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Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

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Oratura

Isabel Gomes
Publicado em 2019-04-01

Pensar o papel decisivo da oratura na configuração de um pensamento alternativo ao do universo globalizado neoliberal implica o questionamento dos limites do próprio desafio. Isto, uma vez que o solo epistemológico, no qual este questionamento mergulha as suas raízes – dada a impossibilidade de pensar a partir do vazio –, se encontra naturalmente limitado pela perspectiva literária e grafocêntrica do universo sócio-cultural hegemónico. A consciência do horizonte de compreensão de que se parte possibilitará o alargamento deste mesmo horizonte e facilitará a superação da dicotomia oratura/literatura, tipicamente moderna, catapultando para o centro da reflexão o contributo das interacções fortes e fracas entre estas duas experiências comunicacionais e os distintos mundos que criam.


Ainda que o sentido do termo oratura seja um fenómeno anterior ao aparecimento da literatura, o conceito em si surge como uma proposta de demarcação desta e uma afirmação da sua diferença. A categoria foi proposta pelo linguista ugandês Pio Zirimu, na década de 60, e a partir desta data passou a ser divulgada, nas universidades de Makerere, em substituição da literatura oral, na qual persistia, subjacente, o primado da escrita.


Num sentido propositivo, pode definir-se a oratura como a arte de criar, recriar, transmitir e conservar oralmente composições poéticas, narrativas, dramáticas e outras configurações performativas. Devido à sua transmissão através de gerações, estas constituem um património oral que configura, e reforça, a identidade de uma comunidade.


A aproximação ao conceito de oratura, no âmbito das Epistemologias do Sul, pode remeter à reflexão relativa à sociologia das emergências e sociologia das ausências, de Boaventura de Sousa Santos. O reconhecimento do legado que a categoria de oratura encerra permite o acesso a experiências, discursos e narrativas alternativas aos que circulam nos centros de saber e poder dominantes como, por exemplo, o encontro com “alternativas aos direitos de propriedade intelectual”, democracias participativas e outras conceções de tempo (2002). Além disso, o próprio fenómeno de comunicação subjacente ao reconhecimento da oratura implica uma reconversão do olhar sobre o mundo em que vivemos. A hipotética passagem de um paradigma grafocêntrico para um paradigma oral poderia considerar-se uma revolução que arrastaria consigo reconfigurações ontológicas, axiológicas e epistemológicas, com um impacto demolidor na realidade política e social tal como a experienciamos no universo ocidental, abrindo espaço a novas realidades.


A reflexão epistemológica dominante defendeu um conhecimento pretensamente descontextualizado e apolítico, com pretensões de objectividade e universalidade. Por seu turno, no conhecimento correlativo da oratura, o contexto cultural, político e afetivo não pode ser eliminado. O conhecimento próprio da narrativa oral é sempre contextualizado, histórico e recursivamente experienciado; atualizando e sedimentando a sua dimensão humana, e a sua força emocional, de cada vez que é vivenciado. A oratura é um saber ancorado na experiência de corpos em relação. Todos os sentidos são convocados para este ato relacional de comunicação. Daí ser também um encontro de sentidos, na sua pluralidade, desde a audição à cinestesia. Rosto, presença, toque, escuta, ritual, tempo kairológico, são constitutivos da oratura e abrem a outras experiências de vivência em comunidade, distintas das possíveis num universo apenas literário.


Ainda que a literatura se inscreva, segundo Boaventura de Sousa Santos, na racionalidade estético-expressiva, não podemos ignorar o contexto no qual este tipo de experiência emergiu no universo hegemónico. A literatura é, desde a antiguidade, a arte da gramática, da retórica e da poética. Ora, as gramáticas e os dicionários, nos quais se baseia, são produzidos por academias intimamente relacionadas com os distintos poderes, veiculando, através das palavras, os seus valores e ideologias. São profundamente normativos e constituem um exercício de poder, ao mesmo tempo que difundem a ideologia dos que dominam e dificultam o acesso ao poder dos socialmente desfavorecidos. A escrita foi apanágio de grupos sociais privilegiados, das elites culturais. Apesar desta ser responsável por diferenciações sociais, invisibilizações e epistemicídios, é muitas vezes olhada como uma inocente entidade abstrata. E assim, persiste, nas sociedades modernas ocidentais, uma visão mítica da escrita. Esta é responsável pela defesa acrítica da alfabetização em massa, pela sua glorificação como uma capacidade intrinsecamente boa e pela interpretação evolucionista das comunidades com base no domínio da escrita.


A aporia subjacente a uma reflexão sobre a oratura pode traduzir-se na procura de uma correlação entre o universo oral e o universo da escrita, na qual as trocas conduzam a um enriquecimento mútuo e à abertura de novos mundos possíveis. A tarefa é delicada pois corre-se o risco de, com o desejo de reconhecer a oratura como valor, tentar a todo o custo fixá-la na escrita, cometendo epistemicídio na tentativa de evitá-lo. E reforçar-se-ia, uma vez mais, o paradigma da grammatikee.

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:
Gnerre, Maurizio (1998), Linguagem, escrita e poder. São Paulo: Martins Fontes. [4.ª ed.]
Santos, Boaventura de Sousa (2002), "Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências", Revista Crítica de Ciências Sociais, 63, 237-280.
Santos, Boaventura de Sousa (2006), A Gramática do Tempo. Para uma nova cultura política. Porto: Afrontamento.

 

Isabel Gomes é doutoranda em Pós-Colonialismos e Cidadania Global no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. É Mestre em Filosofia Contemporânea pela Universidade de Coimbra. Pós-graduou-se em Cultura e Literatura Africana, pela Escola Superior de Educação de Santarém e Mediação de Conflitos, pela Universidade Lusófona do Porto.

 

Como citar

Gomes, Isabel (2019), "Oratura", Dicionário Alice. Consultado a 28.03.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24459&id_lingua=2. ISBN: 978-989-8847-08-9