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Destacado Semanal

Cuidar é pensar-agir descentrando-se de si; é prestar atenção; é solicitude; é desvelo; é preocupação e inquietação pelo bem-estar de outrem; é afeição vital pelos bens(...)
Cristina del Villar-Toribio

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Comércio Justo

Carolina Leão
Publicado em 2019-04-01

Abordar o “Comércio Justo” (CJ) pode significar uma diversidade de entendimentos que não estão relacionados unicamente à comercialização “mais justa”. Contudo, o comércio é um pilar de análise crucial quando se trata de qualquer experiência neste campo, que envolva a reorganização das cadeias produtivas, nas suas vertentes de produção, transformação, distribuição, comércio e consumo de bens e/ou serviços.


O historial do CJ, desde as primeiras experiências iniciadas nos anos 1950, nos Estados Unidos, e 1960, na Europa, foi marcado de forma quase exclusiva pelo discurso de solidariedade norte-sul. Esta dicotomia afirmava a preocupação dos/as cidadãos/ãs dos países “desenvolvidos”, do “norte”, com os/as dos países de um sul geopolítico “em vias de desenvolvimento”.


Para dar corpo à solidariedade, as práticas de exportação do comércio internacional (injusto para com os produtores do sul) eram reproduzidas no CJ através da venda dos produtos dos países do sul nos do norte. Com ênfase na comercialização, apostava na redução dos intermediários desnecessários, no apoio às organizações de produtores do sul, na sensibilização dos consumidores do norte e num conjunto de critérios para tornar o comércio e o consumo mais éticos e responsáveis.


Mais tarde, pela via da Responsabilidade Social Corporativa, tece colaborações com as multinacionais que trabalham com a grande distribuição, com a perspetiva de ampliar as vendas, face à forte implementação destas instituições aos níveis social, institucional, mediático e empresarial (Vivas, 2015). Por estas características, esta perspetiva do CJ foi referenciada como “tradicional e dominante” (Vivas, 2011: 37).


Apesar destas instâncias do CJ permanecerem ativas foram confrontadas, no início deste milénio, por argumentos que desconstruíram os seus pressupostos. Um intenso debate colocou em foco uma visão mais integrada do CJ, a que Vivas (2015: 169) denominou CJ “global e alternativo”.


O objetivo era reconstruir as relações entre os atores em toda a cadeia, da produção ao consumo, com prioridade nos processos de produção e comercialização de proximidade, dos alimentos agrícolas e de origem animal, com circuitos curtos; organização de grupos para a produção e consumo planeados e a aliança entre movimentos sociais.


Simultaneamente, denunciavam os modos de produção intensiva e a concentração da alimentação pelas transnacionais, a grande distribuição alimentar e os seus supermercados, excluindo qualquer colaboração.


Cabe salientar que o movimento por um CJ não se esgota nesta dualidade de referências. Segundo Carraro, Fernández e Verdú (2011: 58) existe uma “polarização dinâmica” complexa, em que as organizações flutuam entre estas duas vertentes, dependendo dos temas em causa e dos problemas que enfrentam.


Entretanto, pode-se considerar que a questão da soberania alimentar foi um divisor de águas entre as perspetivas do CJ “tradicional e dominante” e “global e alternativo”, enquanto estratégia que dá coerência ao conjunto de propostas mais recentes do CJ.


Em 1996, a Via Campesina definiu o conceito de soberania alimentar como o direito dos povos e países a definirem as suas políticas agrícolas e alimentares. Tal implica o controlo do mercado nacional para impedir que os produtos agroindustriais excedentes e subsidiados de outros países entrem em concorrência desleal com os alimentos locais. O comércio internacional é considerado como um complemento do comércio local, valorizando-se a agricultura de proximidade, diversificada, camponesa e culturalmente adequada. Reivindica o acesso à terra, à água, às sementes e à informação sobre os produtos alimentares.


O CJ “global e alternativo” tem vindo a contribuir com uma reflexão teórica que evidencia diferentes práticas de reorganização das cadeias alimentares pelos diversos sujeitos políticos - camponeses/as, pescadores/as, povos tradicionais, cidadãos e cidadãs do campo e das cidades - que se articulam pela soberania alimentar.


Se recorrermos às lentes das epistemologias do sul, verifica-se que outras racionalidades tendem a afirmar-se através da emergência de novos padrões cognitivos de poderes e saberes que, na luta pelo direito fundamental à desmercantilização da alimentação, confrontam a lógica de produção capitalista neste campo, com um pensamento alternativo de alternativas.


Referências e sugestões adicionais de leitura:
Carraro, Federica; Fernández, Rodrigo; Verdú, José (2011), “O quebra-cabeças da equidade. Análise crítica ao atual comércio justo”, in Ester Vivas, Xavier Montagut (coord.), Para onde vai o Comércio Justo? Lisboa: Sururu Produções Culturais, 55-69.

Santos, Boaventura de Sousa; Meneses, Maria Paula (Orgs) (2009), Epistemologias do Sul. Coimbra: Edições Almedina.

Vivas, Esther (2015), El negocio de la comida. 2a ed. Barcelona: Icaria editorial.

Vivas, Esther (2011), “Quem é quem e o que fazem no movimento do Comércio Justo?”, in Ester Vivas, Xavier Montagut (coord.), Para onde vai o Comércio Justo? Lisboa: Sururu Produções Culturais, 33-53.

 

Carolina Leão é doutora em Sociologia Económica e das Organizações pelo ISEG-Universidade de Lisboa. Desenvolveu Pós Doutorado no Instituto de Geociências da Univ. Federal Fluminense. Integra a equipa de investigação do SOCIUS-CSG-ISEG/UL. Desenvolve estudos nos campos da Educação Popular, Outras Economias e Outras Pedagogias. Coordena e assessora projetos com minorias étnicas, com foco na comunidade cigana, em especial com as mulheres.

 

Como citar

Leão, Carolina (2019), "Comércio Justo", Dicionário Alice. Consultado a 15.11.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=4&entry=24657. ISBN: 978-989-8847-08-9