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Para entender el sentido que tiene la noción de “economía de la abundancia” es necesario aproximarnos primero al concepto de escasez y al lugar que ocupa en el pensamiento(...)
Jesús Sanz Abad

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Corpo

Bruno Sena Martins
Publicado em 2019-04-01

Inquirir o lugar do corpo na modernidade ocidental convida-nos a duas leituras distintas, e aparentemente contraditórias, sobre a efetiva centralidade dos corpos no pensamento moderno. À luz das “Epistemologias do Sul” denuncia-se, por um lado, um corpo excessivo conquanto obsessivamente presente na definição das relações de desigualdade e na demarcação dos sujeitos nas margens das “linhas abissais” da modernidade. Por outro lado, temos um corpo ausente, o corpo insuficientemente reconhecido como insuperável ancoramento da experiência vivida, da subjetividade e do conhecimento.

 

O corpo que designamos excessivo, ou demasiado presente, liga-se ao que Boaventura de Sousa Santos (2002) designa de “monocultura da naturalização das diferenças” (ibidem: 247), uma materialização da “razão metonímica”, cujo mecanismo fundamental é a “distribuição das populações por categorias que naturalizam as diferenças” (ibidem). Em causa está uma vocação moderna para o naturalismo e para o reducionismo biológico. Numa genealogia entre os discursos cristãos e os termos pelos quais ciência moderna definiria a “biologia como destino”, a raça e a diferença sexual emergem, porventura, como as mais duradouras e portentosas circunscrições e construções hierárquicas do humano. Investidos na determinação de não humanos e de humanos inferiores, o patriarcado e o racismo são fundadores no modo como as “Epistemologias do Norte” alicerçaram a empresa colonial-capitalista.

 

Alguns dos processos centrais que estruturam as desigualdades na realidade contemporânea – como o colonialismo e o sexismo – e das violências fundadoras da modernidade eurocêntrica – o genocídio dos povos indígenas, a escravatura ou o holocausto – remetem, de diferentes modos, para o quanto há de excessivo no corpo que a modernidade ocidental viria a adotar e constituir como signo de diferencial distribuição das prerrogativas do humano.

 

Aos corpos inscritos e reinscritos de sentido pela senda colonial do Ocidente, acrescentamos, pelo que têm de específico, as diferenças naturalizadas à luz das noções de normalidade consagradas pelas ciências biomédicas. Estamos perante formas de objetificação dos corpos inauguradas pela ciência moderna e que, num sentido próximo daquilo que Foucault designa por “biopolíticas” e “práticas de separação”, distinguem o doente do sadio, o deficiente do capaz, o são do louco, o homossexual do heterossexual, etc.

 

Sobretudo a partir de meados do século XX, as formas totalizantes como os sujeitos foram demarcados por via dos seus corpos engendram resistências, insurgências que se traduziriam nas lutas anticoloniais e nas políticas identitárias (movimentos negros, feministas, LGBT, de pessoas com deficiência, antipsiquiatria, etc.). Os sujeitos oprimidos constituíram solidariedades e agendas emancipatórias que mobilizaram os corpos estigmatizados para uma arena política onde as lógicas de opressão foram sendo revertidas, ressignificadas ou traduzidas no direito à diferença e à justiça histórica. Diferentes categorias de corpos sustentam de modo distinto o direito a ser humano – logo, a ter direitos humanos.

 

O corpo ausente que assinalamos liga-se, em primeiro lugar, ao modo como a epistemologia moderna, positivista, alicerçada na dualismo cartesiano mente-corpo, veio a celebrar a possibilidade de um pensamento desincorporado. A percepção, a empatia, a imitação e a imaginação são processos fundadores de qualquer saber, pelo que o vínculo ao carácter incorporado de toda a experiência avulta contra a persuasão positivista moderna. Assumindo o carácter corpóreo de toda a experiência e, logo, de todo o saber, estamos próximos de um “realismo incorporado” (Lakoff e Johnson, 1999: 92) em que o conhecimento nunca é a produção de uma ideia universal de como as coisas são, mas sim a construção de um conhecimento situado que nos permite funcionar no mundo.

 

Em segundo lugar, a ausência do corpo revela-se mais concretamente nas ciências sociais pelo modo como a dualidade corpo-mente e natureza-cultura tem fomentado leituras do corpo que apenas o constituem como objeto da cultura, mas que fracassam em o inscrever como base da experiência e sujeito de cultura e conhecimento. No entanto, a assunção da experiência incorporada nas ciências sociais é crucial, seja para uma reflexividade metodológica que inscreva no mundo o investigador, seja para uma gramática mais ampla que permita conferir relevância a subjetividades e intersubjetividades constituídas e mediadas pelo corpo que somos. O corpo ausente que importa recrutar para as Epistemologias do Sul é o corpo que constitui a condição do conhecimento, que se liga às emoções e que é condição do prazer, de desejo e de sofrimento, o corpo que tanto traz a vulnerabilidade da existência como se constitui enquanto manifesto de luta e resistência. 

 

Referências e sugestões adicionais de leitura:

Foucault, Michel (2003), “Security, Territory, and Population”, in Paul Rabinow; Nikolas Rose (orgs.), The Essential Foucault: selections from Essential works of Foucault, 1954-1984. New York: New Press.

Lakoff, George; Johnson, Mark (1999), Philosophy in the Flesh: The Embodied Mind and its Challenge to Western Thought. Nova Iorque: Basic Books.

Fanon, Frantz (1967), Black Skin, White Masks. Nova Iorque: Grove Press.

Santos, Boaventura de Sousa (2002), “Para uma Sociologia das Ausências e uma Sociologia das Emergências”, Revista Crítica de Ciências Sociais, Vol. 63, 237-280.

 


Bruno Sena Martins é Investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES/UC). É Co-coordenador do Programa de Doutoramento Human Rights in Contemporary Societies e Co-coordenador no Programa de extensão académica “O Ces vai à Escola”. 

 

Como citar

Martins, Bruno Sena (2019), "Corpo", Dicionário Alice. Consultado a 15.08.20, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=24244. ISBN: 978-989-8847-08-9