componentes da construção de alternativas e muitas vezes propõe e impõe de maneira arrogante a hegemonia do seu papel, produzindo visões, estudos, relatórios, considerados pelos cientistas e decisoras/es políticas/os como os únicos caminhos e possibilidades das alternativas, sem o reconhecimento de outros conhecimentos e das incertezas presentes nos conhecimento científico e não reconhecida. A ciência tenta forjar uma utopia ligada ao otimismo tecnológico, que minimiza o papel do ser e suas práticas para a mudança e futuro. Dentro do pensamento crítico da ciência, destacam-se as Epistemologias do Sul como uma proposta epistemológica e política à opressão e exploração do capitalismo, colonialismo e patriarcado, que busca  acabar com a ‘linha abissal’ (Santos e Meneses, 2009), que perpetua estes três regimes de exploração e permite a legitimidade da existência de não cidadãs/ãos. A prática e produção de conhecimentos desta ciência é realizada através do diálogo horizontal, denominado de ‘ecologia dos saberes’, valorizando especificamente as/os envolvidas/os na construção de alternativas subalternizadas.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Freire, Paulo (2006), Pedagogia da Esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

Gibson-Graham, J. K.; Cameron, Jenny Healy, Stephen (2013), “Reframing the Economy, Reframing Ourselves”, in J.K Gibson-Graham; Jenny Cameron, Stephen Healy (orgs.), Take back the economy: an ethical guide for transforming our communities. Minneapolis: University of Minnesota Press.
 

Meneses, Paula; Santos, Boaventura de Sousa (2009), “Introdução”, in Boaventura de Sousa Santos; Maria Paula Meneses (orgs.), Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina, 9-19.

 


Lúcia Fernandes é investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Doutora em Sociologia e licenciada em Engenharia Química. A sua investigação-ação incide em área transdisciplinar da crise ecológica, utilizando metodologias orientadas para a co-construção de conhecimento com diferentes envolvidas/os.

 

Como citar

Fernandes, Lúcia (2019), "Alternativas", Dicionário Alice. Consultado a 26.01.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=4&entry=24454. ISBN: 978-989-8847-08-9