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Desporto

Carlos Nolasco
Publicado em 2019-04-01

O desporto, enquanto um dos mais expressivos fenómenos sociais das sociedades contemporâneas, é produto da modernidade europeia, constituindo-se como tal ao longo do século XIX. Progressivamente, dos ancestrais jogos populares, localizados, desorganizados, sem regras escritas nem qualquer entidade organizadora, intimamente associados a festividades religiosas e a calendários agrícolas, emergiu o desporto. Não havendo um facto cronológico que assinale o aparecimento do desporto, o que há é um paulatino processo de desportivização, o qual consiste numa diminuição da turbulência e no repúdio das práticas violentas do jogo, através da regulamentação das mesmas (Elias e Dunning, 1992: 59). Todo este processo ocorre em paralelo com a grande transformação das sociedades tradicionais, rurais, religiosas, de solidariedade mecânica, para as modernas sociedades industriais, urbanas, de espírito capitalista e solidariedade orgânica. Sendo a Inglaterra o primeiro país a reunir os elementos que permitiram essa transformação, é consequentemente aí que se encontra também a génese do desporto. A partir de então, o desporto disseminou-se com relativa facilidade por todo o mundo. Através das malhas que o império britânico teceu, o desporto, como se de um desenvolvimento civilizante se tratasse, foi mundialmente difundido, constituindo-se num dos localismos globalizados mais bem-sucedidos.

 

Como produto da modernidade, o desporto é marcado por um conjunto de caraterísticas sistematicamente interrelacionadas, nomeadamente: a secularização dos gestos desportivos; a igualdade na possibilidade de participação; a burocratização na administração e organização das modalidades; a especialização no sentido da diferenciação conforme as aptidões e as estratégias técnico-táticas; a racionalização do desempenho físico para maior rentabilidade e espetacularidade; a quantificação que permite comparar marcas, resultados e desempenhos; a obsessão pelo recorde e o desafio em superá-lo (Guttmann, 1994: 3). Caraterísticas que são transversais a todas as modalidades desportivas, e ainda que com intensidades distintas, encontram-se nos desportos profissional, amador, adaptado, escolar, militar, laboral, recreio, entre outros. Esta heterogeneidade dificulta a existência de uma definição de desporto, na medida em que necessita conjugar modalidades tão díspares como o boxe ou o xadrez, nas quais se verificam diferentes intensidades de utilização do corpo e do intelecto ou, por exemplo, a prática futebolística de alta competição, especializada e profissionalizada, com a mesma prática a nível amador, ou simplesmente como uma prática de lazer ou de desporto escolar. Numa definição possível, pode afirmar-se que desporto é um sistema predominantemente institucionalizado de práticas competitivas, regulamentadas, com dominante física, em que com base na comparação de performances se procura determinar um campeão, ou registar um recorde (Brohm: 1992: 89).

 

Aparentemente simples e óbvio na forma como acontece, o desporto constitui-se no entanto como um fenómeno social complexo e contraditório, condensando em si uma multiplicidade de dimensões. Para além da performance desportiva de citius, altius e fortius, há componentes simbólicas, culturais, políticas e económicas, entre outras, que conferem transcendência ao gesto desportivo. Os megaeventos desportivos, como os Jogos Olímpicos ou os Campeonatos do Mundo de Futebol são momentos privilegiados para constatar a complexidade do desporto, porque nesses momentos os atletas são também símbolos da nação, jogando um relevante papel político, tal como são símbolos de marcas que se consomem, participando igualmente num jogo económico, entre muitas outras dimensões que não cabem aqui recensear.

 

Sendo uma das mais intensas expressões da cultura de massas, com significativo impacto na vida dos indivíduos e no quotidiano de todas as sociedades, o desporto permite distintas interpretações. Por um lado uma leitura funcionalista, em que o desporto surge como atividade integrante do sistema social, libertadora das tensões, espaço de afirmação de identidades e de socialização. Por outro, numa interpretação crítica, o desporto é interpretado como atividade que contribui para a reprodução ideológica do sistema capitalista, vendido como produto que suscita alienação e incentiva ao consumo.

 

Ensaiando um olhar desde as epistemologias do Sul (Santos, 2008), o desporto constitui-se como um processo ortopédico, prática colonizadora, instrumento de totalitarismos e jogo de estratégia capitalista. Ou seja, enquanto fenómeno hegemónico, baseado numa racionalidade instrumental do corpo e numa lógica de rendimento competitivo, o desporto para além de formatar todas as práticas lúdicas pré-modernas, colonizou outros modelos de jogo não ocidentais, os quais ou se adaptaram ao modelo de sport, ou foram convertidos em meras manifestações folclóricas, enquanto outros desapareceram simplesmente. Todo este processo foi desenvolvido por instâncias federativas e comités internacionais, os quais regulam o universo desportivo de forma totalitária e autocrática, em conformidade com interesses económicos e financeiros que estão para além do próprio desporto. Em suma, ao invés de se constituir como elemento de promoção social e individual, o fenómeno desportivo metamorfoseou-se com a política, adulterou-se com a economia, e frustrou-se com a violência, o racismo, a discriminação sexual e a computorização dos atletas. Desde esta perspetiva, resta a pergunta se um outro desporto é possível? É difícil mas é possível, como o mostram os exemplos de competições informais, alternativas e emancipatórias. Sendo o desporto um produto da sociedade em que ocorre, as possibilidades de um outro desporto serão sempre as possibilidades de uma outra sociedade.

 


Referências e sugestões adicionais de leitura:

Elias, Norbert; Dunning, Eric (1992), A busca da excitação. Lisboa: Difel.

Guttmann, Allen (1994), Games & Empires. Modern sports and cultural imperialism. Nova Iorque: Columbia University Press.

Brohm, Jean-Marie (1992), Sociologie Politique du Sport. Nancy: Presses Universitaires de Nancy.

Santos, Boaventura de Sousa (2008), “A filosofia à venda, a douta ignorância e a aposta de Pascal”, Revista Crítica de Ciências Sociais, Vol. 80: 11-43.

 

Carlos Nolasco, sociólogo, doutorado, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Tem como áreas de trabalho as Migrações de Trabalho Desportivo, a Sociologia do Desporto, do Direito e a política dos refugiados.

 

 

Como citar

Nolasco, Carlos (2019), "Desporto", Dicionário Alice. Consultado a 18.11.19, em https://alice.ces.uc.pt/dictionary/index.php?id=23838&pag=23918&entry=24252&id_lingua=4. ISBN: 978-989-8847-08-9