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No imaginário ocidental, o nome “Alice” traz de imediato à ideia as narrativas nonsense de Lewis Carroll – Alice’s Adventures in Wonderland  (1865) e Through the Looking Glass(...)
Maria Irene Ramalho

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No imaginário ocidental, o nome “Alice” traz de imediato à ideia as narrativas nonsense de Lewis Carroll – Alice’s Adventures in Wonderland  (1865) e Through the Looking Glass(...)
Maria Irene Ramalho

 

 

Alice

Maria Irene Ramalho
Publicado em 2023-08-19

No imaginário ocidental, o nome “Alice” traz de imediato à ideia as narrativas nonsense de Lewis Carroll – Alice’s Adventures in Wonderland  (1865) e Through the Looking Glass and What Alice Found There (1871) – títulos traduzidos em Portugal como Alice no País das Maravilhas e Alice do outro lado do espelho.


Lewis Carroll é pseudónimo de Charles Lutwidge Dodgson, professor de matemática da Universidade de Oxford, que compôs estas histórias para entreter Alice Liddell e as irmãs, filhas do reitor de Christ Church College. Para a construção dos seus livros-de-Alice, Carroll serviu-se do rico acervo inglês de contos, lendas e poemas tradicionais, rimas infantis, provérbios e fábulas, que as pequenas Liddell imediatamente reconheceriam, sem dúvida divertindo-se com as deturpações paródicas introduzidas pelas personagens fabulosas das histórias.


Os livros-de-Alice, tal como as fábulas, estão povoados de animais e objectos antropomórficos, cujos comportamentos e falas, porém, em vez de produzirem lições de moral sobre a realidade, reduzem a realidade ao absurdo, como que reflectida num espelho comicamente deformador. A Alice das histórias é uma menina inglesa de sete anos, bem segura do seu mundo e muito ciente das suas boas maneiras, saberes e privilégios, e atenta a tudo quanto a rodeia. Numa tarde sonolenta, Alice deixa-se surpreender por um coelho branco, de colete vestido, que passa por ela a correr e sempre a consultar as horas num enorme relógio de bolso. Cheia de curiosidade, Alice corre atrás do coelho e acaba por cair por um buraco abaixo, sofrendo no processo estranhas mutações fisiológicas e identitárias. O mundo absurdo que por fim encontra está povoado de animais humanos e não humanos, peças de xadrez e figuras de baralhos de cartas – estranhos e caprichosos habitantes, de costumes insólitos, que divertem e exasperam Alice. A pequena Alice tem alguns momentos de genuína abertura ao ser-diferente num mundo desconhecido, procurando entender o que é, da sua perspectiva, ininteligível. Não deixa, por isso, de se mostrar muitas vezes arrogante no seu sentimento de superioridade, tratando de forma descortês os habitantes daquele mundo outro, procurando até impor-lhes os preceitos sociais e morais ingleses.


O choque cultural que Alice vive quando encontra outras criaturas num mundo outro, embora muito provavelmente tal não tivesse estado nas intenções de Carroll, pode hoje ler-se como uma alegoria da violência cultural imposta pela Europa imperial de finais do século XIX aos povos colonizados. O facto de ser por vezes difícil perceber quem é o “outro” nos livros-de-Alice, uma vez que a protagonista, a colonizadora óbvia (como na cena do julgamento em Alice no país das maravilhas), muitas vezes se sente como sendo ela própria colonizada (como na cena do comboio de Alice do outro lado do espelho), parece anunciar a conclusão a que mais tarde se chegou de que a colonização tanto cria o colonizado como o colonizador. Embora sem aparentemente disso se darem conta, os livros-de-Alice de Carroll reflectem o passado (e o presente) colonial da Europa. Escritos numa época em que as colónias eram firmemente mantidas no seu devido lugar e a Pax Britannica tinha feito da Grã-Bretanha a força policial global, os livros-de-Alice dão a ler o pensamento colonial da forma mais perigosamente sedutora, porque de um modo brilhantemente hilariante. Há um mundo de seres percebidos como ridiculamente absurdos (ou inferiores) destinado a ser ignorado ou a deixar-se dominar por quem mais e melhor julga saber.  No mundo caricato imaginado por Lewis Carroll, ostensivamente para entreter crianças, os singulares habitantes deste país de ambíguas maravilhas são usados, maltratados e vexados das mais variadas formas para divertimento dos seus burlescos superiores, que por ali se passeiam levianamente e vão usando e descartando seres e coisas, dando ordens a toda a gente — incluindo a Alice — e manipulando a língua para lhe testar os limites. Todos eles sabem, e Alice vai também aprendendo gradualmente, que língua é poder. Em Do outro lado do espelho aprende-se ainda, com Humpty Dumpty, o famoso ovo antropomórfico das rimas infantis inglesas, que o que é verdadeiramente importante é saber quem manda.


Não espanta que a figura da Alice de Carrol tenha servido de inspiração ao sociólogo Boaventura de Sousa Santos para formular um projecto internacional, intitulado “ALICE. Espelhos Estranhos, Lições Imprevistas: Conduzindo a Europa a uma nova forma de partilhar experiências” (V. verbete respectivo), cujo objectivo foi demonstrar que o entendimento do mundo em muito excede o entendimento ocidental do mundo. Já antes, o sociólogo tinha dado a uma colectânea de ensaios seus o sugestivo título de Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade. A pós-modernidade inclui, evidentemente, o pós-colonialismo. Mesmo que a Europa hegemónica tenha tido durante cinco séculos a presunção de ensinar o mundo a partir de uma posição superior/colonial, não hesitando em recorrer a expansão e conquista, repressão e violência, humilhação e extermínio para impor os seus valores e proteger os seus interesses, o projecto ALICE veio mostrar que a Europa está muito a tempo de aprender com outros mundos a construir inter-relações pacíficas, verdadeiramente pós-imperiais e pós-coloniais. Tal como, de resto, a pequena Alice de Carrol, ao acordar do seu sonho maravilhoso, não pôde deixar de aprender, e de nos dar a entender a nós, que um mundo como o seu não é o único possível.

 

 

Referências

Carroll, Lewis (2000). Alice’s Adventures in Wonderland & Through the Looking Glass and What Alice Found There. The Annotated Alice. Ed. Martin Garner. New York: Norton.
Carroll, Lewis (2010). Alice do outro lado do espelho. Tr. Maria Filomena Duarte. Rev. Lídia Freitas. Lisboa: Nelson de Matos.
Carroll, Lewis (2011). Alice no país das maravilhas. Tr. Maria Filomena Duarte. Alfragide: Casa das Letras.
Santos, Boaventura de Sousa (2013 [1994]). Pela mão de Alice. O social e o político na pós-modernidade. 9ª edição, revista e aumentada. Coimbra: Almedina.

 

 

Como citar

Ramalho, Maria Irene (2019), "Alice", Dicionário Alice. Consultado a 20.04.24, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/?id=23838&pag=23918&id_lingua=1&entry=43854. ISBN: 978-989-8847-08-9